A Promoção Que Despedaçou a Minha Família: O Meu Nome é Inês Ferreira
— Não acredito, Inês! Vais mesmo faltar ao jantar do aniversário da tua filha outra vez? — gritou o Miguel, com a voz embargada, enquanto eu tentava encontrar as chaves do carro no meio da confusão da minha mala.
O relógio marcava 18h47. O trânsito de Lisboa já devia estar impossível e eu ainda tinha de passar pelo escritório para entregar o relatório final ao Dr. Álvaro. O coração batia-me descompassado, mas não era só pelo stress do trabalho. Era pela culpa. Pela raiva. Pela sensação de estar a perder tudo aquilo que, em tempos, me fazia feliz.
— Miguel, por favor, não comeces agora. Eu prometi à equipa que entregava isto hoje. É importante para a promoção — respondi, tentando manter a voz firme, mas sentindo as lágrimas a ameaçarem cair.
A Leonor, com apenas oito anos, apareceu à porta da sala, com os olhos grandes e tristes.
— Mãe, vais mesmo faltar outra vez?
O silêncio pesou. O Miguel virou-me as costas e foi buscar o casaco da Leonor.
— Vamos, filha. O bolo espera por nós — disse ele, sem sequer olhar para mim.
Fiquei ali parada, com a mala na mão e o coração nas mãos. O telefone vibrou: era a Marta, minha melhor amiga desde os tempos da faculdade.
«Inês, não te esqueças do jantar de sexta! Precisamos de ti.»
Senti um nó na garganta. Já nem me lembrava da última vez que tinha estado com as minhas amigas sem olhar para o relógio ou responder a e-mails durante a sobremesa.
No escritório, o ambiente era tenso. Todos sabiam que a promoção a diretora de operações estava entre mim e o Rui. O Rui era daqueles colegas simpáticos, sempre pronto a ajudar, mas eu sabia que ele também jogava duro quando era preciso.
— Inês, já viste o relatório do Rui? — perguntou a Joana, baixinho, enquanto me entregava um café.
Assenti. Tinha visto. Estava impecável. Melhor do que o meu.
O Dr. Álvaro chamou-nos ao gabinete. O Rui entrou primeiro; eu segui logo atrás.
— Bem, tenho de dizer que estou impressionado com ambos. Mas só há lugar para um diretor de operações — disse ele, olhando-nos nos olhos.
O Rui sorriu-me de lado. Eu forcei um sorriso de volta.
— Inês, o teu projeto com a filial do Porto foi um sucesso. Mas ouvi dizer que tens tido algumas dificuldades em conciliar os prazos…
Senti o sangue gelar-me nas veias. Quem é que lhe tinha dito isso? Olhei para o Rui. Ele desviou o olhar.
— Não se preocupe, Dr. Álvaro. Estou totalmente focada — menti.
Saí do gabinete com as mãos a tremer. No elevador, cruzei-me com a Joana.
— Ouvi dizer que o Rui falou do teu atraso no relatório da semana passada… — murmurou ela.
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Tinha confiado nele quando me pediu ajuda para aquele projeto há dois meses. E agora ele usava as minhas fraquezas contra mim?
Cheguei a casa tarde nessa noite. A Leonor já dormia. O Miguel estava sentado no sofá, com uma cerveja na mão e os olhos vermelhos.
— Isto não pode continuar assim, Inês — disse ele sem me olhar nos olhos. — A Leonor sente a tua falta. Eu também.
Sentei-me ao lado dele, mas havia um abismo entre nós.
— Eu só quero dar-vos uma vida melhor…
Ele riu-se, amargo.
— Uma vida melhor? Ou uma carreira melhor para ti?
As palavras dele ficaram a ecoar na minha cabeça durante dias. No trabalho, o ambiente ficou ainda mais pesado depois de descobrirem que eu tinha sido escolhida para liderar o novo projeto internacional. O Rui quase não me falava; as colegas olhavam-me de lado na copa.
Na sexta-feira do jantar com as amigas, cheguei atrasada mais uma vez. A Marta olhou para mim com aquele olhar misto de preocupação e desilusão.
— Inês… já não és a mesma. Nunca tens tempo para nada nem para ninguém.
Tentei rir aquilo para fora, mas ninguém se riu comigo.
— Achas mesmo que vale tudo por uma promoção? — perguntou a Ana, sempre direta.
Fiquei sem resposta. Olhei para as caras delas: todas tinham feito escolhas diferentes das minhas. Algumas tinham abdicado de carreiras para cuidar dos filhos; outras tinham encontrado equilíbrio de formas que eu nunca consegui entender.
No dia em que recebi finalmente a notícia da promoção, estava sozinha no gabinete. O Dr. Álvaro entrou com um sorriso largo e um contrato novo na mão.
— Parabéns, Inês! Conseguiste!
Sorri mecanicamente e apertei-lhe a mão. Mas por dentro sentia-me vazia.
Quando cheguei a casa para contar ao Miguel e à Leonor, encontrei apenas silêncio. O Miguel tinha saído com ela para passar o fim de semana na casa dos pais dele em Évora.
Sentei-me no chão da sala e chorei como há muito tempo não chorava.
Dias depois, tentei falar com o Miguel ao telefone.
— Preciso de tempo — disse ele apenas.
A Leonor recusava-se a falar comigo ao telefone.
No trabalho, todos esperavam que eu celebrasse. Mas eu só queria voltar atrás no tempo e abraçar a minha filha no dia do aniversário dela; queria rir-me com as minhas amigas sem sentir culpa; queria sentir o Miguel ao meu lado sem aquele vazio entre nós.
Passei noites em claro a pensar nas escolhas que fiz. Será que teria sido diferente se tivesse dito não àquela reunião? Se tivesse deixado o relatório para amanhã? Se tivesse escolhido estar presente?
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantos de nós sacrificam tudo por algo que talvez nunca nos preencha verdadeiramente? Vale mesmo a pena conquistar o mundo se perdemos quem mais amamos pelo caminho?
E vocês? Já sentiram este dilema entre carreira e família? O que fariam diferente se estivessem no meu lugar?