Entre a Confiança e a Traição: Será Que O Meu Filho Tem Razão, Ou Eu Estou Cega de Amor?
— Mãe, não percebes mesmo? Ele está a enganar-te! — O grito do Tomás ecoou pela cozinha, fazendo-me estremecer. O prato que segurava quase me escorregou das mãos. Olhei para ele, olhos vermelhos de raiva e talvez de medo. O meu filho, o meu menino, agora um homem feito, olhava-me como se eu fosse uma estranha.
— Tomás, por favor… — tentei manter a voz firme, mas senti-a tremer. — Não digas essas coisas. O Ricardo nunca me faria isso.
Ele bufou, passou as mãos pelo cabelo castanho desgrenhado e virou costas. — És mesmo cega, mãe. Não vês as mensagens? As desculpas para chegar tarde? Os fins de semana que passa “em trabalho”? — Fez aspas no ar com os dedos, como se cada palavra fosse um golpe.
Sentei-me à mesa, as pernas a fraquejar. O cheiro do café frio misturava-se com o perfume doce das flores que o Ricardo me trouxera na véspera. “Para ti, minha querida”, dissera ele, beijando-me na testa. Tão carinhoso. Tão atencioso. Como podia ser mentira?
Tomás aproximou-se de novo, mais calmo mas com os olhos ainda duros. — Mãe, eu vi as mensagens. Não queria, juro. Mas estavam no tablet quando fui buscar o carregador. Não eram para ti.
O chão pareceu fugir-me dos pés. — Que mensagens?
— Com uma tal de Sílvia. Conversas… íntimas. — A palavra ficou suspensa no ar como uma ameaça.
A minha cabeça rodopiava. Sílvia? Quem era Sílvia? O Ricardo nunca me falara dela. Mas também… ele tinha colegas de trabalho, amigas antigas. Não podia ser o que o Tomás insinuava.
— Não podes julgar assim só por umas mensagens — tentei argumentar, mas a minha voz soava fraca até aos meus próprios ouvidos.
Tomás abanou a cabeça, frustrado. — Mãe, ele está a brincar contigo! Não vês que te está a usar? Desde que o pai morreu… — Engoliu em seco, a voz embargada. — Só quero proteger-te.
O nome do António pairou entre nós como uma sombra antiga. O meu marido, o pai do Tomás, partira há cinco anos num acidente estúpido na autoestrada de Cascais. Desde então, éramos só nós dois até o Ricardo aparecer na minha vida, trazendo luz onde só havia vazio.
Levantei-me devagar e fui até à janela. Lá fora, as árvores dançavam ao vento e os vizinhos passavam apressados com sacos do Pingo Doce. A vida continuava indiferente à minha dor.
Quando o Ricardo chegou nessa noite, tentei agir normalmente. Pousei-lhe um prato de sopa à frente e sorri. Ele retribuiu o sorriso, mas os olhos fugiram dos meus.
— Está tudo bem? — perguntou ele.
— Está — menti.
Durante o jantar, Tomás mal tocou na comida. O silêncio era pesado como chumbo. O Ricardo tentou puxar conversa sobre futebol e política, mas ninguém respondeu.
Depois do jantar, Tomás saiu sem dizer palavra. Fiquei sozinha com o Ricardo na sala.
— O que se passa? — insistiu ele.
Olhei-o nos olhos e vi ali ternura… ou seria só hábito? — Quem é a Sílvia?
Ele empalideceu ligeiramente antes de sorrir. — Uma colega do escritório. Porquê?
— O Tomás viu mensagens vossas… íntimas.
O silêncio caiu entre nós como uma sentença. Ele suspirou e passou as mãos pelo rosto.
— Olha… não queria que soubesses assim. A Sílvia está a passar um mau bocado com o marido e tem-me pedido conselhos. Talvez tenha sido demasiado próximo, mas não há nada entre nós.
Quis acreditar nele. Quis tanto acreditar que doeu.
Mas as dúvidas começaram a corroer-me por dentro como traças num vestido antigo. As noites tornaram-se longas e frias; cada vez que o Ricardo saía para “trabalhar até tarde”, eu ficava acordada a olhar para o teto, a imaginar conversas sussurradas e risos partilhados com outra mulher.
O Tomás afastou-se de mim nos dias seguintes. Saía cedo e chegava tarde, evitava olhar-me nos olhos. Um dia encontrei-o no quarto dele a fazer as malas.
— Vais sair de casa? — perguntei, sentindo o coração apertar-se.
Ele não respondeu logo. — Não aguento ver-te assim… a deixares-te enganar. Preciso de espaço.
Chorei nessa noite como não chorava desde que perdi o António. Senti-me sozinha no mundo: traída pelo homem que amava e afastada do filho por quem daria a vida.
No trabalho comecei a falhar prazos; os colegas olhavam-me com pena ou impaciência. A minha chefe chamou-me ao gabinete.
— Ana Paula, está tudo bem em casa?
Quis dizer-lhe tudo: que estava perdida entre dois amores impossíveis de conciliar; que sentia a vida desmoronar-se sob os meus pés; que já não sabia quem era nem em quem confiar.
Mas limitei-me a sorrir e dizer: — São só uns dias maus.
As semanas passaram e o Ricardo tornou-se mais distante. Um dia chegou tarde e cheirava a perfume estranho; outra vez trouxe-me flores mas esquecera-se do meu aniversário.
A dúvida tornou-se certeza quando encontrei um lenço de mulher no carro dele — um lenço caro, com as iniciais “S.M.” bordadas a dourado.
Confrontei-o nessa noite:
— Acabou-se, Ricardo. Sei tudo.
Ele não tentou negar. Baixou os olhos e murmurou:
— Desculpa… Nunca quis magoar-te.
Fiquei ali parada enquanto ele arrumava as coisas e saía da minha vida tão silenciosamente como tinha entrado.
O vazio foi imenso nos dias seguintes. O Tomás voltou para casa devagarinho, desconfiado como um gato ferido.
— Desculpa ter duvidado de ti — disse-lhe um dia à mesa do pequeno-almoço.
Ele sorriu tristemente e apertou-me a mão.
A confiança custa a reconstruir; entre mãe e filho ficou uma cicatriz fina mas indelével.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas vezes fechamos os olhos à verdade por medo da solidão? E será que alguma vez aprendemos realmente a confiar depois de uma traição?