Deixar Ir o Meu Filho: Uma Decisão de Mãe pelo Próprio Sossego

— Mãe, não podes continuar a controlar tudo! — gritou o Miguel, a voz embargada, enquanto a Ana, a minha nora, se encolhia no sofá, os olhos vermelhos de tanto chorar. Eu estava de pé, junto à porta da sala, as mãos a tremer, o coração aos pulos no peito. O relógio marcava quase três da manhã, mas ninguém ali conseguia dormir.

— Não é controlar, Miguel! — respondi, sentindo a garganta apertada. — É a minha casa, as minhas regras. Só peço respeito, só isso! — Mas a minha voz saiu mais fraca do que queria, quase um sussurro, e percebi que já não tinha forças para mais discussões.

A verdade é que, desde que o Miguel e a Ana vieram viver comigo, há quase um ano, a minha vida virou do avesso. No início, achei que seria temporário, só até arranjarem um sítio deles. Mas os meses passaram, as rotinas chocaram, e a casa encheu-se de silêncios pesados e discussões abafadas. Eu tentava manter tudo em ordem, mas sentia-me cada vez mais uma estranha na minha própria casa.

O Miguel sempre foi o meu menino, o meu orgulho. Depois de perder o pai tão cedo, fui mãe e pai, trabalhei horas a fio para lhe dar tudo. Nunca pensei que um dia teria de lhe pedir para sair. Mas naquela noite, entre lágrimas e gritos, percebi que já não aguentava mais. Senti-me sufocada, como se cada canto da casa me lembrasse que já não era dona de nada.

— Mãe, nós não temos para onde ir — disse o Miguel, a voz mais baixa, quase um pedido de clemência. — A Ana está grávida, sabes disso. Não podes fazer isto agora.

A Ana olhou para mim, os olhos cheios de medo e mágoa. — Dona Teresa, eu juro que tento não incomodar. Só quero paz para o nosso bebé.

Senti uma pontada no peito. O meu neto, ainda por nascer, já era motivo de discórdia. Mas eu estava exausta. As noites sem dormir, as discussões por causa do jantar, da televisão, do dinheiro da luz. Pequenas coisas que, juntas, me esmagavam.

— Eu preciso de paz, Miguel — disse, finalmente, com a voz embargada. — Preciso de pensar em mim. Não posso continuar assim. Vocês têm de procurar outro sítio. Eu ajudo no que puder, mas aqui já não dá.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O Miguel baixou a cabeça, a Ana chorou baixinho. Senti-me a pior mãe do mundo, mas também uma mulher à beira do colapso.

Na manhã seguinte, a casa parecia ainda mais fria. O Miguel não me falou, a Ana evitava-me. Passei o dia a arrumar, a limpar, como se pudesse varrer a culpa para debaixo do tapete. Quando eles saíram para procurar casa, sentei-me na cozinha e chorei como há muito não chorava.

Os dias seguintes foram um tormento. O Miguel mal me dirigia a palavra. A Ana, sempre tão doce, agora era só silêncio. Eu tentava justificar a minha decisão, mas a dúvida corroía-me por dentro. Será que estava a ser egoísta? Será que uma mãe pode, alguma vez, pensar em si própria sem ser julgada?

Uma tarde, a minha irmã, a Lurdes, veio visitar-me. Encontrou-me sentada à mesa, a olhar para o vazio.

— Teresa, tu não tens culpa. Já fizeste tudo por eles. Agora tens de cuidar de ti — disse ela, apertando-me a mão. — O Miguel vai perceber, um dia.

Mas eu não tinha tanta certeza. O Miguel era tudo para mim. Recordava-me dele em pequeno, a correr pelo quintal, a pedir colo. Como é que chegámos aqui? Como é que o amor se transforma em ressentimento?

Uma noite, ouvi o Miguel e a Ana a discutirem no quarto. A Ana chorava, o Miguel falava alto demais. Senti-me impotente, incapaz de ajudar. No dia seguinte, a Ana veio ter comigo à cozinha.

— Dona Teresa, desculpe por tudo. Sei que não é fácil para si. O Miguel está zangado, mas vai passar. Só queria que soubesse que lhe sou grata por tudo.

Olhei para ela, tão nova, tão assustada. — Ana, eu só quero o melhor para vocês. Mas também preciso de respirar. Não é fácil para mim, acredita.

Ela sorriu, triste. — Eu sei. Vamos tentar sair daqui o mais depressa possível.

Os dias arrastaram-se. O Miguel evitava-me, mas eu via o sofrimento nos olhos dele. Uma noite, não aguentei mais e bati à porta do quarto.

— Miguel, podemos falar?

Ele não respondeu, mas entrei na mesma. Estava sentado na cama, a olhar para o chão.

— Filho, eu amo-te. Sempre amei. Mas estou cansada. Preciso de paz. Não quero perder-te, mas também não posso continuar assim.

Ele levantou os olhos, vermelhos de chorar. — Sinto que me estás a expulsar, mãe. Como se já não houvesse lugar para mim aqui.

Sentei-me ao lado dele. — Há sempre lugar para ti no meu coração. Mas esta casa… já não é o que era. Todos mudámos. Eu preciso de me reencontrar. E tu também.

Ele chorou, encostado ao meu ombro, como quando era criança. Ficámos ali, em silêncio, a partilhar a dor de quem ama demais e não sabe como o mostrar.

Finalmente, encontraram um pequeno apartamento, longe do centro, mas só deles. Ajudei-os a mudar, levei caixas, cozinhei para eles nos primeiros dias. O Miguel continuava distante, mas a Ana tentava manter a paz.

A casa ficou vazia. No início, senti um alívio imenso. Dormi uma noite inteira, sem sobressaltos. Mas depois veio a solidão. O silêncio pesava. Dava por mim a falar sozinha, a pôr dois pratos na mesa por engano. A culpa voltava, mais forte do que nunca.

O telefone tocava pouco. O Miguel vinha só de vez em quando, sempre apressado. A Ana ligava para saber se precisava de alguma coisa. O bebé nasceu, e fui vê-lo ao hospital. Chorei ao pegar nele, tão pequeno, tão indefeso. O Miguel olhou para mim, os olhos cheios de tudo o que não conseguíamos dizer.

Agora, passo os dias a pensar se fiz o certo. Será que uma mãe tem direito a escolher a própria paz? Ou o amor de mãe é, por natureza, um sacrifício sem fim?

Às vezes, olho para a janela e pergunto-me: será que algum dia o Miguel vai compreender? Será que algum dia vou perdoar-me por ter escolhido a mim mesma?