Anos de Sacrifício em França: Dei Tudo aos Meus Filhos, Agora Não Tenho Para Onde Ir

— Mãe, não podes ficar aqui. O apartamento é pequeno e sabes que a Mariana está grávida. — A voz do meu filho Pedro ecoou fria pela sala, enquanto eu segurava a mala com as mãos trémulas.

Olhei para ele, para o neto que brincava no tapete, e senti o peso dos anos a esmagar-me o peito. Tantos anos longe, tantos Natais passados a ver fotografias em vez de abraços. Trabalhei em França desde os vinte e três anos. Fui para lá com uma mala de cartão e um coração cheio de esperança. Queria dar aos meus filhos aquilo que nunca tive: uma casa digna, estudos, oportunidades.

Lembro-me da primeira noite em Paris. O cheiro a mofo do quarto alugado, o frio que entrava pelas janelas partidas. Chorei baixinho para não acordar as outras mulheres do lar. No dia seguinte, comecei a trabalhar numa casa de família portuguesa. Limpava, cozinhava, cuidava dos filhos deles como se fossem meus. Mandava quase tudo para Portugal. Cada euro era para os meus meninos: Pedro e Inês.

Durante anos, vivi para eles. Comprava roupa em segunda mão para mim, mas fazia questão de lhes mandar brinquedos novos pelo correio. Quando consegui juntar dinheiro suficiente, comprei um apartamento para cada um em Lisboa. Lembro-me do orgulho na voz da minha mãe quando contou à vizinha: “A minha filha é uma heroína, está a dar tudo aos filhos!”

Mas agora, aqui estou eu, com setenta anos feitos, sem forças para mais nada. O meu marido morreu há três anos. A casa onde vivíamos foi vendida para pagar as dívidas do funeral e dos tratamentos. Voltei a Portugal com a esperança de finalmente viver perto dos meus filhos. Mas parece que não há lugar para mim.

— Pedro, só peço uns meses até encontrar um quarto. Não quero incomodar… — tentei argumentar.

Ele desviou o olhar.

— Mãe, sabes como é a vida hoje em dia… Tudo caro, tudo apertado…

A Mariana nem saiu do quarto. Nunca gostou de mim. Sempre achou que eu mimava demasiado o Pedro. Talvez tenha razão.

No dia seguinte fui bater à porta da Inês. Ela abriu com um sorriso forçado.

— Mãe! Que surpresa…

Expliquei-lhe tudo, as lágrimas já a correrem-me pela cara.

— Oh mãe… Eu percebo, mas sabes que o Tiago está desempregado e os miúdos estão sempre doentes… Não temos espaço nem dinheiro para mais ninguém.

Fiquei ali parada no corredor, a ouvir os risos das crianças lá dentro. Os meus netos, que mal me conhecem porque cresci longe deles.

Acabei por arranjar um quarto numa pensão barata em Arroios. O cheiro a fritos entranha-se na roupa e as paredes são tão finas que ouço tudo o que se passa nos outros quartos. Às vezes acordo sobressaltada com gritos ou discussões de casais que nem conheço.

Todos os dias telefono aos meus filhos. Às vezes não atendem. Outras vezes dizem que estão ocupados. No Natal convidaram-me para jantar, mas senti-me como uma estranha à mesa. A Inês ofereceu-me um cachecol barato e o Pedro nem sequer me olhou nos olhos.

Uma noite, não aguentei mais e liguei à minha irmã Rosa, que sempre ficou em Portugal.

— Rosa, onde foi que errei? Dei tudo aos meus filhos… Agora não tenho ninguém.

Ela suspirou do outro lado da linha.

— Tu deste-lhes tudo menos tempo contigo, mana. Eles cresceram sem ti… Agora não sabem como te ter por perto.

Essas palavras ficaram-me gravadas na alma. Será que foi isso? Será que o amor se mede em presenças e não em sacrifícios?

Comecei a sair todos os dias para passear pelos bairros antigos de Lisboa. Sento-me nos bancos dos jardins e vejo as outras avós com os netos ao colo. Sinto inveja delas — inveja da simplicidade dos seus afectos, da rotina partilhada.

Um dia encontrei a Dona Amélia, uma vizinha antiga da minha mãe.

— Então menina Lurdes! Já voltou de França? — perguntou ela com aquele sorriso aberto.

Contei-lhe um pouco da minha história, sem entrar em detalhes.

— Sabe, às vezes penso que devia ter ficado cá… — confessei.

Ela pôs-me a mão no ombro:

— O coração de mãe nunca descansa, menina Lurdes. Mas às vezes os filhos não sabem ver o quanto custou cada gesto nosso.

Nessa noite escrevi uma carta aos meus filhos. Não para os culpar — já não tenho forças para isso — mas para lhes dizer que os amo e que lhes perdoo tudo. Disse-lhes que compreendo as suas vidas ocupadas, as suas prioridades diferentes das minhas. Pedi apenas que não me esqueçam completamente.

Passaram-se semanas sem resposta. A solidão tornou-se rotina: o café da manhã sozinha, as tardes longas a ver televisão sem som só para ouvir vozes humanas ao fundo.

Um domingo à tarde ouvi baterem à porta do quarto da pensão. Era o Pedro.

— Mãe… — disse ele, hesitante — Vim ver como estavas.

Sentei-me na beira da cama e olhei-o nos olhos pela primeira vez em meses.

— Estou viva, filho. Só isso já é muito.

Ele ficou ali parado, sem saber o que dizer. Depois sentou-se ao meu lado e chorou baixinho.

— Desculpa, mãe… Eu não sei ser filho de uma mãe como tu… Sempre estiveste longe… Eu não sei como te ter aqui agora.

Abracei-o com força. Senti o cheiro do seu cabelo como quando era pequeno.

— Eu também não sei ser mãe de filhos crescidos… Estamos todos a aprender.

Nesse dia fomos dar um passeio juntos pelo bairro onde ele cresceu. Falámos pouco mas foi suficiente para sentir que talvez ainda haja esperança de reconstruir alguma coisa entre nós.

Agora escrevo estas linhas sentada no mesmo quarto da pensão onde comecei esta nova vida. Não sei quanto tempo ainda terei ou se algum dia voltarei a ter uma casa minha ou um lugar no coração dos meus filhos.

Mas pergunto-me: será que valeu a pena todo este sacrifício? Será que o amor de mãe pode sobreviver à distância e ao tempo? E vocês — o que fariam no meu lugar?