Entre Dois Fogos: O Diário de uma Nora Portuguesa

— Mariana, já viste o estado desta cozinha? — A voz da Dona Amélia ecoou pela casa como um trovão. Eu estava a tentar preparar o jantar, as mãos tremiam-me enquanto cortava cebola. O Rui ainda não tinha chegado do trabalho e eu sabia que, mais uma vez, teria de enfrentar aquela tempestade sozinha.

“Será que algum dia vou ser suficiente para ela?”, pensei. Desde o dia em que casei com o Rui, há três anos, que sinto que vivo num campo minado. A Dona Amélia nunca me aceitou verdadeiramente. Sempre fui a rapariga da cidade, demasiado moderna para o gosto dela, que cresceu numa aldeia do interior, onde as mulheres sabiam fazer pão e tratar da horta antes mesmo de saberem ler.

— Mariana, olha para isto! — Ela apontava para uma mancha de gordura no fogão. — No meu tempo, uma mulher que não sabia manter a casa limpa não era digna de respeito.

Engoli em seco. — Eu limpo já, Dona Amélia. Só estava a preparar o jantar para o Rui…

Ela bufou. — O Rui merece melhor. Ele sempre foi um bom rapaz, trabalhador. Não percebo porque é que ele foi escolher alguém como tu.

As palavras dela eram facas. Mas eu não podia responder. O Rui sempre me pediu paciência. “Ela é assim com toda a gente”, dizia ele. Mas eu sabia que não era verdade. Com a irmã dele, a Teresa, era só elogios: “A Teresa é uma mulher de mão cheia! Olha para ela, com dois filhos e a casa sempre impecável.”

Eu tentava compensar. Trabalhava como professora primária numa escola pública em Lisboa e ainda assim fazia questão de chegar cedo a casa para preparar o jantar, arrumar tudo, lavar roupa. Mas nada era suficiente.

Naquela noite, quando o Rui chegou, encontrou-me sentada à mesa da cozinha, os olhos vermelhos de tanto chorar.

— O que se passou? — perguntou ele, preocupado.

— A tua mãe… — comecei, mas parei. Não queria ser aquela esposa que se queixa da sogra todos os dias.

Ele suspirou. — Mariana, já falámos sobre isto. Ela é difícil, mas é minha mãe. Temos de ter paciência.

— Rui, eu já não aguento mais… Sinto-me uma estranha na minha própria casa! — explodi finalmente.

Ele ficou em silêncio. O silêncio dele doía mais do que qualquer palavra da Dona Amélia.

No dia seguinte, acordei cedo para preparar o pequeno-almoço. A Dona Amélia já estava na cozinha.

— Mariana, vais mesmo dar cereais ao Rui? No meu tempo fazia-se papas de aveia caseiras!

Sorri forçadamente. — Ele gosta de cereais…

Ela abanou a cabeça e saiu da cozinha resmungando.

Os dias passaram assim: críticas veladas, comparações com a Teresa, olhares reprovadores quando eu chegava cansada do trabalho e não tinha forças para fazer um jantar digno de um domingo em família.

A situação piorou quando engravidei. Em vez de alegria, senti medo. Medo do que ela diria sobre a forma como eu ia cuidar do bebé.

— Mariana, tens de comer melhor! Olha que isso faz mal ao menino! — dizia ela sempre que me via comer qualquer coisa fora das suas regras.

O Rui tentava defender-me, mas sempre com meias palavras. “Deixa lá a Mariana em paz”, dizia ele baixinho, mas nunca enfrentava verdadeiramente a mãe.

Quando o bebé nasceu — o nosso pequeno Miguel — as coisas atingiram o auge.

— Não sabes pegar nele! Vais deixá-lo cair! — gritou ela no primeiro dia em casa.

Eu tremia cada vez que ela entrava no quarto. Sentia-me uma criança outra vez, incapaz de fazer nada certo.

Uma noite, depois de um dia especialmente difícil em que ela criticou até a forma como eu amamentava o Miguel, fechei-me na casa de banho e chorei até não ter mais lágrimas.

“Será que sou mesmo uma má mãe? Será que o Rui se arrepende de ter casado comigo?”

Comecei a evitar estar em casa quando ela lá estava. Levava o Miguel ao parque ou ia visitar a minha mãe em Almada só para fugir àquele ambiente tóxico.

A minha mãe notou logo.

— Mariana, tu não podes continuar assim. Vais acabar por adoecer.

— Mas o Rui… ele nunca vai escolher entre mim e a mãe dele.

— Não se trata de escolher. Trata-se de te respeitar como mulher e mãe do filho dele.

Essas palavras ficaram-me na cabeça durante dias. Comecei a pensar se não estaria mesmo a perder-me naquele papel de nora perfeita que nunca conseguiria desempenhar.

Um domingo à tarde, durante um almoço em família, a Dona Amélia fez um comentário sobre como “antigamente as mulheres sabiam cuidar dos maridos e dos filhos” e olhou diretamente para mim.

Senti algo dentro de mim quebrar.

Levantei-me da mesa e disse calmamente:

— Dona Amélia, agradeço tudo o que faz por nós, mas esta é a minha casa também. E eu faço as coisas à minha maneira. Pode não ser igual à sua, mas é a nossa forma de viver.

O silêncio foi ensurdecedor. O Rui olhou para mim surpreendido. A Teresa baixou os olhos para o prato. A Dona Amélia ficou vermelha de raiva mas não disse nada.

Nesse dia percebi que tinha de traçar limites. Que ser nora não significa ser submissa nem perder quem sou.

O Rui demorou uns dias a perceber o impacto daquele momento. Mas aos poucos começou a apoiar-me mais abertamente. Quando a mãe fazia comentários desagradáveis, ele respondia: “Mãe, aqui quem decide somos nós.”

Não foi fácil. Houve discussões, lágrimas e silêncios pesados. Mas também houve momentos em que senti finalmente que tinha voz na minha própria casa.

Hoje olho para trás e vejo quanto cresci neste processo doloroso. Ainda tenho medo às vezes — medo de não ser suficiente, medo de falhar como mãe ou esposa. Mas aprendi que ninguém tem o direito de me fazer sentir menos do que sou.

E vocês? Já sentiram que tinham de escolher entre agradar aos outros e serem fiéis a vocês próprios? Onde traçam os vossos limites?