Casa Sobre Fundamentos Alheios: A Minha História de Prioridades Perdidas
— Maria, anda cá, preciso que me ajudes com estas tábuas! — gritou a minha sogra, Dona Lurdes, da varanda da casa de campo, enquanto o sol castigava sem piedade o nosso pequeno pedaço de terra em Santarém. O suor escorria-me pela testa, misturando-se com a poeira que se colava à pele. Olhei para as minhas mãos calejadas e pensei: “Quantas vezes mais vou deixar que a vida dos outros pese mais do que a minha?”
O meu marido, António, estava sentado à sombra, fingindo procurar algo no telemóvel. Os nossos filhos, Inês e Tomás, brincavam junto ao tanque, rindo alto, alheios à tensão que pairava no ar. Eu sentia-me dividida entre o desejo de lhes dar um verão feliz e a obrigação de corresponder às expectativas da família do António.
— Maria, não me ouviste? — insistiu Dona Lurdes, com aquela voz que nunca admitia um não.
— Já vou, Dona Lurdes — respondi, tentando esconder o cansaço na voz.
A verdade é que esta casa nunca foi nossa. Era o sonho dela, construído com o dinheiro do António e com o meu trabalho. Quantas vezes adiei as férias que prometi aos meus filhos? Quantas vezes deixei de visitar os meus pais em Évora porque “a mãe do António precisa de ajuda”?
Enquanto segurava as tábuas para ela pregar, lembrei-me da última discussão com o António.
— Maria, ela está sozinha. Não tem mais ninguém — disse ele, como sempre.
— E nós? Quando é que somos nós? — perguntei-lhe, a voz embargada.
Ele desviou o olhar. Nunca tinha resposta.
Naquela tarde, enquanto o calor apertava e o cheiro a madeira misturava-se com o das flores secas do campo, ouvi Dona Lurdes resmungar:
— Se não fosse eu a puxar por isto tudo, nada se fazia nesta família.
Mordi o lábio para não responder. Mas por dentro gritava. “E eu? Eu faço tudo e nunca sou suficiente!”
À noite, depois de um jantar apressado — arroz de tomate e sardinhas fritas — sentei-me no alpendre. Inês veio ter comigo.
— Mãe, amanhã podemos ir ao rio? — perguntou ela, os olhos brilhantes de esperança.
— Não sei, filha. A avó quer acabar o telhado antes do fim-de-semana.
Vi a desilusão nos olhos dela. Senti-me miserável. O António apareceu e sentou-se ao meu lado.
— Maria, não fiques assim. A minha mãe já não vai durar para sempre…
— E se eu não durar? E se nós não durarmos? — rebati, surpreendendo-me com a dureza da minha própria voz.
Ele ficou calado. O silêncio entre nós era mais pesado do que qualquer tábua daquela casa.
Nessa noite não dormi. Ouvia os grilos lá fora e pensava no tempo perdido. Lembrei-me do meu pai, já falecido, a dizer-me: “Maria, nunca deixes que te apaguem.” Mas eu sentia-me cada vez mais apagada.
No dia seguinte, acordei cedo e fui buscar pão à aldeia. No caminho encontrei a minha vizinha Rosa.
— Ainda andas metida naquela casa? — perguntou ela, com um sorriso triste.
— Ainda… — respondi.
— Olha que a vida passa depressa demais para ser vivida nos sonhos dos outros.
As palavras dela ficaram-me na cabeça todo o dia. Quando voltei, vi Dona Lurdes sentada à mesa da cozinha, a fazer contas num caderno velho.
— Maria, precisamos de comprar mais tinta. Vê lá se podes ir à vila depois do almoço.
Respirei fundo. Olhei para os meus filhos a brincar lá fora e tomei uma decisão impulsiva.
— Dona Lurdes, hoje não posso. Vou levar as crianças ao rio.
Ela olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido.
— Como assim? E o telhado?
— O telhado pode esperar. Os meus filhos não podem.
O António apareceu à porta, alarmado com o tom da conversa.
— Maria… — começou ele.
— Chega! — interrompi-o. — Passámos anos a viver para esta casa que nem é nossa! Os nossos filhos merecem mais do que isto. Eu mereço mais do que isto!
O silêncio foi ensurdecedor. Senti as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos, mas mantive-me firme.
Peguei nas mochilas das crianças e saímos os três para o campo. O caminho até ao rio foi feito em silêncio; Inês apertava-me a mão com força e Tomás olhava para mim como se visse uma heroína.
Quando chegámos ao rio, sentei-me na relva e deixei finalmente as lágrimas correrem. Inês abraçou-me sem dizer nada. Tomás encheu as mãos de água e atirou-as ao ar, rindo alto.
Ali percebi quanto tempo tinha passado sem pensar em mim própria. Quantos sonhos adormecidos tinha deixado para trás?
Quando voltámos ao final da tarde, Dona Lurdes nem olhou para mim. O António estava sentado no alpendre, de cabeça baixa.
— Maria… desculpa — murmurou ele. — Nunca pensei que estivesses tão cansada disto tudo.
Sentei-me ao lado dele e olhei para o céu cor-de-laranja do entardecer.
— António… eu amo-te. Amo esta família. Mas não posso continuar a viver assim. Ou mudamos juntos ou vou ter de mudar sozinha.
Ele pegou na minha mão e ficou ali comigo em silêncio. Pela primeira vez em muitos anos senti esperança.
Hoje escrevo esta história porque sei que há muitas Marias por aí. Mulheres (e homens) que vivem para os outros até se esquecerem de si próprios. Será que algum dia vamos aprender a pôr-nos em primeiro lugar sem culpa? Será egoísmo querer ser feliz?