Cinco anos depois do divórcio, mas a minha sogra ainda vive no passado
— Não percebo, Miguel! Como é que consegues ficar calado quando a tua mãe me trata assim? — gritei-lhe, com a voz embargada de lágrimas, enquanto ele se sentava no sofá, cabisbaixo, sem coragem de me olhar nos olhos.
O relógio da sala marcava quase meia-noite. O silêncio da casa era cortado apenas pelo som abafado do televisor na cozinha, onde a Dona Lurdes, minha sogra, fingia não ouvir a nossa discussão. Mas eu sabia que cada palavra era absorvida por aquelas paredes finas do apartamento em Benfica, onde vivíamos desde que eu e o Miguel decidimos juntar as nossas vidas.
Cinco anos. Cinco anos desde que ele se separou da Ana Paula, a mulher com quem tinha partilhado quase uma década e com quem teve o Tiago, agora com oito anos. Cinco anos desde que entrei nesta família, sempre sentindo-me uma intrusa, um erro que precisava de ser corrigido. E Dona Lurdes nunca me deixou esquecer isso.
— Ela está velha, Catarina… Não vale a pena — murmurou Miguel, tentando evitar mais conflito.
— Velha? Ela tem mais energia do que nós os dois juntos! E usa-a toda para me fazer sentir que nunca vou ser suficiente para ti… ou para o Tiago — respondi, sentindo o peito apertado.
Lembro-me do primeiro Natal que passei com eles. Dona Lurdes insistiu em pôr uma fotografia da Ana Paula na mesa da consoada, “para que o Tiago não se esquecesse da mãe verdadeira”. Eu sorri, engoli em seco e ajudei a servir o bacalhau. Mas por dentro, senti-me invisível.
Os dias foram passando e as pequenas agressões continuaram. “A Ana Paula fazia o arroz de pato melhor”, “O Tiago nunca ficava doente quando era só com a mãe dele”, “O Miguel estava mais feliz antes”. Cada frase era uma pedra atirada ao meu coração já tão cansado.
Havia dias em que pensava em desistir. Em fazer as malas e sair dali, deixar o Miguel e o Tiago entregues à Dona Lurdes e à memória da Ana Paula. Mas depois via o sorriso do Tiago quando eu lhe lia histórias antes de dormir, ou sentia o abraço apertado do Miguel nas noites frias de inverno, e lembrava-me porque lutava tanto.
Mas hoje foi demais. Hoje, Dona Lurdes ultrapassou todos os limites.
Cheguei a casa mais cedo do trabalho para preparar um jantar especial — era o aniversário do Miguel. Queria surpreendê-lo com um prato típico da nossa infância: arroz de marisco. Passei horas na cozinha, a cortar cebolas com lágrimas nos olhos (umas da cebola, outras da ansiedade), a escolher os camarões mais frescos na peixaria do bairro.
Quando Dona Lurdes entrou na cozinha e viu o que eu estava a fazer, torceu o nariz.
— O Miguel nunca gostou muito disso… A Ana Paula fazia-lhe sempre carne assada no forno — disse ela, como quem fala do tempo.
Respirei fundo e continuei. Quando finalmente nos sentámos à mesa, ela fez questão de ligar para a Ana Paula em alta voz, para que todos ouvissem:
— Olá querida! Hoje é o dia do Miguel! Lembras-te como costumavas fazer aquele bolo de chocolate? O Tiago ainda fala disso… Pois é, estamos todos juntos aqui. Sim, sim… — olhou para mim de soslaio — Está cá também.
O jantar foi um desastre. O Miguel tentava sorrir, mas eu via-lhe nos olhos o desconforto. O Tiago perguntava pela mãe biológica e Dona Lurdes aproveitava cada oportunidade para relembrar os “bons velhos tempos”.
Depois do jantar, fechei-me na casa de banho e chorei baixinho. Senti-me tão sozinha como nunca antes.
Mais tarde, já na sala, explodi com o Miguel. Precisava de respostas. Precisava de saber se algum dia aquela casa seria minha também.
