Como Pude Trazer a Marta Para Casa?

— Como é que foste capaz de trazer essa rapariga para casa, Miguel? — A voz da minha mãe ecoou pela sala, tão fria e cortante como o vento de janeiro na Serra da Estrela. — Não tem sequer um curso superior! Trabalha como empregada de mesa, Miguel! O que é que tu vês nela?

Fiquei ali parado, com as mãos a suar e o coração a bater tão alto que quase abafava as palavras dela. A Marta, ao meu lado, apertava discretamente a minha mão debaixo da mesa. O meu pai olhava para o prato, como se o arroz de pato pudesse dar-lhe uma resposta. O meu irmão mais novo, o Tiago, fingia estar entretido com o telemóvel, mas eu via-lhe o olhar curioso e assustado.

— Mãe, a Marta é muito mais do que isso. — Tentei manter a voz firme, mas tremia-me. — Ela é inteligente, trabalhadora, faz-me feliz…

— Felicidade não paga contas, Miguel! — interrompeu ela. — E tu sabes bem o quanto lutámos para te dar uma educação. Para isto? Para trazeres para casa uma rapariga sem futuro?

A Marta baixou os olhos. Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim. Não era justo. Ela não conhecia a Marta. Não sabia das noites em que ela estudava sozinha para terminar o 12º ano enquanto trabalhava no café do bairro. Não sabia das conversas longas sobre sonhos e medos, dos passeios à beira-rio, das gargalhadas partilhadas no meio das dificuldades.

— Mãe, por favor… — comecei, mas ela levantou-se abruptamente.

— Não quero ouvir mais nada. Quando cresceres e perceberes o erro que estás a cometer, vais agradecer-me.

A porta da cozinha bateu com força. Ficámos em silêncio. O meu pai continuava sem me olhar nos olhos.

— Desculpa… — murmurou a Marta, já com lágrimas nos olhos.

— Não tens de pedir desculpa — sussurrei-lhe. — A culpa não é tua.

Mas será que não era? Será que eu estava mesmo preparado para enfrentar tudo isto por ela? Ou seria apenas teimosia minha?

Naquela noite, depois de levar a Marta a casa dela — um pequeno apartamento em Almada, onde vivia com a avó — fiquei sentado no carro durante horas. Olhava para as luzes da cidade e pensava em tudo o que tinha ouvido. Lembrei-me de quando era miúdo e via os meus pais discutirem sobre dinheiro e oportunidades perdidas. O meu pai sempre dizia: “O importante é teres um futuro seguro.”

Mas o que era um futuro seguro? Um emprego estável? Uma casa própria? Ou alguém ao nosso lado que nos faz sentir vivos?

Os dias seguintes foram um inferno. A minha mãe mal me falava. O meu pai limitava-se a dizer: “A tua mãe só quer o melhor para ti.” O Tiago começou a evitar-me, como se tivesse medo de ser contaminado pela minha rebeldia.

No trabalho, não conseguia concentrar-me. Os colegas notavam o meu ar ausente. Só à noite, quando falava com a Marta ao telefone ou nos encontrávamos para um café rápido depois do turno dela, sentia algum alívio.

— Achas mesmo que vale a pena? — perguntou-me ela uma noite, enquanto caminhávamos junto ao Tejo.

— Claro que sim — respondi sem hesitar, mas por dentro sentia-me dividido.

Ela parou e olhou-me nos olhos:

— Eu não quero ser o motivo de perderes a tua família.

— E eu não quero perder-te a ti — respondi, mas as palavras soaram vazias no ar frio da noite.

O tempo foi passando e as coisas só pioraram em casa. A minha mãe começou a fazer comentários passivo-agressivos sempre que eu chegava tarde ou quando via uma mensagem da Marta no meu telemóvel. O meu pai tentava mediar, mas acabava sempre por ceder à vontade dela.

Um domingo à tarde, durante o almoço de família, tudo explodiu de vez.

— Miguel, já pensaste bem no que estás a fazer à nossa família? — perguntou a minha mãe, com os olhos vermelhos de raiva e cansaço.

