Em vez da sogra, a minha mãe: Um drama familiar português sobre limites e escolhas

— Não aguento mais, Miguel! — gritei, com a voz a tremer, enquanto a sopa esfriava na mesa e o olhar da minha sogra, Dona Lurdes, perfurava-me como agulhas. O silêncio caiu pesado sobre a sala de jantar, apenas interrompido pelo tilintar nervoso da colher do meu filho, Tomás, contra o prato.

Miguel olhou para mim, surpreso, como se nunca me tivesse ouvido levantar a voz. Dona Lurdes, sentada à cabeceira, ajeitou o xaile e lançou-me aquele sorriso condescendente que sempre me fez sentir pequena. — Filha, não é preciso fazeres uma cena. Só estou a tentar ajudar, como sempre — disse ela, com aquela voz doce que só ela sabe usar para mascarar o veneno.

A minha mãe, Maria do Céu, sempre me avisou: “Cuidado com as fronteiras, filha. Se não as pões, alguém põe por ti.” Mas eu, apaixonada, achei que o amor tudo suportava. Casei-me com Miguel, mudámo-nos para a casa dele — ou melhor, para a casa da mãe dele — e, desde então, nunca mais tive paz. Dona Lurdes decidia tudo: o que cozinhávamos, como educávamos o Tomás, até o que eu devia vestir para ir trabalhar. Miguel, sempre calado, dizia: “Deixa, ela só quer ajudar.”

Naquela noite, depois do jantar, fechei-me na casa de banho e chorei baixinho, para ninguém ouvir. Oiço passos do outro lado da porta. É Miguel. — Estás bem? — pergunta, sem convicção. — Não, Miguel. Não estou. Não aguento mais viver assim. Não sou uma criança, não preciso que a tua mãe me diga como devo viver. — Ele suspira, cansado. — Não compliques, Leonor. A minha mãe só quer o melhor para nós. — O melhor para nós ou para ela? — pergunto, mas ele já se afastou.

No dia seguinte, Dona Lurdes entra no meu quarto sem bater. — Leonor, tens de aprender a ser mais grata. Não é qualquer sogra que faz tanto por uma nora. — Sinto o sangue ferver. — Grata? Por viver como uma hóspede na minha própria casa? Por não poder tomar uma decisão sem a tua aprovação? — Ela ri-se, seca. — Se não gostas, a porta está aberta. — E naquele momento, percebi que ela nunca me quis ali. Queria o filho, o neto, mas eu era só um acessório.

Arrumei as minhas coisas em silêncio. Tomás olhava-me com olhos grandes, assustados. — Mãe, para onde vamos? — Para casa da avó Maria, filho. — E o pai? — O pai fica. — Senti o coração a partir-se, mas não podia continuar a viver assim. Liguei à minha mãe. — Mãe, posso ir para tua casa? — A voz dela, do outro lado, foi um alívio: — Claro, filha. A minha porta está sempre aberta para ti.

Quando saí, Miguel nem tentou impedir-me. Só disse: — Vais arrepender-te. — Talvez, pensei. Mas pelo menos, agora, sou eu que decido.

Na casa da minha mãe, tudo era diferente. O cheiro do café pela manhã, o som da rádio a tocar fado, o colo quente dela quando eu desabava. — Filha, devias ter vindo mais cedo. — Eu sei, mãe. Mas quis acreditar que podia mudar as coisas. — Não mudamos ninguém, Leonor. Só a nós próprias.

Os dias passaram devagar. Tomás voltou a sorrir. Eu, aos poucos, fui-me reencontrando. Voltei a pintar, a sair com amigas, a sentir-me viva. Mas à noite, quando a casa se calava, a dúvida mordia-me: será que devia tentar outra vez? Será que Miguel sente a minha falta? Ou será que, para ele, sempre fui só uma sombra da mãe?

Uma tarde, Dona Lurdes apareceu à porta da minha mãe. — Vim buscar o meu neto. — A minha mãe enfrentou-a, firme: — O Tomás está bem aqui. Se quiser falar com a Leonor, fale com ela. — Dona Lurdes olhou-me, fria: — Estás a destruir a família. — Não, Dona Lurdes. Só estou a tentar salvar-me a mim mesma. — Ela virou costas, ofendida. Senti pena, mas também alívio.

Miguel ligou-me dias depois. — Leonor, volta para casa. A minha mãe promete que vai mudar. — Ri-me, amarga. — Miguel, não é a tua mãe que tem de mudar. És tu. Preciso que sejas meu marido, não só o filho dela. — Ele ficou em silêncio. — Não sei se consigo — murmurou. — Então não há nada para voltar.

Os meses passaram. Fui ao tribunal pedir a guarda do Tomás. Miguel apareceu, cabisbaixo, com Dona Lurdes ao lado. O juiz perguntou-me: — Por que saiu de casa? — Porque deixei de ser eu. — O juiz olhou para Miguel: — E o senhor, o que tem a dizer? — Ele só encolheu os ombros. — A minha mãe sempre cuidou de tudo. — O juiz suspirou. — Talvez seja altura de aprender a cuidar sozinho.

Ganhei a guarda do Tomás. Miguel visita-o aos fins de semana, mas nunca vem sozinho. Dona Lurdes espera no carro, como uma sombra. Tomás pergunta-me: — Mãe, o pai vai voltar a viver connosco? — Não sei, filho. Talvez um dia, se ele aprender a ser só ele.

Às vezes, à noite, olho para o teto e pergunto-me: fiz bem? Será que devia ter lutado mais? Mas depois lembro-me de como era viver sem voz, sem espaço, sem respeito. E percebo que, por mais difícil que seja, às vezes o maior ato de amor é escolher-nos a nós próprias.

E vocês, já sentiram que precisaram de fugir para se reencontrarem? Será que é possível reconstruir uma família onde nunca fomos realmente aceites?