— Catarina… Eu amo-te. Mas não posso obrigar a minha mãe a esquecer-se da Ana Paula. Ela foi parte da nossa família durante muitos anos… — disse ele, num tom quase suplicante.
— E eu? Quando é que eu passo a ser parte desta família? Ou vou ser sempre “a outra”? — perguntei-lhe, com a voz trémula.
Ele não respondeu. Limitou-se a baixar os olhos e a suspirar.
Naquela noite dormi sozinha no sofá. O Miguel ficou no quarto com o Tiago, talvez para lhe dar algum conforto depois de tanta confusão. Eu fiquei ali, enrolada numa manta fina, a olhar para o teto e a pensar em tudo o que tinha perdido para estar ali: os meus pais em Coimbra, os meus amigos de infância, até o meu emprego antigo que deixei para recomeçar em Lisboa ao lado do homem que amava.
No dia seguinte acordei cedo e fui trabalhar sem tomar pequeno-almoço. No autocarro olhei pela janela e vi as ruas cheias de vida: senhoras idosas a conversar à porta das padarias, crianças a correr para a escola, homens apressados com pastas na mão. Perguntei-me se alguma delas sentia este vazio que me consumia por dentro.
Durante semanas tentei ignorar Dona Lurdes. Cumprimentava-a com um aceno frio e evitava conversas longas. Mas ela não desistia. Um dia entrou no meu quarto sem bater à porta:
— Catarina… Eu sei que não gostas de mim — começou ela, sentando-se na ponta da cama — Mas tens de perceber: eu só quero o melhor para o meu filho e para o meu neto. A Ana Paula era como uma filha para mim…
— E eu? O que sou eu? — interrompi-a, já sem forças para manter as aparências.
Ela ficou calada durante uns segundos longos demais.
— Tu és… diferente. Não és má rapariga. Mas não és ela — disse enfim.
Senti um nó na garganta tão apertado que mal conseguia respirar.
— Nunca vou ser suficiente para si, pois não? — perguntei-lhe.
Ela levantou-se devagar e saiu do quarto sem responder.
Nessa noite escrevi uma carta ao Miguel. Disse-lhe tudo: como me sentia invisível naquela casa, como me magoava ver o Tiago dividido entre duas mães, como precisava de sentir que pertencia ali. Deixei a carta na mesa da cozinha e fui dar uma volta pelo bairro.
Quando voltei, encontrei-o sentado à mesa com os olhos vermelhos de chorar.
— Catarina… Desculpa. Eu devia ter-te defendido mais vezes. Devia ter-te mostrado que és importante para mim… Para nós — disse ele, levantando-se para me abraçar.
Chorámos juntos nessa noite. Pela primeira vez em muito tempo senti-me ouvida.
As coisas não mudaram de um dia para o outro. Dona Lurdes continuou a viver no passado durante muitos meses. Mas aos poucos comecei a impor limites: deixei claro que não aceitava comparações nem insinuações sobre a Ana Paula à minha frente; pedi ao Miguel para intervir sempre que ela ultrapassasse os limites; procurei criar momentos só nossos com o Tiago, sem interferências nem fantasmas antigos.
Foi difícil. Houve discussões feias, portas batidas e silêncios longos à mesa do jantar. Mas também houve pequenos gestos de aproximação: um bolo feito por mim que Dona Lurdes elogiou (ainda que timidamente), um desenho do Tiago onde aparecíamos todos juntos (incluindo eu), um abraço inesperado do Miguel num dia particularmente mau.
Hoje olho para trás e vejo quanto cresci neste processo doloroso. Aprendi que amor não é só paixão ou desejo; é também resiliência, paciência e coragem para lutar pelo nosso lugar no mundo — mesmo quando parece impossível ser aceite.
Às vezes ainda me pergunto: será possível construir uma nova família sobre as ruínas de outra? Ou estaremos sempre condenados a viver entre fantasmas?
E vocês? Já sentiram que nunca seriam suficientes para alguém? Como lidaram com isso?