Bater à Porta: Lágrimas de uma Sogra e a Traição que Nunca Passa
— Inês, por favor, abre a porta. — A voz da Dona Amélia tremia do outro lado, abafada pelo choro. Eram quase onze da noite e o Rui ainda não tinha chegado. Ouvia os gémeos a ressonar no quarto, alheios ao tumulto que se preparava para entrar pela nossa casa adentro.
Abri a porta devagar, com o coração apertado. Dona Amélia entrou sem pedir licença, como sempre fizera desde que casei com o Rui. Trazia os olhos vermelhos e as mãos trémulas. — Preciso falar contigo — disse, sentando-se no sofá como se as pernas já não lhe obedecessem.
Sentei-me à sua frente, tentando adivinhar o que teria acontecido desta vez. Desde que os gémeos nasceram, ela vinha cá quase todos os dias, ora para ajudar, ora para controlar. Mas nunca assim, nunca tão desfeita.
— O Rui… — começou ela, mas a voz falhou-lhe. — O Rui não é quem tu pensas.
Senti um arrepio gelado subir-me pela espinha. — O que quer dizer com isso?
Ela olhou-me nos olhos, e naquele momento percebi que algo grave se passava. — Há coisas que tu não sabes sobre o passado dele. Sobre o vosso casamento.
O silêncio caiu pesado entre nós. Lembrei-me de todas as discussões, dos olhares vazios do Rui, das noites em que ele chegava tarde sem explicação. Mas depois vieram os gémeos — depois de anos de tratamentos dolorosos, de consultas e exames humilhantes, de lágrimas partilhadas e silêncios ensurdecedores. Achei que tínhamos sobrevivido ao pior.
— Dona Amélia, por favor… — supliquei, sentindo as lágrimas ameaçarem-me também.
Ela respirou fundo. — O Rui teve uma relação antes de ti. Uma relação séria. E… há uma filha. Uma menina. Chama-se Matilde.
O mundo parou. Senti-me a afundar num poço sem fundo. — Uma filha? Como assim? Ele nunca me disse nada!
— Ele tinha medo de te perder — murmurou ela. — E agora… agora a mãe da menina está doente. Muito doente. E pediu ao Rui para ficar com a Matilde.
Levantei-me num salto, incapaz de conter a raiva e a dor. — Então é por isso que ele anda tão estranho? Por isso é que chega tarde? Por isso é que me evita?
Dona Amélia chorava baixinho. — Ele não sabia como te contar. Achou que depois de tudo o que passaram…
— Depois de tudo o que passámos? — gritei, sentindo o peito apertar-se até quase não conseguir respirar. — Depois de anos a tentar engravidar, de noites em branco, de lágrimas e promessas… Ele escondeu-me isto?
Ouvimos a chave na porta. O Rui entrou, cansado, com o casaco pendurado no braço. Parou ao ver-nos ali, as duas destroçadas.
— O que se passa? — perguntou ele, mas já sabia.
— Fala tu — disse Dona Amélia, levantando-se devagar e saindo da sala sem olhar para trás.
Ficámos sozinhos. O Rui olhou para mim, os olhos cheios de culpa.
— Inês…
— Não digas nada — interrompi-o. — Só quero saber uma coisa: quantas vezes me mentiste?
Ele baixou a cabeça. — Nunca quis magoar-te.
— Mas magoaste! — gritei, sentindo as lágrimas correrem-me pelo rosto. — Fizeste-me sentir insuficiente durante anos! E afinal tinhas uma filha escondida?
O Rui tentou aproximar-se, mas recuei como se ele fosse um estranho. — Eu era novo… Não sabia o que fazer… A mãe da Matilde foi embora para o Porto e eu achei que nunca mais as ia ver… Quando te conheci, queria começar do zero.
— E agora? Vais trazer essa criança para casa? Vais obrigar-me a aceitar tudo isto como se fosse normal?
Ele ficou em silêncio. A resposta era óbvia.
Nessa noite não dormi. Fiquei sentada na sala escura, ouvindo os gémeos respirarem no quarto ao lado e pensando em tudo o que tinha perdido sem saber: anos de confiança, de cumplicidade, de verdade. Senti-me traída não só pelo Rui, mas também pela Dona Amélia, que sempre soube e nunca me disse nada.
Os dias seguintes foram um pesadelo silencioso. O Rui tentava falar comigo, mas eu evitava-o. Os gémeos sentiam a tensão e choravam mais do que nunca. Dona Amélia vinha todos os dias, mas já não me olhava nos olhos.
Uma semana depois, o Rui trouxe a Matilde cá a casa pela primeira vez. Era uma menina magra, de olhos grandes e tristes, agarrada a um urso velho. Olhou para mim como quem pede desculpa por existir.
— Olá — disse ela baixinho.
Tentei sorrir-lhe, mas só consegui acenar com a cabeça.
O Rui apresentou-a aos gémeos como se tudo fosse natural. Eles olharam para ela com curiosidade infantil e logo quiseram brincar com o urso dela.
Ao jantar, Matilde sentou-se calada à mesa enquanto o Rui tentava animar o ambiente com histórias forçadas sobre quando era pequeno. Eu mal toquei na comida.
Quando finalmente consegui ficar sozinha com ela na cozinha, Matilde olhou para mim e disse:
— A minha mãe diz que sou parecida com o pai quando era pequeno.
Senti um nó na garganta. — De certeza que sim.
Ela sorriu timidamente e saiu da cozinha.
Nessa noite chorei até adormecer no sofá. Senti-me invadida na minha própria casa, incapaz de lidar com aquela criança que não tinha culpa de nada mas era o símbolo vivo da traição do Rui.
Os meses passaram devagar. A Matilde foi ficando cada vez mais tempo connosco enquanto a mãe piorava no hospital do Porto. Os gémeos começaram a vê-la como irmã e até Dona Amélia parecia mais feliz por ter todos os netos juntos.
Mas eu… eu não conseguia perdoar o Rui. Cada vez que olhava para ele via todas as mentiras acumuladas ao longo dos anos: as desculpas esfarrapadas para chegar tarde, as mensagens apagadas do telemóvel, os silêncios desconfortáveis sempre que falávamos do passado.
Uma noite, depois de pôr os gémeos na cama, sentei-me com o Rui na varanda.
— Não consigo continuar assim — disse-lhe finalmente.
Ele olhou para mim com lágrimas nos olhos. — Eu amo-te, Inês. Amo-vos a todos.
— Mas não confio em ti — respondi baixinho. — E sem confiança não há família possível.
Ele tentou pegar-me na mão mas eu afastei-me.
— Preciso de tempo — disse-lhe antes de entrar em casa e fechar a porta atrás de mim.
Hoje escrevo estas palavras sentada no mesmo sofá onde ouvi pela primeira vez o nome da Matilde. Os gémeos brincam no tapete com ela ao lado deles; parecem felizes e unidos como irmãos verdadeiros. Dona Amélia faz bolos na cozinha e canta baixinho uma canção antiga da Beira Baixa.
Mas eu continuo perdida entre o passado e o presente, entre o amor e a mágoa.
Pergunto-me: será possível perdoar uma traição destas? Ou há feridas que nunca saram? O que fariam vocês no meu lugar?