Entre Comparações e Silêncios: O Meu Lugar no Coração Dele

— Outra vez arroz de pato, Sofia? A Marta fazia sempre bacalhau à Brás para a minha mãe, sabes? — O tom do Miguel era casual, mas cada palavra era uma farpa cravada no meu peito.

Fiquei ali, parada na cozinha, com a colher de pau suspensa no ar, a olhar para o arroz que fervia. O cheiro do pato misturava-se com o peso do silêncio. A Marta. Sempre a Marta. A ex-mulher dele, a referência constante, o padrão inalcançável. Senti o rosto a aquecer, não só do vapor do tacho, mas da humilhação.

— Se preferes, podes pedir à Marta para vir cozinhar para a tua mãe — respondi, tentando manter a voz firme, mas a minha mão tremia.

Ele riu, como se eu tivesse dito uma piada. — Não sejas assim, Sofia. Só estou a dizer que a minha mãe adora bacalhau à Brás. Não é preciso ficares sensível.

Sensível. Era sempre isso. Eu era sensível, dramática, exagerada. Nunca era ele que dizia demais, nunca era a mãe dele que exigia demais. Era eu, sempre eu, a errada.

Quando casei com o Miguel, sabia que ele tinha um passado. Todos temos. Mas não estava preparada para viver com fantasmas à mesa, no sofá, até na cama. A Marta era uma presença invisível, mas constante. A sogra, Dona Teresa, fazia questão de a manter viva em cada conversa.

— A Marta fazia assim… — dizia ela, enquanto eu punha a mesa. — A Marta nunca se esquecia de trazer flores ao domingo. — A Marta, a Marta, a Marta.

No início, tentei agradar. Esforcei-me para aprender as receitas preferidas da família, para decorar a casa como eles gostavam, para ser a nora perfeita. Mas cada tentativa era recebida com um sorriso condescendente ou uma comparação velada.

— O arroz está bom, mas a Marta punha sempre um bocadinho de chouriço. Dava outro sabor, sabes? — dizia Dona Teresa, empurrando o prato para o lado, como se o meu esforço fosse invisível.

À noite, deitava-me ao lado do Miguel e olhava para o teto, a pensar se algum dia seria suficiente. Ele adormecia rápido, como se nada o perturbasse. Eu ficava a ouvir o silêncio, a sentir o peso de todas as expectativas que nunca conseguiria cumprir.

Certa noite, depois de um jantar especialmente tenso, não aguentei mais.

— Miguel, tu amas-me ou amas a ideia de mim? — perguntei, a voz baixa, quase um sussurro.

Ele virou-se, meio sonolento. — Que pergunta é essa agora?

— Sinto que nunca sou suficiente. Que estou sempre a ser comparada com a Marta. Até a tua mãe… — a minha voz falhou, mas continuei. — Não sei se aguento viver assim.

Ele suspirou, impaciente. — Estás a exagerar. A Marta fez parte da minha vida, é normal que haja memórias. Não podes esperar que apaguemos tudo só porque tu apareceste.

Apareceste. Como se eu fosse um acidente, um acaso. Não uma escolha.

Os dias seguintes foram um desfile de silêncios e pequenas discussões. A Dona Teresa ligava todos os dias, a perguntar se eu já tinha aprendido a fazer bacalhau à Brás. O Miguel chegava tarde, dizia que estava cansado do trabalho, mas eu sabia que era mais do que isso.

Uma tarde, decidi ir visitar a minha mãe. Precisava de um refúgio, de alguém que me visse como Sofia, não como a substituta de ninguém.

— Filha, tu não tens de ser ninguém além de ti mesma — disse-me ela, enquanto me servia chá. — Quem não te aceita assim, não te merece.

Chorei no colo dela, como quando era criança. Senti-me ridícula, mas também aliviada. Pela primeira vez em meses, alguém me via, realmente me via.

Quando voltei a casa, o Miguel estava sentado no sofá, a ver televisão. Olhou para mim, mas não disse nada. Sentei-me ao lado dele, mas o espaço entre nós parecia um abismo.

— Miguel, precisamos de falar — disse, finalmente.

Ele suspirou, desligou a televisão. — O que foi agora?

— Não posso continuar assim. Sinto que nunca vou ser suficiente para ti, nem para a tua mãe. Estou cansada de viver à sombra da Marta. Preciso que escolhas: ou vives comigo, no presente, ou continuas preso ao passado. Mas eu não vou perder-me para agradar a ninguém.

Ele ficou calado, a olhar para as mãos. O silêncio era ensurdecedor. Finalmente, falou:

— Não é fácil para mim. A Marta esteve comigo muitos anos. A minha mãe nunca aceitou bem o divórcio. Mas eu amo-te, Sofia. Só não sei como lidar com tudo isto.

— Então aprende. Porque eu não vou ser a Marta. Nunca vou ser. E não quero ser.

Nos dias seguintes, Miguel tentou mudar. Defendeu-me perante a mãe, começou a valorizar mais as minhas pequenas vitórias. Mas as feridas estavam lá, abertas, a sangrar devagar. A Dona Teresa continuava a comparar, mas agora eu já não me calava.

— Dona Teresa, eu sou a Sofia. Faço as coisas à minha maneira. Se não gosta, tem todo o direito. Mas não vou viver a tentar ser outra pessoa — disse-lhe um dia, com a voz trémula mas firme.

Ela olhou para mim, surpreendida. Pela primeira vez, vi respeito nos olhos dela. Não aceitação, mas respeito.

O casamento não ficou perfeito. Houve dias bons e dias maus. Mas aprendi a pôr limites, a dizer não. Aprendi que o amor não é competição, nem comparação. É escolha, todos os dias.

Hoje, olho para trás e vejo a mulher que quase perdi. A mulher que tentava agradar a todos, menos a si mesma. Pergunto-me: quantas de nós já se perderam assim, a tentar ser a ex de alguém, a nora perfeita, a filha ideal? E vocês, já sentiram que precisaram de desaparecer para caber na vida de alguém?