Disse-me que íamos morrer de fome sem ele. Um ano depois, era dona do seu negócio.
— Vais ver, Ana, sem mim não és nada. Vais morrer de fome tu e o miúdo! — gritou o Ricardo, com os olhos cheios de raiva e desprezo, enquanto atirava a minha mala para o corredor.
A porta bateu com estrondo. Fiquei ali, parada, com o coração a bater tão forte que quase me sufocava. O meu filho, o Tiago, olhava para mim com os olhos grandes e assustados. Tinha só oito anos e já percebia que a nossa vida nunca mais seria igual.
Lembro-me de cada detalhe daquela noite: o cheiro a tabaco no corredor, o eco dos passos da nova namorada do Ricardo — a Sílvia, vinte anos mais nova do que eu — a rir-se atrás da porta fechada. Senti-me pequena, humilhada, vazia. Como é que se recomeça quando tudo nos é tirado?
— Mãe, para onde vamos? — perguntou o Tiago, a voz tremida.
Não sabia responder. Peguei-lhe na mão e saímos para a rua fria de janeiro. Não tinha para onde ir. A minha mãe vivia num T1 em Almada, com a reforma contada ao cêntimo. Os meus amigos… bem, quando se passa por uma vergonha destas, percebe-se quem são os verdadeiros.
Acabámos por dormir no sofá da minha mãe. Ela chorou comigo nessa noite, mas no dia seguinte já me dizia para levantar a cabeça:
— Ana, tu sempre foste forte. O Ricardo pensa que és fraca porque nunca te viu lutar. Agora é a tua vez.
Mas como lutar? Eu tinha deixado o emprego há anos para ajudar o Ricardo na empresa dele — uma pequena transportadora em Setúbal. Ele dizia que precisava de mim para tratar da papelada e dos clientes, mas nunca me pôs no contrato nem me pagou um salário. Agora estava sem casa, sem dinheiro e sem trabalho.
Os dias seguintes foram um pesadelo. O Ricardo recusava-se a pagar a pensão do Tiago. Disse ao tribunal que eu era preguiçosa e que ele não tinha dinheiro — mentira atrás de mentira. A Sílvia publicava fotos deles nas Maldivas enquanto eu contava moedas para comprar pão.
Comecei a procurar trabalho em tudo o que era sítio: supermercados, limpezas, cafés. Ninguém queria saber de uma mulher de 38 anos sem experiência recente. Sentia-me invisível.
Uma tarde, enquanto esperava pelo autocarro com o Tiago, vi passar uma das carrinhas da empresa do Ricardo. O logótipo — Transportes Ribeiro — parecia gozar comigo. Lembrei-me de todas as noites em que fiquei acordada a fazer faturas, a responder a emails dos clientes dele enquanto ele saía com os amigos ou ficava horas ao telefone com “clientes” que afinal eram amantes.
Foi aí que decidi: não ia deixar que ele ganhasse. Se eu sabia como funcionava aquela empresa melhor do que ninguém… porque não tentar?
Comecei por ligar aos antigos clientes do Ricardo. Alguns lembravam-se de mim:
— Dona Ana! Era sempre consigo que as coisas corriam bem… O Ricardo agora anda muito distraído.
Ofereci-me para tratar dos transportes deles por fora. Arranjei um amigo do bairro para me emprestar uma carrinha velha e comecei a fazer pequenos serviços: mudanças, entregas de móveis, transporte de caixas para lojas.
O Tiago ajudava-me ao fim-de-semana. Era duro — havia dias em que chegávamos a casa tão cansados que nem conseguíamos jantar. Mas cada euro ganho era uma vitória.
O Ricardo soube logo do meu “negócio” clandestino. Apareceu à porta da minha mãe aos gritos:
— Estás a roubar-me os clientes! Vou meter-te em tribunal!
— Os clientes não são teus, Ricardo. São livres de escolher quem quiserem — respondi-lhe pela primeira vez sem medo.
Ele ficou vermelho de raiva e foi-se embora a praguejar.
Com o tempo, fui ganhando confiança e mais clientes. Uma senhora idosa pediu-me para lhe transportar móveis antigos para um lar em Évora; um restaurante novo precisava de entregas semanais; uma loja de flores queria alguém de confiança para levar arranjos para casamentos.
A carrinha velha avariou-se duas vezes e quase desisti. Mas um dos clientes recomendou-me ao primo dele, dono de uma pequena frota em Palmela. O senhor Manuel viu potencial em mim:
— Tu tens garra, miúda. Se quiseres trabalhar comigo, dou-te uma carrinha melhor e ajudo-te com os papéis.
Aceitei sem pensar duas vezes. Em poucos meses já tinha três carrinhas a trabalhar comigo e dois ajudantes — o João e o Luís, ambos desempregados há muito tempo.
O Ricardo começou a perder clientes à velocidade da luz. A Sílvia fartou-se dele quando percebeu que as viagens às Maldivas tinham acabado e foi-se embora com um tipo qualquer do ginásio.
Um dia recebi uma chamada inesperada:
— Ana? É o Ricardo… Preciso falar contigo.
Fui encontrá-lo num café perto da antiga casa onde vivi tantos anos. Estava magro, olheiras fundas e mãos trémulas.
— Preciso de vender a empresa… Estou cheio de dívidas. Os bancos vão ficar com tudo se não arranjar dinheiro rápido.
Olhei-o nos olhos e percebi que já não sentia medo nem raiva — só pena.
— E queres vendê-la a quem?
Ele baixou os olhos:
— A ti… És a única pessoa que sabe como isto funciona.
Comprei-lhe a empresa por metade do valor real — era tudo o que ele podia pedir naquela altura. Passei noites sem dormir para conseguir crédito no banco e convencer os meus novos sócios a investir comigo.
No dia em que assinei os papéis e entrei no escritório da Transportes Ribeiro como dona, chorei sozinha na casa de banho durante meia hora. Não era felicidade — era alívio misturado com tristeza por tudo o que tinha perdido… mas também orgulho pelo caminho percorrido.
Hoje sou eu quem gere as rotas, fala com os clientes e paga salários justos aos meus funcionários. O Tiago tem orgulho em mim — diz aos amigos na escola que “a minha mãe é dona de uma empresa”.
Às vezes ainda sonho com aquela noite em que fui posta na rua sem nada. Pergunto-me se alguma vez vou perdoar verdadeiramente o Ricardo ou se isso sequer importa agora.
Será que todas as mulheres têm esta força escondida dentro delas? Quantas Anas há por aí à espera de descobrir do que são capazes? E vocês… já tiveram de recomeçar do zero?