Dez Anos Depois: Quando o João Voltou do Nada, Tudo Mudou
— Mãe, quem é aquele homem à porta? — perguntou a Mariana, com a voz trémula, enquanto eu tentava perceber se estava a sonhar ou se aquela figura do outro lado do vidro era mesmo real.
O meu coração disparou. O tempo pareceu parar. Dez anos. Dez anos sem uma palavra, sem um sinal de vida. E agora ali estava ele: João. O homem que um dia prometeu amar-me para sempre e que, numa manhã fria de novembro, saiu para comprar pão e nunca mais voltou.
A minha cabeça encheu-se de memórias e perguntas. Como é que ele teve coragem de aparecer assim? O que é que eu lhe diria? E os meus filhos? O que sentiria o Tiago, que já era adolescente quando o pai desapareceu e nunca mais falou dele?
Abri a porta devagar. O João estava mais magro, o cabelo grisalho, os olhos fundos. Mas era ele. O mesmo olhar inquieto, o mesmo cheiro a tabaco barato misturado com café.
— Olá, Ana — disse ele, quase num sussurro. — Posso entrar?
Por um momento, quis bater-lhe com a porta na cara. Mas algo em mim — talvez o cansaço, talvez a curiosidade — deixou-o passar. Sentou-se na sala como se nunca tivesse saído dali. A Mariana ficou colada à minha saia, desconfiada.
— O que é que queres? — perguntei, tentando controlar a voz.
Ele olhou para mim com uma tristeza que me desarmou.
— Sei que não mereço perdão. Mas precisava de vos ver. Preciso de explicar…
As palavras dele ecoaram na minha cabeça durante dias. Não dormi nessa noite. Fiquei a olhar para o teto, a ouvir a respiração pesada da Mariana ao meu lado na cama. Lembrei-me de todas as noites em que chorei sozinha, de todas as vezes em que menti aos meus filhos para os proteger da verdade: o pai deles tinha-nos abandonado.
No dia seguinte, o Tiago chegou da faculdade e encontrou o João na cozinha. Ficaram frente a frente, dois estranhos ligados por um passado partido.
— O que é que fazes aqui? — perguntou o Tiago, com uma raiva fria nos olhos.
O João baixou a cabeça.
— Vim pedir desculpa. Sei que não posso apagar o que fiz…
O Tiago interrompeu-o:
— Não tens noção do que nos fizeste passar! A mãe ficou doente de tanto trabalhar! Eu tive de ser pai da Mariana! Achas que basta apareceres e dizeres “desculpa”?
O João chorou. Pela primeira vez vi-o vulnerável, despido de desculpas fáceis. Eu própria senti uma mistura de pena e ódio. Queria gritar-lhe tudo o que guardei durante anos: as noites sem dinheiro para pagar a luz, as humilhações no supermercado quando não tinha saldo no cartão, as vezes em que tive de pedir ajuda à minha irmã e ouvir os comentários venenosos dela:
— Sempre te disse que esse João não prestava para nada! — dizia a Teresa, com aquele tom de superioridade.
Mas nunca contei tudo à Teresa. Nunca quis dar-lhe razão. Aguentei sozinha porque era mais fácil do que admitir o fracasso.
Durante semanas, o João tentou reconquistar algum espaço nas nossas vidas. Ajudava nas tarefas da casa, fazia compras, tentava conversar com os filhos. Mas havia sempre um muro invisível entre nós. A Mariana recusava-se a ficar sozinha com ele; o Tiago evitava-o sempre que podia.
Uma noite, depois do jantar, sentei-me com o João na varanda. O cheiro do verão misturava-se com a tensão entre nós.
— Porque é que foste embora? — perguntei finalmente.
Ele olhou para mim com lágrimas nos olhos.
— Tive medo… Medo de não ser suficiente para vocês. Estava endividado até ao pescoço por causa daquele negócio falhado com o primo Rui. Não consegui encarar-te nem aos miúdos. Fugi como um cobarde.
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim.
— E achas que foi mais fácil para nós? Achas que não tivemos medo? Que não passámos fome? Que não chorámos todas as noites?
Ele calou-se. Ficámos em silêncio durante muito tempo.
Os meses passaram e as feridas começaram lentamente a cicatrizar — ou pelo menos a deixar de sangrar tanto. O João arranjou trabalho numa oficina do bairro e começou a pagar parte das despesas da casa. A Mariana aceitou ir ao cinema com ele uma vez; o Tiago deixou de lhe dirigir a palavra mas já não saía da sala sempre que ele entrava.
A minha irmã Teresa continuava a dizer-me para não confiar nele:
— Olha que quem faz uma vez faz duas! Não sejas ingénua!
Mas eu já não queria saber da opinião dela nem de ninguém. Só eu sabia o quanto tinha sofrido e só eu podia decidir se queria dar-lhe uma segunda oportunidade.
Um dia, ao regressar do trabalho, encontrei o João sentado à mesa da cozinha com uma carta na mão.
— Ana… preciso de te mostrar isto — disse ele, com voz trémula.
Era uma carta do banco: estavam prestes a penhorar-lhe tudo por dívidas antigas. Ele tinha tentado esconder-me isso para não me preocupar, mas agora já não conseguia aguentar sozinho.
Senti-me dividida entre a compaixão e o medo de voltar ao passado. Mas desta vez não fugi à conversa.
— Vamos resolver isto juntos — disse-lhe. — Mas tens de ser honesto comigo. Não aguento mais mentiras.
Ele prometeu-me ali mesmo que nunca mais me esconderia nada.
Aos poucos fomos reconstruindo alguma confiança. Não foi fácil perdoar — ainda hoje não sei se perdoei totalmente — mas aprendi a viver com as cicatrizes. Os meus filhos também aprenderam a lidar com a presença do pai: nunca esqueceram o abandono, mas começaram a ver nele um homem falível e não apenas um monstro ausente.
Às vezes pergunto-me se fiz bem em aceitá-lo de volta. Se fui forte ou apenas ingénua. Mas sei que ninguém pode julgar quem nunca passou pelo mesmo inferno.
Hoje olho para trás e vejo uma mulher diferente daquela que era há dez anos: mais dura, mais desconfiada, mas também mais capaz de amar sem ilusões.
E vocês? Acham possível perdoar alguém que nos magoou tanto? Ou há feridas que nunca saram verdadeiramente?