Cinco anos depois do divórcio, a minha sogra ainda não me aceita
— Não percebes, Sofia? A Andreia sempre foi a mulher certa para o meu filho. — A voz da Dona Teresa ecoava pela cozinha, carregada de uma amargura que me cortava a respiração. Eu estava ali, de pé, com as mãos trémulas a segurar uma chávena de café já frio, enquanto ela arrumava os pratos com força desnecessária.
Cinco anos. Já passaram cinco anos desde que o Miguel se divorciou da Andreia. Cinco anos desde que entrei nesta família, sempre como uma intrusa, uma sombra do que poderia ter sido. Lembro-me do primeiro Natal em casa da Dona Teresa: a mesa posta para sete, mas um lugar vazio, reservado para a ex-nora que nunca apareceu. O silêncio pesado, os olhares furtivos, e eu a tentar sorrir, a tentar pertencer.
— Dona Teresa, eu só quero que todos fiquem bem… — arrisquei, mas ela interrompeu-me com um gesto brusco.
— Não me chames de Dona Teresa. Para ti sou só Teresa. — O tom era cortante. — E não te iludas, Sofia. O Miguel pode gostar de ti agora, mas o amor verdadeiro dele foi sempre pela Andreia. E pelo bem do meu neto, era assim que devia ser.
O neto. O pequeno Tomás, com os seus olhos grandes e curiosos, é o centro de todas as atenções nesta família. Mas também é o pretexto para todas as guerras. Sempre que o Miguel vai buscar o Tomás à casa da Andreia, a Dona Teresa faz questão de ir junto. E quando regressam, há sempre comentários: “A Andreia fez bolo de laranja para o Tomás”, “A Andreia comprou-lhe um casaco novo”, “A Andreia isto, a Andreia aquilo”.
No início tentei ser compreensiva. Afinal, não é fácil ver um casamento acabar, ainda mais quando há uma criança envolvida. Mas com o tempo percebi que não era só tristeza: era uma recusa absoluta em aceitar-me. A cada gesto meu, sentia os olhos dela a julgar-me. Se cozinhava algo diferente do habitual, ouvia: “A Andreia fazia assim”. Se comprava roupa para o Tomás: “A Andreia tem mais gosto”.
O Miguel tentava proteger-me, mas também ele estava preso entre duas mulheres: a mãe e eu. Muitas vezes chegava a casa cansado, com aquele olhar perdido de quem já não sabe como agradar a todos.
— Sofia, não ligues à minha mãe. Ela vai acabar por aceitar-te… — dizia-me ele ao fim do dia, enquanto me abraçava no sofá.
Mas eu sabia que não era verdade. Havia sempre uma nova comparação, uma nova crítica velada. E havia também os jantares de família em que a Andreia era convidada “por causa do Tomás”, e eu sentava-me ali, invisível, enquanto todos recordavam histórias antigas.
Uma vez ouvi a Dona Teresa ao telefone:
— Andreia, sabes que esta casa é sempre tua. O Miguel pode estar confuso agora, mas ele vai perceber…
Naquele dia chorei sozinha no quarto. Senti-me pequena, descartável. Perguntei-me se algum dia seria suficiente para aquela família.
Os meses passaram e as coisas só pioraram quando anunciei que estava grávida. Esperei um sorriso, um abraço — mas vi apenas preocupação no rosto da Dona Teresa.
— Mais um neto? E o Tomás? Já sofre tanto com esta confusão… — disse ela num tom quase acusatório.
O Miguel ficou radiante com a notícia e tentou envolver a mãe na preparação para o bebé. Mas ela mantinha-se distante, fria.
— Não quero saber de mais confusões nesta família — repetia ela vezes sem conta.
Quando nasceu a nossa filha, Matilde, pensei que talvez tudo mudasse. Que talvez um bebé conseguisse derreter aquele gelo entre nós. Mas no batizado da Matilde, a Dona Teresa passou metade do tempo ao telefone com a Andreia e trouxe um presente “para os dois netos”, deixando claro que não fazia distinção — mas também não fazia questão de celebrar a chegada da minha filha.
As discussões em casa começaram a ser mais frequentes. O Miguel sentia-se dividido; eu sentia-me sozinha.
— Porque é que ela não consegue aceitar-nos? — perguntei-lhe uma noite.
Ele encolheu os ombros:
— A minha mãe sempre foi assim… Ela acha que sabe o que é melhor para todos.
O Tomás começou a perguntar porque é que a avó falava tanto da mãe dele quando estava connosco. Um dia entrou no quarto e perguntou:
— Sofia, tu és má?
Fiquei sem palavras. Sentei-me ao lado dele na cama e tentei explicar-lhe que as famílias mudam, mas o amor fica. Mas percebi que até as crianças sentem o peso deste passado nunca resolvido.
Comecei a evitar os encontros familiares. Arranjei desculpas para não ir aos almoços de domingo. O Miguel tentava convencer-me:
— Não desistas de nós…
Mas eu já estava cansada de lutar contra fantasmas.
Um dia recebi uma mensagem da Andreia:
“Olá Sofia. Sei que isto não é fácil para ti nem para mim. A Dona Teresa está sempre a tentar meter-se nas nossas vidas… Queres conversar?”
Fiquei surpreendida. Aceitei encontrar-me com ela num café discreto do bairro.
— Sabes — disse-me ela — eu também estou cansada disto tudo. A tua filha é irmã do Tomás e eu quero que eles cresçam juntos sem estas guerras.
Falámos durante horas. Descobri nela uma mulher tão perdida quanto eu nesta teia de expectativas e ressentimentos.
Voltando para casa naquela noite, senti um alívio estranho. Talvez não estivéssemos sozinhas nesta luta.
No entanto, nada mudou com a Dona Teresa. Continuou firme na sua missão de reconstituir o passado perdido.
Hoje olho para o Miguel e para os nossos filhos e pergunto-me se algum dia conseguiremos ser uma família completa — ou se estaremos sempre presos às memórias dos outros.
Será possível construir um futuro quando alguém insiste em viver no passado? Quantos de nós já sentimos que nunca seremos suficientes para quem mais queremos agradar?