Deixei-te Ir para Me Encontrar – Uma História de Infertilidade, Divórcio e Renascimento em Lisboa
— Não posso mais, Sofia. Não consigo continuar a viver assim. — As palavras do Miguel ecoaram pela sala, cortando o silêncio pesado que se instalara entre nós há meses. Eu estava sentada no sofá da nossa sala em Benfica, as mãos trémulas a apertar a manta que me cobria as pernas. O olhar dele fugia do meu, fixando-se num ponto qualquer da parede, como se ali encontrasse coragem para dizer o que eu já temia há tanto tempo.
Senti o peito apertar, uma dor surda a crescer dentro de mim. Tentei falar, mas a voz saiu-me num sussurro: — Vais-me deixar agora? Depois de tudo?
Miguel passou as mãos pelo cabelo, nervoso. — Não é só por ti… É por nós. Já não somos os mesmos. Eu… eu não sei se consigo continuar a viver nesta casa onde tudo me lembra o que não temos.
O que não tínhamos. Um filho. Aquilo que durante anos tentámos, entre consultas no Hospital de Santa Maria, exames dolorosos e esperanças renovadas a cada ciclo menstrual falhado. A minha mãe dizia-me sempre: “Sofia, tens de ter calma, essas coisas acontecem quando menos esperas.” Mas eu já não acreditava em milagres.
A infertilidade tornou-se o centro da nossa vida. Cada conversa girava à volta de tratamentos, de médicos, de possibilidades. Cada jantar de família era um campo minado de perguntas e olhares de pena. A minha irmã mais nova, a Mariana, já tinha dois filhos e uma barriga a caminho do terceiro. A minha mãe suspirava sempre que via os netos correrem pela casa: “Quando é que nos dás um também, filha?”
Eu sorria por fora e morria por dentro.
Miguel começou a fazer as malas nessa noite. Não houve gritos nem discussões. Só silêncio e lágrimas contidas. Quando fechou a porta atrás de si, senti-me vazia. Como se o pouco que restava de mim tivesse saído com ele.
Os dias seguintes foram um borrão de dor e rotina. Ia trabalhar para o escritório no Saldanha como se fosse um autómato. Os colegas evitavam falar do assunto, mas sentia os olhares de compaixão quando pensavam que eu não via. Em casa, tudo me lembrava o Miguel: o cheiro do café pela manhã, as fotografias das férias nos Açores, o espaço vazio na cama.
A minha mãe ligava-me todos os dias. — Tens de ser forte, Sofia. O Miguel não te merece. — Mas eu sabia que ela também chorava por dentro, não só pelo meu casamento falhado, mas pelo neto que nunca teria.
A pressão era sufocante. As amigas tentavam animar-me com frases feitas: “Ainda vais encontrar alguém melhor”, “Tens tempo para tudo”. Mas eu sentia-me velha e gasta aos 36 anos. O relógio biológico era uma bomba-relógio prestes a explodir.
Uma noite, depois de mais uma discussão ao telefone com a minha mãe — “Não podes desistir assim! Tens de lutar!” — atirei o telemóvel contra a parede e desatei a chorar como uma criança perdida. Senti raiva dela, do Miguel, do mundo inteiro. Mas acima de tudo, senti raiva de mim mesma por não ser suficiente.
Foi nessa noite que decidi procurar ajuda. Marquei consulta com uma psicóloga em Campo de Ourique. A Dra. Teresa era calma e tinha um sorriso quente. Ouviu-me durante uma hora inteira sem me interromper.
— Sofia, já pensaste que talvez estejas a tentar corresponder às expectativas dos outros e não às tuas?
Fiquei sem palavras. Nunca ninguém me tinha perguntado isso.
Comecei a escrever um diário. Todos os dias despejava ali as mágoas, os sonhos adiados, as culpas e as pequenas alegrias que ainda conseguia encontrar: um café quente numa manhã fria, o cheiro do mar em Cascais ao fim-de-semana.
Aos poucos fui percebendo que tinha vivido demasiado tempo para agradar aos outros: à minha família, ao Miguel, à sociedade que espera que uma mulher seja mãe antes dos 35 anos. E eu? O que queria eu realmente?
A resposta não veio de imediato. Demorou meses de terapia, de conversas difíceis com a minha mãe — “Mãe, talvez nunca seja mãe e tens de aceitar isso.” — e de reencontros comigo mesma.
Comecei a sair mais com amigas antigas, redescobri o prazer de caminhar sozinha pelas ruas da Baixa ao fim da tarde, sem destino nem pressa. Inscrevi-me num curso de cerâmica em Belém e surpreendi-me com a alegria infantil de moldar o barro com as mãos sujas.
Um dia, ao sair do atelier, encontrei o Miguel na rua. Estava diferente: mais magro, olhar cansado.
— Olá, Sofia…
O coração bateu mais forte, mas já não doía como antes.
— Olá, Miguel.
Ficámos ali parados uns segundos embaraçados.
— Só queria saber se estás bem… — disse ele finalmente.
Sorri-lhe com sinceridade pela primeira vez em muito tempo.
— Estou a aprender a ficar bem.
Ele assentiu e afastou-se devagar. Senti um alívio estranho — como se finalmente tivesse fechado um capítulo da minha vida.
No Natal desse ano, sentei-me à mesa com a família e pela primeira vez não me senti incompleta ao ver os sobrinhos correrem pela casa. A Mariana olhou para mim e disse baixinho:
— Sabes, Sofia… Sempre te admirei pela tua força.
Sorri-lhe com lágrimas nos olhos.
Hoje olho para trás e vejo quanto cresci desde aquele dia em que o Miguel saiu pela porta. Aprendi que nem sempre temos aquilo que desejamos — mas podemos sempre escolher quem queremos ser depois da tempestade.
Às vezes pergunto-me: quantas mulheres vivem presas às expectativas dos outros? Quantas esquecem quem são para tentar ser aquilo que esperam delas? E vocês… já tiveram de deixar alguém ir para finalmente se encontrarem?