— Estou apenas a tentar ser feliz — respondi.

— À custa de quê? Da nossa paz? Do nosso orgulho?

— Orgulho? Ou preconceito? — atirei-lhe de volta.

O Tiago largou os talheres e saiu da mesa. O meu pai suspirou fundo.

— Chega! — gritou ele finalmente. — Isto não é vida para ninguém!

Levantei-me e saí porta fora. Fui ter com a Marta ao café onde trabalhava. Quando me viu entrar, percebeu logo que algo estava mal.

— Eles nunca vão aceitar-me, pois não? — perguntou baixinho.

Sentei-me ao balcão e olhei-a nos olhos:

— Não sei… Mas também já não sei se consigo continuar assim.

Ela mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. Senti-me miserável por lhe estar a causar tanta dor.

Nessa noite, recebi uma mensagem do Tiago: “Desculpa por hoje. Só não quero ver-te sofrer.”

Respondi-lhe: “Eu também não sei o que fazer.”

Passei semanas neste limbo. A Marta começou a afastar-se. Dizia que precisava de tempo para pensar. Eu tentava concentrar-me no trabalho, mas sentia-me vazio por dentro.

Um dia, ao chegar a casa mais cedo do trabalho, ouvi os meus pais a discutirem na cozinha:

— Ele vai acabar sozinho se continuar assim! — dizia a minha mãe entre soluços.

— Ele tem de fazer as escolhas dele… — respondia o meu pai num tom resignado.

Subi para o quarto sem fazer barulho e sentei-me na cama. Olhei para as fotografias antigas na parede: eu e o Tiago na praia da Nazaré; eu com os meus pais no batizado do primo João; eu sozinho no dia da licenciatura em Engenharia Informática.

O que é que valia mais? O orgulho deles ou o amor que sentia pela Marta?

Na semana seguinte, decidi falar com ela cara a cara. Encontrei-a num jardim perto do café onde trabalhava.

— Preciso de saber se ainda queres isto… nós — disse-lhe sem rodeios.

Ela olhou para mim com lágrimas nos olhos:

— Quero… mas não assim. Não quero ser sempre “a empregada de mesa” aos olhos da tua família. Quero ser alguém por mim própria…

Abracei-a com força. Senti-a tremer nos meus braços.

— Então vamos lutar juntos — prometi-lhe.

Começámos aos poucos a reconstruir-nos. A Marta inscreveu-se num curso à noite para terminar o 12º ano e depois entrou num curso técnico de hotelaria. Eu tentei aproximar-me do Tiago e do meu pai outra vez. A minha mãe continuava fria, mas já não fazia comentários tão cruéis.

Passaram-se meses assim. Lentamente, as coisas começaram a mudar. O Tiago foi o primeiro a convidar-nos para jantar fora com ele e os amigos. O meu pai começou a perguntar pela Marta quando chegava tarde do trabalho. A minha mãe demorou mais tempo… muito mais tempo.

No Natal seguinte, arrisquei levar a Marta ao jantar de família outra vez. Houve silêncio quando entrámos na sala. Mas desta vez, foi o Tiago quem puxou uma cadeira para ela ao lado dele.

Durante o jantar, a minha mãe quase não falou com ela. Mas quando estávamos prestes a sair, vi-a aproximar-se discretamente da Marta na cozinha:

— Ouvi dizer que vais começar um curso novo… Boa sorte — disse-lhe em voz baixa.

Foi pouco, mas foi um começo.

Hoje olho para trás e penso em tudo o que perdi… e tudo o que ganhei. Não foi fácil escolher entre o amor e as expectativas da família. Ainda há dias em que sinto saudades do tempo em que tudo era simples e seguro.

Mas depois olho para a Marta — agora já formada e com um emprego num hotel em Lisboa — e percebo que valeu a pena lutar pelo nosso amor.

Às vezes pergunto-me: quantos de nós sacrificam quem realmente são só para agradar aos outros? Será que vale mesmo a pena viver uma vida escolhida por outros?