Entre a Minha Mãe e a Minha Mulher: O Peso de Uma Escolha
— Miguel, não aguento mais! — gritou Sílvia, com os olhos marejados de lágrimas, enquanto atirava as chaves para cima da mesa da cozinha. O som metálico ecoou pela casa, cortando o silêncio pesado que se instalara desde o almoço de domingo. Eu estava encostado à bancada, com as mãos trémulas, tentando encontrar palavras que não existiam.
A minha mãe, Dona Amélia, tinha acabado de sair. Mais uma vez, a sua visita transformara o nosso lar num campo de batalha. Ela criticara o tempero do arroz, o modo como Sílvia dobrava as toalhas e até a cor das cortinas que tínhamos escolhido juntos. Sílvia tentara sorrir, engolindo em seco cada comentário, mas eu via nos seus olhos a dor e a humilhação.
— Não percebes que ela faz isto de propósito? — insistiu Sílvia, a voz embargada. — Ela quer afastar-me de ti! E tu… tu ficas calado! Sempre calado!
Senti-me pequeno, esmagado entre duas forças opostas. Cresci num bairro antigo do Porto, filho único de uma mulher que sempre fez tudo por mim. O meu pai morreu cedo, e Dona Amélia tornou-se o centro do meu mundo. Quando conheci Sílvia na faculdade, pensei que finalmente teria espaço para construir a minha própria família. Mas nunca imaginei que as duas mulheres mais importantes da minha vida se tornariam rivais.
Naquela noite, depois de Sílvia se fechar no quarto, sentei-me na sala escura. O relógio da parede marcava as horas com uma precisão cruel. Lembrei-me das palavras da minha mãe, ditas em tom baixo quando Sílvia não estava por perto:
— Miguelinho, ela não te merece. Olha como fala comigo… Tu sempre foste tão educado. Não deixes que ela te afaste da tua mãe.
Essas palavras ecoavam na minha cabeça como um feitiço antigo. Eu sabia que Dona Amélia sentia medo de ficar sozinha, mas não conseguia aceitar que esse medo justificasse tanta amargura. E eu? Onde ficava eu no meio disto tudo?
No dia seguinte, fui trabalhar como um autómato. Os colegas do escritório notaram o meu ar ausente. O João, meu amigo de infância, puxou-me de lado:
— Miguel, tens de resolver isso. Ou ficas doente. Não podes continuar assim.
Assenti em silêncio. Mas como resolver? Se confrontasse a minha mãe, sentia-me um traidor. Se defendesse Sílvia, parecia que estava a escolher um lado — e ambos exigiam fidelidade total.
À noite, tentei falar com Sílvia. Ela estava sentada na cama, a olhar para fotografias antigas no telemóvel.
— Lembras-te deste dia? — perguntou-me, mostrando uma foto nossa na praia da Foz, sorridentes e despreocupados.
— Lembro… — respondi, sentindo um nó na garganta.
— Onde é que nos perdemos, Miguel?
Não soube responder. Apenas me sentei ao lado dela e segurei-lhe a mão.
Os dias seguintes foram um desfile de silêncios e pequenas discussões. A minha mãe ligava todos os dias:
— Já jantaste? A Sílvia sabe fazer aquele bacalhau que gostas? Não te esqueças de passar cá amanhã.
Sílvia ouvia as conversas e revirava os olhos. Um domingo, recusei ir almoçar a casa da minha mãe. Dona Amélia ficou ofendida:
— Então agora já não precisas da tua mãe? É isso? Ela já te fez esquecer quem te criou?
Senti-me miserável. No regresso a casa, Sílvia esperava-me na sala.
— Miguel… ou pões limites à tua mãe ou eu não aguento mais.
A ameaça pairou no ar como uma sentença. Pela primeira vez vi nos olhos dela uma tristeza profunda — não era raiva, era cansaço.
Nessa noite sonhei com o meu pai. Ele estava sentado à mesa da cozinha antiga, a fumar um cigarro e a olhar para mim com aquele ar sério que só mostrava quando as coisas eram mesmo importantes.
— Tens de ser homem, Miguel — disse ele no sonho. — Não podes viver sempre para agradar aos outros.
Acordei suado e com o coração aos pulos. Decidi que tinha de fazer alguma coisa.
No sábado seguinte fui visitar a minha mãe sozinho. Ela estava sentada na sala, a ver uma novela na televisão.
— Mãe… precisamos de falar.
Ela olhou para mim com desconfiança.
— O que foi agora? A Sílvia está grávida?
Suspirei.
— Não, mãe. Mas se continuar assim nunca vai estar…
Ela ficou em silêncio. Aproveitei para continuar:
— Mãe, eu amo-te muito. Sempre amei. Mas agora tenho uma família. Preciso que respeites a minha mulher e o nosso espaço.
O rosto dela endureceu.
— Então é isso? Agora sou eu que estou errada? Depois de tudo o que fiz por ti?
Senti as lágrimas a quererem saltar dos olhos.
— Não é isso, mãe… Só quero paz em casa. Quero poder ser feliz com a Sílvia sem sentir que estou sempre a escolher entre vocês as duas.
Ela levantou-se devagar e foi até à janela. Ficou ali parada durante longos minutos.
— Sabes… quando o teu pai morreu eu só tinha a ti — disse ela finalmente, num tom quase inaudível. — Tive medo de te perder também.
Aproximei-me dela e abracei-a.
— Nunca vais perder-me, mãe. Mas tens de confiar em mim…
Saí dali com o coração pesado mas aliviado por finalmente ter dito o que precisava ser dito.
Quando cheguei a casa contei tudo à Sílvia. Ela chorou baixinho e abraçou-me com força.
Os dias seguintes foram estranhos — Dona Amélia deixou de ligar todos os dias e as visitas tornaram-se menos frequentes. No início senti falta das suas chamadas; depois percebi que estava finalmente a respirar fundo pela primeira vez em anos.
Com o tempo, as coisas acalmaram-se. A relação entre Sílvia e a minha mãe nunca foi perfeita, mas aprenderam a respeitar os limites uma da outra. Eu também aprendi a ser mais firme nas minhas escolhas — por mim e pela família que decidi construir.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantos homens vivem presos entre o passado e o futuro? Quantos têm coragem de cortar o cordão umbilical sem culpa? Será possível agradar a todos sem nos perdermos pelo caminho?