Depois da Tempestade: Recomeçar aos Quarenta e Poucos numa Aldeia Estranha
— Não tens nada aqui, Maria. O pai já não está, esta casa é nossa! — gritou a Ana, a mais velha das filhas do meu marido, com os olhos vermelhos de raiva e mágoa.
Fiquei parada no meio da sala, com as mãos trémulas a apertar o lenço preto que usava desde o funeral do António. O cheiro a café frio misturava-se com o perfume antigo da casa, agora tão hostil. Olhei para as duas raparigas à minha frente — Ana e Joana — e percebi, de repente, que nunca fui verdadeiramente parte daquela família. O António partira há apenas duas semanas, e já me queriam fora dali.
— Vocês não podem fazer isto… — murmurei, sentindo a voz falhar-me. — O vosso pai queria que ficássemos juntas…
— O nosso pai já não está cá para decidir nada — interrompeu a Joana, cruzando os braços. — E tu nunca foste nossa mãe. Não tens direito à casa.
O silêncio caiu pesado. Senti uma dor aguda no peito, como se me arrancassem tudo de uma vez: o homem que amei, o lar onde vivi vinte anos, o chão debaixo dos pés. Tentei argumentar, mas as palavras morreram-me na garganta. No fundo, sabia que legalmente pouco podia fazer. O António nunca regularizou os papéis da casa. Sempre disse: “Para quê papelada? Somos todos família.” Agora via o erro.
Naquela noite, arrumei as minhas coisas em duas malas velhas. Cada peça de roupa dobrada era uma recordação: o vestido azul do nosso primeiro Natal juntos, a camisola que ele me ofereceu no aniversário. Chorei baixinho para não acordar ninguém. Ao amanhecer, saí sem olhar para trás.
Fui parar a uma aldeia perdida no interior do Alentejo, onde só conhecia o nome da terra: São Martinho das Oliveiras. Uma amiga distante da minha mãe tinha lá uma casa pequena e desabitada. “Fica lá o tempo que precisares, Maria”, disse-me ao telefone. “Não é luxo nenhum, mas ao menos tens um teto.”
A primeira noite foi de silêncio absoluto. O vento batia nas janelas e os galos cantavam cedo demais. Senti-me uma estranha no meu próprio país, como se tivesse sido exilada para um lugar onde ninguém sabia quem eu era ou o que tinha perdido.
Os dias seguintes foram um desafio constante. A casa estava cheia de pó e teias de aranha; o telhado pingava quando chovia. Passei horas a limpar, a esfregar chão e paredes, como se pudesse lavar também a tristeza do peito. O dinheiro era pouco — só tinha a pensão mínima de viuvez e umas economias guardadas num envelope.
No café da aldeia, todos olhavam para mim com curiosidade disfarçada. “És nova por aqui?” perguntou-me um senhor de boina, enquanto mexia o café.
— Sou… Vim há pouco tempo — respondi, tentando sorrir.
— Aqui toda a gente se conhece — disse ele, sem maldade mas com aquela franqueza típica das terras pequenas.
Aos poucos fui-me habituando à rotina: acordar cedo, ir ao mercado comprar pão e legumes, cuidar da horta pequena atrás da casa. As noites eram longas e solitárias. Muitas vezes sentava-me à janela a olhar para as estrelas e perguntava-me se algum dia voltaria a sentir-me em casa.
A solidão era pesada, mas também me obrigou a olhar para dentro de mim. Lembrei-me dos tempos em que era jovem e sonhava viajar pelo mundo; dos livros que lia à luz da vela na casa dos meus pais; das tardes passadas a ouvir fado com a minha mãe na rádio antiga. Percebi que tinha deixado de ser Maria há muito tempo — tinha-me tornado “a mulher do António”, “a madrasta das meninas”. Agora era só eu.
Um dia, ao regressar do mercado, encontrei uma carta na caixa do correio. Era das enteadas: “Pedimos desculpa pelo que aconteceu, mas achamos que é melhor assim para todos.” Nenhuma palavra de carinho ou saudade. Rasguei a carta em pedaços pequenos e deixei-os voar ao vento.
A vida na aldeia era dura mas honesta. Comecei a ajudar uma vizinha idosa, Dona Emília, que precisava de companhia e de alguém que lhe fosse buscar medicamentos à vila mais próxima.
— Não tens família? — perguntou-me ela um dia.
— Tinha… Agora tenho só memórias — respondi.
Ela sorriu com ternura e apertou-me a mão.
— Às vezes as memórias são tudo o que nos resta… Mas também podem ser sementes para algo novo.
Essas palavras ficaram comigo durante dias. Comecei a escrever num caderno velho: histórias da minha infância, receitas da minha mãe, poemas soltos sobre saudade e esperança. Era como se cada frase escrita me devolvesse um bocadinho de mim mesma.
Com o tempo, fui ganhando confiança para sair mais de casa. Participei nas festas da aldeia — ajudei a preparar as sardinhas para o São João, dancei um pezinho de dança com o senhor Manuel no largo da igreja. As pessoas começaram a aceitar-me como “a Maria da casa branca”, já não era só “a forasteira”.
Certo dia recebi uma chamada inesperada: era o advogado do António. “Maria, finalmente conseguimos resolver parte dos papéis… Há uma pequena quantia que lhe pertence.” Não era muito dinheiro, mas foi suficiente para arranjar o telhado e comprar uma máquina de costura usada.
Comecei a fazer pequenos arranjos para as vizinhas: bainhas de calças, cortinas novas para a escola primária, até vestidos para as festas populares. O boca-a-boca fez o resto — em poucos meses já tinha uma clientela fiel.
Numa tarde quente de agosto, sentei-me à sombra da oliveira no quintal e olhei para tudo o que tinha construído: uma casa limpa e arranjada, um jardim florido com malmequeres e alfazema, amizades sinceras feitas à custa de tempo e paciência.
Pensei nas enteadas — será que algum dia iriam perceber o mal que me fizeram? Será que sentiriam remorsos? Ou talvez fosse eu quem precisava de perdoar para seguir em frente…
A vida ensinou-me que perder tudo pode ser o começo de algo novo. Não foi fácil — houve dias em que quis desistir, em que chorei até adormecer abraçada ao travesseiro. Mas hoje sei que sou mais forte do que pensava.
Às vezes pergunto-me: quantas mulheres como eu existem por aí? Quantas já foram expulsas do seu próprio lar por quem devia protegê-las? E será possível recomeçar depois de tanta dor?
E vocês? Já sentiram que tiveram de reconstruir-se das cinzas? Como encontraram forças para seguir em frente?