Ecos dos Avisos Não Ditos: A História de Maria e Sua Família

— Maria, por favor, diz-me o que faço! — A voz da Luciana, embargada, quase se perde entre soluços. O telefone treme nas minhas mãos. O relógio da cozinha marca 22h17, mas o tempo parece ter parado.

— Calma, filha, respira fundo. O que aconteceu com o Michal? — pergunto, tentando manter a voz firme, mas o meu coração já bate descompassado.

— Ele… ele saiu de casa, Maria. Disse que não aguentava mais, que precisava de espaço. Eu tentei falar com ele, mas ele nem olhou para mim. — O choro dela aumenta, e sinto uma pontada de culpa, como se cada palavra dela fosse uma acusação silenciosa.

Fecho os olhos e vejo o rosto do meu filho, Michal, ainda pequeno, a correr pelo quintal da nossa casa em Braga, os joelhos sempre esfolados, o sorriso fácil. Onde foi que nos perdemos? Onde foi que deixei de lhe dizer o que realmente importava?

— Luciana, ouve-me. O Michal sempre foi assim, precisa de tempo para pensar. Mas diz-me, o que aconteceu exatamente? — Tento soar compreensiva, mas por dentro, uma tempestade de pensamentos e memórias ameaça rebentar.

— Foi tudo tão rápido… Ele chegou do trabalho, mal falou comigo e com as crianças. Eu perguntei se estava tudo bem, e ele explodiu. Disse que estava farto, que ninguém o compreendia, que eu só reclamo… — A voz dela falha. — Maria, eu não sei o que fazer. Tenho medo que ele não volte.

Sento-me à mesa, o frio do tampo de mármore atravessa-me. O silêncio da casa pesa. O meu marido, António, está na sala, a ver televisão, alheio ao drama que se desenrola. Sempre foi assim: os problemas da família eram meus para resolver. Ele, distante, preferia ignorar os conflitos, como se o silêncio pudesse curar feridas.

— Luciana, escuta, amanhã vou aí. Fica com as crianças, tenta descansar. Eu vou falar com o Michal. — Digo isto mais para mim do que para ela, como se pudesse controlar o que está fora do meu alcance.

Desligo o telefone e fico a olhar para o vazio. Lembro-me das vezes em que quis avisar a Luciana, quando ela e o Michal começaram a namorar. Ele sempre teve um feitio difícil, herdado do pai. Mas nunca tive coragem de lhe dizer: “Cuidado, o Michal guarda tudo para si, um dia pode explodir.” Em vez disso, sorri, dei-lhe as boas-vindas à família, e calei os meus receios.

Na manhã seguinte, acordo cedo. O António já saiu para o café, como faz todos os dias. Preparo um café forte, visto o casaco e saio. O caminho até à casa do Michal é curto, mas cada passo pesa. O céu está cinzento, ameaçando chuva. Sinto que é um presságio.

Luciana abre-me a porta com os olhos inchados. As crianças, o Tiago e a Matilde, estão sentados no sofá, calados, a ver desenhos animados. O silêncio deles é mais eloquente do que qualquer grito.

— Maria… — Luciana abraça-me, e eu sinto o desespero dela. — Ele não voltou.

— Vai voltar, filha. O Michal só precisa de tempo. — Tento acreditar nas minhas próprias palavras.

Sento-me com ela na cozinha. O cheiro a café frio mistura-se com o cheiro a lágrimas. Luciana conta-me tudo: as discussões, o cansaço, a solidão de quem cuida de tudo sozinha. Ouço-a, mas também me ouço a mim própria, há trinta anos, a queixar-me das mesmas coisas ao António, que nunca escutava.

— Maria, tu achas que ele me ama? — pergunta-me, com os olhos vermelhos.

— Acho que sim, filha. Mas o amor, às vezes, não chega. É preciso falar, é preciso ouvir. — Digo isto e sinto um nó na garganta. Nunca disse isto ao meu próprio marido.

O dia passa devagar. Tento ligar ao Michal, mas ele não atende. À noite, volto para casa. O António está sentado à mesa, a ler o jornal.

— Então, como está a Luciana? — pergunta, sem levantar os olhos.

— Mal. O Michal saiu de casa. — Digo, esperando alguma reação.

— Ele que se entenda. Já é homem feito. — Responde, indiferente.

Sinto raiva. Raiva dele, de mim, de todos os silêncios que nos trouxeram até aqui. Penso em confrontá-lo, mas as palavras morrem na minha boca. Sempre foi assim: engolir, calar, fingir que está tudo bem.

Na terceira noite, o telefone toca. É o Michal.

— Mãe… — A voz dele está rouca, cansada. — Preciso de falar contigo.

— Diz, filho. Onde estás?

— Estou em casa de um amigo. Não sei o que fazer. Sinto-me perdido. — Ele nunca foi de mostrar fraqueza. Oiço o desespero dele e sinto vontade de o abraçar.

— Michal, volta para casa. Fala com a Luciana. Fala comigo. Não guardes tudo para ti. — A minha voz treme.

— Não sei se consigo, mãe. Sinto que falhei. Que nunca vou ser suficiente.

— Filho, todos falhamos. Eu falhei contigo, com o teu pai. Mas ainda estamos aqui. Ainda podemos tentar. — Digo isto e sinto as lágrimas a correrem-me pelo rosto.

No dia seguinte, o Michal volta a casa. Luciana recebe-o com um abraço tímido. Fico com as crianças, dou-lhes o pequeno-almoço, conto-lhes histórias. Oiço, pela porta entreaberta, os dois a falarem. Gritam, choram, depois oiço o silêncio. Um silêncio diferente, pesado, mas necessário.

Quando o Michal sai do quarto, vem ter comigo à cozinha. Senta-se à minha frente, os olhos vermelhos, as mãos a tremer.

— Mãe, tu alguma vez foste feliz com o pai? — pergunta, de repente.

Fico sem saber o que responder. Penso em todas as noites em que chorei em silêncio, em todos os sonhos adiados, em todas as palavras não ditas.

— Fui, às vezes. Outras vezes, não. Mas nunca deixei de tentar. — Respondo, finalmente.

Ele baixa a cabeça. — Eu não quero acabar como vocês, mãe. Não quero viver uma vida de silêncios.

— Então fala, Michal. Fala com a Luciana, fala comigo. Não deixes que o silêncio te roube a vida. — Digo, e sinto que, pela primeira vez, estou a dizer a verdade.

Os dias passam. O Michal e a Luciana começam a ir à terapia de casal. Não é fácil, há dias em que tudo parece piorar. Mas há também pequenos gestos, olhares, sorrisos tímidos. Eu fico com as crianças, ajudo como posso. O António continua distante, mas um dia, surpreende-me:

— Maria, achas que fizemos tudo o que podíamos pelos nossos filhos? — pergunta, numa noite, enquanto lavamos a loiça juntos.

Olho para ele, vejo o homem com quem partilhei uma vida inteira, e sinto uma tristeza profunda.

— Não sei, António. Mas ainda podemos tentar. — Respondo, e ele sorri, um sorriso triste, mas sincero.

Hoje, sento-me à janela, a ver a chuva cair. Penso em tudo o que ficou por dizer, em todos os avisos não dados, em todas as oportunidades perdidas. Mas também penso que nunca é tarde para tentar, para falar, para ouvir.

Pergunto-me: quantas famílias vivem presas ao silêncio, aos segredos, às mágoas antigas? E se, por uma vez, tivéssemos coragem de falar? Será que ainda vamos a tempo de mudar o nosso destino?