De Volta a Mim: Como o Meu Marido e a Minha Sogra Me Quebraram o Coração
— Mariana, não podes continuar assim! — gritou Rui, com a voz embargada de raiva e cansaço. Eu estava sentada à mesa da cozinha, as mãos trémulas agarradas a uma chávena de chá frio, enquanto a chuva batia furiosa nas janelas da nossa casa em Setúbal. O relógio marcava quase meia-noite, mas o tempo parecia suspenso desde que descobri as mensagens no telemóvel dele.
Aquelas palavras ecoavam na minha cabeça: “Ela não percebe nada, mãe. Só me faz sentir preso.” E depois, a resposta da Dona Amélia: “Tens de pensar em ti, filho. A Mariana nunca foi mulher para ti.”
O chão fugiu-me dos pés nesse instante. Como é que a mulher que me abraçou no dia do nosso casamento, que me prometeu ser família, podia agora ser cúmplice da destruição do meu casamento? Senti-me traída duas vezes — pelo homem que escolhi e pela mãe dele, que sempre me olhou com um misto de desconfiança e superioridade.
— Não posso continuar assim? Rui, tu é que escolheste este caminho! — respondi, a voz a tremer entre o choro e a raiva. — Eu dei tudo por esta família. E tu… tu e a tua mãe…
Ele virou-me as costas, os ombros tensos. — A minha mãe só quer o melhor para mim. Tu é que nunca te esforçaste para te integrares.
Lembrei-me das tardes de domingo em casa dos pais dele, das conversas em tom baixo quando eu entrava na sala, dos olhares de soslaio da Dona Amélia sempre que eu tentava partilhar uma opinião. Lembrei-me das vezes em que ela criticou o meu arroz de pato, dizendo que “na nossa família faz-se diferente”, ou quando comentou que eu devia arranjar um emprego “a sério” em vez de dar aulas de música.
Mas nunca pensei que ela fosse capaz de incentivar o próprio filho a afastar-se de mim. E nunca pensei que Rui fosse tão fraco ao ponto de ceder.
Naquela noite, depois da discussão, fui ao quarto dos nossos filhos — o Tiago, com seis anos, dormia abraçado ao peluche preferido; a Leonor, com três, ressonava baixinho. Sentei-me no chão e chorei em silêncio. O medo de os perder apertava-me o peito como uma mão invisível.
Os dias seguintes foram um nevoeiro denso. Rui começou a chegar cada vez mais tarde a casa. Dona Amélia telefonava-lhe todos os dias e eu ouvia-o sussurrar no corredor. Quando tentei falar com ela, recebi apenas um sorriso frio: — Mariana, há coisas que não se forçam. Se não és feliz aqui, talvez seja melhor cada um seguir o seu caminho.
A minha mãe, Dona Rosa, tentava animar-me ao telefone: — Filha, não deixes que te tirem o chão. Pensa nos teus meninos. Mas eu sentia-me sozinha como nunca.
Uma tarde, enquanto preparava o lanche das crianças, ouvi Rui entrar em casa com passos apressados. — Precisamos de conversar — disse ele, sem me olhar nos olhos.
— O que foi agora?
— Eu… eu acho que devíamos separar-nos. Não está a resultar. Não quero continuar assim.
O mundo parou. Senti as pernas fraquejarem e apoiei-me na bancada para não cair. — Vais mesmo desistir? Por causa da tua mãe? Por causa de quê?
— Não é só por ela! Eu já não sinto nada por ti há muito tempo.
As palavras dele cortaram-me como facas. Lembrei-me do Rui apaixonado com quem casei há oito anos; do homem que me prometeu amor eterno na igreja de São Julião; do pai carinhoso que fazia castelos de areia com os nossos filhos na praia da Figueirinha.
— E os nossos filhos? Vais deixá-los assim?
Ele suspirou fundo. — Vou continuar presente. Mas não posso continuar contigo.
Naquela noite não dormi. Escrevi uma carta para mim própria: “Mariana, lembra-te de quem és antes de seres mulher dele ou nora dela.”
Os meses seguintes foram um inferno burocrático e emocional. Rui foi viver para casa da mãe. Dona Amélia fazia questão de me humilhar sempre que podia: — Vês? Eu avisei o Rui desde o início…
Os meus pais ajudaram-me como puderam, mas eu sentia-me perdida. Tinha medo do futuro: como ia pagar as contas? Como ia criar os meus filhos sozinha? O Tiago começou a perguntar pelo pai todas as noites; a Leonor chorava sempre que ele vinha buscá-los ao fim-de-semana.
No tribunal, Rui pediu guarda partilhada. A advogada dele era fria e calculista; a minha parecia sempre cansada demais para lutar por mim.
Uma tarde, depois de mais uma audiência desgastante, encontrei Dona Amélia à porta do tribunal.
— Mariana — disse ela com aquele tom venenoso — espero que percebas agora porque nunca foste suficiente para o meu filho.
Engoli em seco e respondi: — Talvez nunca tenha sido suficiente para si. Mas para os meus filhos sou tudo.
Voltei para casa e sentei-me no sofá vazio da sala. Olhei para as fotografias antigas na estante: o nosso casamento; o nascimento do Tiago; a Leonor ainda bebé ao colo do pai. Tudo parecia tão distante, como se pertencesse a outra vida.
Comecei a dar mais aulas de música para pagar as despesas. Os meus alunos eram miúdos tímidos e adolescentes revoltados; neles via um reflexo da minha própria luta por aceitação e pertença.
Certa noite, depois de adormecer as crianças, sentei-me ao piano e toquei uma melodia triste. As lágrimas caíam sem pedir licença. Mas naquele momento percebi: ainda havia música em mim. Ainda havia vida para além da dor.
Com o tempo, fui reconstruindo pedaços de mim mesma. Fiz novas amizades; voltei a sair com colegas; levei os meus filhos ao parque e à praia sozinha. Aprendi a rir outra vez.
Rui tentou voltar algumas vezes — dizia sentir saudades dos filhos, mas eu sabia que era mais fácil regressar ao conforto conhecido do que enfrentar os próprios erros.
Dona Amélia continuou igual: controladora e amarga. Mas já não tinha poder sobre mim.
Hoje olho para trás e vejo uma mulher diferente daquela Mariana submissa e insegura do passado. Aprendi a pôr limites; aprendi a dizer não; aprendi que mereço respeito mesmo quando tudo à minha volta desaba.
Às vezes ainda dói — sobretudo quando vejo os meus filhos divididos entre duas casas ou quando ouço comentários maldosos na escola ou no supermercado: “Coitada… ficou sozinha com dois filhos.”
Mas também sinto orgulho por ter sobrevivido à tempestade sem perder quem realmente sou.
Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres vivem presas ao medo de desiludir os outros? Quantas sacrificam a própria felicidade para agradar famílias que nunca as aceitaram? Será que algum dia vamos aprender a escolher-nos primeiro?