“Assina tudo em meu nome! Por que acreditaste nela? Ela está-te a enganar!” – A minha luta pelo lar, pela filha e pela dignidade depois da traição do meu marido
“Assina tudo em meu nome! Por que acreditaste nela? Ela está-te a enganar!”
As palavras do Rui ecoavam pela sala, misturando-se com o som abafado da chuva a bater nos vidros. Eu tremia, não sabia se de frio ou de raiva. A minha mão segurava o papel que ele me estendia, o olhar dele cravado no meu como se quisesse furar-me a alma. A minha sogra, Dona Amélia, sentada no sofá, sorria de lado, satisfeita com o caos que ajudara a criar.
“Não vou assinar nada, Rui. Não depois do que fizeste. Não depois de tudo o que ouvi ontem à noite.”
A minha voz saiu baixa, mas firme. O Rui bufou, passou as mãos pelos cabelos e virou-se para a mãe.
“Vês, mãe? Ela está a fazer-se de vítima outra vez. Sempre foi assim.”
A Dona Amélia levantou-se devagar, ajeitou o xaile sobre os ombros e aproximou-se de mim.
“Filha, pensa bem. A casa é do Rui. Tu só cá estás porque ele quis. Não compliques as coisas.”
Senti o sangue ferver-me nas veias. Aquela casa era tanto minha como dele – eu também trabalhei anos para pagarmos o crédito, abdiquei dos meus sonhos para criar a nossa filha, a Matilde. E agora queriam expulsar-me como se fosse uma intrusa?
Na noite anterior, tudo desabou. Eu já desconfiava dos olhares trocados entre o Rui e a tal Andreia do escritório, mas nunca quis acreditar. Até que vi as mensagens no telemóvel dele – promessas, juras de amor, planos para um futuro onde eu não existia. Confrontei-o. Ele negou, depois gritou, depois saiu porta fora. Voltou de madrugada, bêbado e agressivo.
A Matilde acordou com os gritos. Tinha os olhos inchados de sono e medo.
“Mãe… o pai vai embora?”
Abracei-a com força.
“Não sei, filha. Mas eu estou aqui.”
Agora, na sala, sentia-me encurralada. O Rui queria que eu assinasse a transferência da casa para o nome dele – dizia que era para facilitar o divórcio, mas eu sabia que era para me deixar sem nada.
“Se não assinares, vais-te arrepender”, ameaçou ele.
Olhei para ele – aquele homem que amei durante quinze anos parecia-me agora um estranho. Lembrei-me das noites em claro quando a Matilde era bebé, das contas pagas à justa, dos jantares de aniversário em família… Tudo parecia mentira.
“Não vou assinar”, repeti.
Ele atirou o papel para cima da mesa e saiu batendo com a porta. A Dona Amélia ficou a olhar para mim com desdém.
“És uma ingrata. O Rui sempre te deu tudo.”
Engoli em seco.
“Tudo? Ele deu-me mentiras e traição.”
Ela virou costas e foi atrás do filho.
Fiquei sozinha na sala, com as lágrimas a correrem-me pelo rosto. Senti-me pequena, impotente. Mas não podia desistir – não por mim, mas pela Matilde.
Os dias seguintes foram um inferno. O Rui começou a aparecer cada vez menos em casa. Quando vinha, era só para buscar roupa ou discutir comigo. A Dona Amélia ligava-me todos os dias a pressionar-me para assinar os papéis.
“Se fosses esperta, fazias como eu digo”, dizia ela ao telefone. “Assim ainda te safavas com alguma coisa.”
Mas eu não queria migalhas. Queria justiça.
Procurei uma advogada – a Dra. Teresa, uma mulher dura mas justa.
“Não assine nada sem ler tudo ao pormenor”, avisou-me logo na primeira reunião. “E prepare-se: ele vai tentar virar a Matilde contra si.”
E assim foi.
Uma tarde, cheguei a casa e encontrei a Matilde sentada na cama, abraçada ao urso de peluche.
“O pai disse que tu não gostas dele… Que queres ficar com tudo só para ti.”
Sentei-me ao lado dela e segurei-lhe as mãos pequenas.
“Filha… O pai está zangado comigo, mas isso não tem nada a ver contigo. Eu amo-te mais do que tudo neste mundo.”
Ela chorou baixinho no meu colo. Senti uma dor tão funda que quase me faltou o ar.
As semanas passaram entre reuniões com advogados, idas ao tribunal e noites mal dormidas. O Rui apresentou uma queixa falsa dizendo que eu era instável emocionalmente e não podia ficar com a guarda da Matilde. A Dona Amélia testemunhou contra mim – disse que eu era fria, distante e má mãe.
No tribunal, olhei para o juiz com as mãos trémulas.
“Eu só quero proteger a minha filha”, disse-lhe. “Quero que ela cresça num ambiente seguro.”
O Rui olhava para mim com ódio. A Andreia estava sentada na última fila da sala de audiências – sorria como se já tivesse ganho.
A decisão demorou semanas. Foram dias de angústia – cada telefonema fazia-me saltar o coração.
Finalmente chegou a carta do tribunal: guarda partilhada da Matilde, casa para mim até ela fazer 18 anos. Senti um alívio imenso misturado com tristeza – nada voltaria a ser como antes.
O Rui mudou-se para um apartamento pequeno na cidade. A Andreia foi viver com ele pouco tempo depois. A Matilde ia lá aos fins-de-semana – voltava sempre mais calada, mais distante.
Um dia, ao jantar, ela perguntou:
“Mãe… tu vais arranjar outro namorado?”
Sorri-lhe com ternura.
“Agora não penso nisso, filha. Quero é ver-te feliz.”
Ela sorriu pela primeira vez em semanas.
A Dona Amélia nunca mais me falou – cruzamo-nos na rua e ela vira sempre a cara.
O tempo passou devagarinho. Fui reconstruindo a minha vida aos poucos: arranjei um trabalho novo numa loja de roupa no centro de Lisboa, comecei a sair com amigas antigas que tinha deixado para trás durante o casamento. A Matilde foi recuperando o sorriso – inscreveu-se no grupo de teatro da escola e fez novas amigas.
Às vezes ainda acordo sobressaltada com pesadelos – vejo o Rui a gritar comigo, sinto o peso da solidão e do medo de perder tudo outra vez. Mas depois olho para a Matilde a dormir tranquila no quarto ao lado e lembro-me porque lutei tanto.
Hoje sei que sou mais forte do que pensava. Que nenhuma traição pode roubar-me aquilo que sou: mãe, mulher e dona da minha própria dignidade.
Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres passam por isto em silêncio? Quantas desistem por medo ou vergonha? E vocês… já sentiram que tiveram de lutar sozinhas contra tudo e todos? Partilhem comigo as vossas histórias.