Almoço a Crédito: Quando o Rui Me Ensinou Que a Confiança Tem Preço
— Preciso mesmo, João. Só até ao fim do mês, prometo — disse o Rui, com os olhos baixos, enquanto mexia nervosamente no bolso do casaco azul, já gasto pelo tempo. Estávamos na sala de descanso da fábrica, o cheiro a óleo e metal entranhado nas paredes, e eu sentia o peso do pedido dele como se fosse meu.
Olhei para ele, o meu melhor amigo desde os tempos da escola primária, e hesitei. Não era a primeira vez que o Rui me pedia dinheiro, mas nunca tinha sido assim, tão direto, tão urgente. O almoço dele, um simples prato de arroz de pato na cantina, já estava frio na bandeja. Senti um aperto no peito. “Se não posso confiar no Rui, em quem posso confiar?”, pensei.
— Claro, Rui. Não te preocupes — respondi, tentando sorrir, enquanto lhe passava uma nota de vinte euros por baixo da mesa. Ele agradeceu com um aperto de mão, mas os olhos dele não encontraram os meus. Naquele momento, não fazia ideia de que aquela nota ia custar-me muito mais do que dinheiro.
Os dias passaram e o Rui começou a evitar-me. Já não vinha beber café comigo ao intervalo, nem me esperava à porta do balneário. Notei que falava mais com o Paulo, um dos novos operários, e menos comigo. Uma tarde, ouvi-os a rir juntos no refeitório. Senti-me traído, mas tentei ignorar. “É só stress, ele vai pagar-me e tudo volta ao normal”, repeti para mim mesmo.
Mas o fim do mês chegou e nada. Uma sexta-feira, depois do turno da noite, criei coragem e abordei-o no parque de estacionamento.
— Rui, desculpa perguntar, mas… e o dinheiro do almoço?
Ele suspirou, olhou para o chão e murmurou:
— João, não tenho agora. Dá-me mais uns dias, sim?
O tom dele era frio, quase indiferente. Senti uma raiva a crescer dentro de mim, mas engoli em seco. Não queria fazer uma cena ali, à frente dos outros. Mas a partir desse dia, algo mudou entre nós. O Rui começou a chegar atrasado, a faltar ao trabalho sem avisar. Os colegas começaram a comentar, a desconfiar. “O que se passa com o Rui?”, perguntavam-me, como se eu tivesse a obrigação de saber.
Uma manhã, o chefe de produção chamou-me ao gabinete.
— João, preciso falar contigo sobre o Rui. Ele anda a falhar muito. Sabes de alguma coisa?
Senti-me dividido. Devia proteger o meu amigo ou ser honesto com o meu superior? Acabei por contar a verdade, mas omiti o empréstimo. Disse apenas que o Rui andava em baixo, talvez com problemas pessoais. O chefe suspirou e disse que ia falar com ele.
Nessa noite, não consegui dormir. A minha mulher, a Sofia, percebeu logo que algo não estava bem.
— O que se passa, João? — perguntou, sentando-se ao meu lado na cama.
— É o Rui. Pediu-me dinheiro, não me pagou, e agora anda estranho. Sinto que perdi o meu melhor amigo por causa de vinte euros.
Ela apertou-me a mão.
— Às vezes, as pessoas mostram quem realmente são quando precisam de ajuda. Não é culpa tua.
Mas eu sentia que era. Talvez tivesse sido demasiado duro, ou talvez nunca devesse ter emprestado o dinheiro. No dia seguinte, tentei falar com o Rui, mas ele evitou-me. Dias depois, soube que tinha sido despedido. Não apareceu mais na fábrica. Os colegas perguntavam por ele, mas ninguém sabia de nada.
Passaram-se semanas. Uma tarde, ao sair do supermercado, vi o Rui sentado num banco do jardim, de cabeça baixa. Hesitei, mas aproximei-me.
— Rui, estás bem?
Ele levantou os olhos, vermelhos e cansados.
— Desculpa, João. Estraguei tudo. Não era só o dinheiro, era tudo… Estava perdido, não sabia como pedir ajuda. Afastei-me porque tinha vergonha.
Sentei-me ao lado dele. Ficámos em silêncio durante minutos. O vento frio de março fazia as folhas dançarem à nossa volta.
— A amizade é mais do que dinheiro, Rui. Mas a confiança… essa é difícil de recuperar.
Ele assentiu, lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto.
— Sei que não mereço o teu perdão, mas precisava de ouvir isso.
Ficámos ali, dois amigos separados por vinte euros e por tudo o que não foi dito. Quando me levantei para ir embora, ele segurou-me no braço.
— Obrigado, João. Por tudo. Mesmo que nunca volte a ser como antes.
Caminhei para casa com o coração pesado. Às vezes, um pequeno gesto pode mudar tudo. Pergunto-me: quantas amizades já se perderam por causa de algo tão simples? E será que vale a pena arriscar a confiança por tão pouco?
E vocês, já passaram por algo assim? Até onde iriam por um amigo?