Carta de uma Filha: O Silêncio Quebrado de um Lar Ferido pelo Álcool
— Viviana, despacha-te! Vais chegar atrasada outra vez! — gritou a minha mãe da cozinha, enquanto eu tentava encontrar coragem para sair do quarto. O cheiro a café queimado misturava-se com o odor persistente de vinho tinto que impregnava as paredes da nossa casa em Almada. Era uma manhã igual a tantas outras, mas dentro de mim fervilhava uma inquietação diferente.
A carta estava ali, dobrada no fundo da mochila. A professora de Português tinha pedido um texto sobre “o maior desafio da minha vida”. Passei noites em claro a pensar se devia ou não contar a verdade. O segredo da nossa família era pesado demais para os meus catorze anos.
— Mãe, o pai ainda não acordou? — perguntei, sabendo bem a resposta.
Ela suspirou, com aquele olhar cansado de quem já chorou tudo o que tinha para chorar. — Não, filha. Deixa-o estar. Hoje é domingo, ele precisa descansar.
Mas eu sabia que não era cansaço. Era ressaca. Era fuga. Era o vazio que o álcool deixava quando passava o efeito.
Na escola, sentei-me na última fila. A professora pediu para entregarmos os textos. As minhas mãos tremiam quando lhe dei a folha. Durante a aula, não consegui prestar atenção. As palavras da carta ecoavam na minha cabeça:
“Chamo-me Viviana e sou filha de um alcoólico. Durante anos, tentei esconder esta verdade dos meus amigos, dos professores e até de mim própria. Mas cada garrafa vazia no lixo, cada discussão à mesa e cada promessa quebrada pelo meu pai são feridas abertas que não consigo mais ignorar…”
No intervalo, a minha amiga Inês percebeu que eu estava diferente.
— O que se passa, Vivi? Pareces distante.
Olhei para ela e quase lhe contei tudo. Mas calei-me. O medo de ser julgada era maior do que a vontade de pedir ajuda.
Quando cheguei a casa nesse dia, encontrei o meu pai sentado no sofá, olhar perdido na televisão desligada. O cheiro a álcool era mais forte do que nunca.
— Olá, filha — murmurou ele, voz arrastada.
Sentei-me ao lado dele. Queria abraçá-lo, mas não consegui. Havia uma barreira invisível entre nós.
— Pai… porque é que bebes tanto?
Ele ficou em silêncio. Depois levantou-se bruscamente e saiu para o quintal. Ouvi-o chorar baixinho. Nunca o tinha visto assim.
Nessa noite, ouvi os meus pais discutirem no quarto. A minha mãe gritava:
— António, assim não dá mais! Vais perder as tuas filhas!
Ele respondeu com um silêncio pesado, seguido do som de uma garrafa a partir-se no chão.
No dia seguinte, a professora chamou-me ao gabinete.
— Viviana, li o teu texto. Tocou-me profundamente. Sabes que não estás sozinha, certo?
Baixei os olhos, envergonhada.
— Não queria que ninguém soubesse…
Ela sorriu com ternura.
— Às vezes, partilhar a dor é o primeiro passo para curar.
Foi aí que tudo começou a mudar. A professora falou com a psicóloga da escola e, pela primeira vez, alguém fora de casa sabia o que se passava connosco. A minha mãe foi chamada à escola e chorou ao ouvir as minhas palavras lidas em voz alta pela psicóloga.
Em casa, o ambiente ficou tenso durante dias. O meu pai evitava-me. A minha irmã mais nova, Leonor, perguntava porque é que todos estavam tão tristes.
Uma noite, depois do jantar, sentei-me com o meu pai na varanda.
— Pai… leste a minha carta?
Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez em muito tempo.
— Li… — disse ele com voz embargada — Desculpa, filha. Nunca quis magoar-te assim.
As lágrimas correram-lhe pelo rosto enrugado. Pela primeira vez vi o homem frágil por trás do gigante que sempre temi quando chegava bêbado a casa.
A partir desse dia, começámos todos juntos um caminho difícil: ele aceitou ir às reuniões dos Alcoólicos Anónimos em Lisboa; eu comecei terapia na escola; a minha mãe deixou de fingir que estava tudo bem e procurou apoio nas amigas; Leonor voltou a sorrir mais vezes.
Mas nem tudo foi fácil. Houve recaídas. Houve noites em que temi pelo pior quando ouvi barulhos estranhos na cozinha ou portas a bater no meio da madrugada. Houve dias em que me odiei por sentir vergonha do meu próprio pai.
A carta acabou por ser publicada no jornal da escola e depois partilhada nas redes sociais por professores e colegas sensibilizados com o tema. Recebi mensagens de desconhecidos: “Obrigada por teres coragem de contar”; “Também vivo isso em casa”; “Não estás sozinha”.
O meu pai ficou envergonhado ao início — “Agora toda a gente sabe…” — mas depois percebeu que aquela exposição trouxe-lhe apoio inesperado: colegas do trabalho ofereceram ajuda; vizinhos deixaram de cochichar atrás das cortinas e começaram a cumprimentá-lo com respeito renovado.
Hoje sei que aquela carta salvou-nos de um silêncio destrutivo. Salvou-me da solidão e salvou o meu pai do fundo do poço onde quase se perdeu para sempre.
Às vezes pergunto-me: quantas famílias vivem presas ao medo e à vergonha? Quantas Vivianas há por aí caladas? Será que partilhar a nossa dor pode mesmo mudar alguma coisa? E vocês… já tiveram coragem de quebrar o vosso próprio silêncio?