A Menina Que Esperava Pela Mãe: Uma História de Perda, Esperança e Novo Lar
— Leonor, despacha-te! — gritou a minha tia Rosa da cozinha, a voz carregada de impaciência. Eu estava sentada no chão do corredor, abraçada ao meu urso de peluche, tentando abafar o som das vozes adultas que se cruzavam pela casa. O cheiro a café queimado misturava-se com o perfume barato da minha mãe, que ainda pairava no ar, mesmo depois de ela ter saído há horas.
— Já vou… — murmurei, mas ninguém me ouviu. Na verdade, ninguém me ouvia há muito tempo. Desde aquela noite em que a polícia bateu à porta e levou a minha mãe para longe, tudo mudou. Tinha apenas sete anos e, de repente, o mundo deixou de fazer sentido.
Lembro-me do olhar vazio da minha mãe enquanto era levada. Eu gritava por ela, mas ela não olhava para trás. A tia Rosa ficou comigo naquela noite, mas não me abraçou. Limitou-se a arrumar as minhas coisas numa mala velha e disse:
— Vais ficar uns tempos com a avó Emília. A tua mãe precisa de resolver umas coisas.
Eu sabia que era mentira. Ouvi os adultos a sussurrar na cozinha: “Ela foi presa outra vez… Desta vez não volta tão cedo.” O meu coração apertou-se num nó impossível de desfazer.
Na casa da avó Emília, o tempo passava devagar. Ela era rígida, falava pouco e nunca sorria. Ouvia o rádio o dia todo e só me chamava para comer ou para ir à missa ao domingo. Eu sentava-me à janela, a olhar para a rua, à espera de ver a minha mãe aparecer ao fundo da estrada. Cada carro que passava fazia-me saltar do banco, mas nunca era ela.
As noites eram as piores. O silêncio era tão pesado que me custava respirar. Chorava baixinho para não incomodar a avó. O urso de peluche era o único amigo que me restava.
Um dia, uma assistente social apareceu lá em casa. Chamava-se Dona Teresa e tinha um sorriso triste.
— Leonor, vamos conversar um bocadinho? — perguntou ela, ajoelhando-se ao meu lado.
Olhei para ela desconfiada. — A minha mãe já pode voltar?
Ela hesitou antes de responder:
— Ainda não, querida. Mas vamos encontrar uma solução para ti.
Foi assim que fui parar ao Lar das Oliveiras, um edifício antigo pintado de amarelo desbotado nos arredores de Coimbra. O cheiro a lixívia misturava-se com o aroma das sopas que as cozinheiras faziam todos os dias. Havia outras crianças como eu: algumas órfãs, outras simplesmente esquecidas pelos pais.
No início, não falava com ninguém. Sentia-me invisível no meio do barulho dos corredores e das vozes das educadoras. À noite, ouvia as outras crianças a chorar baixinho nas suas camas. Era como se todos partilhássemos a mesma dor silenciosa.
Aos poucos, fui-me habituando à rotina do lar: acordar cedo, tomar banho em fila, comer sempre à mesma hora, estudar na sala comum. Mas nunca deixei de esperar pela minha mãe. Todos os domingos sentava-me junto ao portão, convencida de que ela viria buscar-me.
Um dia, recebi uma carta. Era da minha mãe. As palavras estavam escritas com letras trémulas:
“Leonor, perdoa-me por não estar contigo. Estou a tentar melhorar para poder voltar para ti. Amo-te muito. Nunca te esqueças disso.”
Li aquela carta vezes sem conta até as letras começarem a desaparecer do papel. Mas os meses passaram e ela nunca apareceu.
No lar, fiz amizade com o Tiago, um rapaz magro e traquina que adorava contar piadas para esconder a tristeza. Ele dizia sempre:
— Sabes, Leonor? Aqui ninguém é feliz de verdade. Mas se rirmos juntos, dói menos.
A amizade dele foi um bálsamo para mim. Partilhávamos segredos e sonhos sussurrados à noite, quando as luzes já estavam apagadas.
Certo dia, Dona Teresa voltou ao lar com um casal ao seu lado: o senhor António e a dona Margarida. Tinham um ar simpático e olharam para mim com ternura.
— Leonor, gostávamos muito de te conhecer — disse Dona Margarida com uma voz doce.
Fiquei nervosa. Não queria outra família; queria a minha mãe. Mas eles foram pacientes e visitaram-me várias vezes antes de me convidarem para passar um fim de semana em sua casa.
A casa deles era diferente de tudo o que eu conhecia: havia risos à mesa, cheiros de bolos acabados de fazer e música a tocar baixinho na sala. No início sentia-me deslocada, como se estivesse a trair a minha mãe só por gostar daquele lugar.
Na primeira noite lá, acordei sobressaltada com um pesadelo e comecei a chorar baixinho na cama improvisada do quarto de hóspedes. Dona Margarida entrou devagarinho e sentou-se ao meu lado.
— Queres falar sobre o sonho?
Abanei a cabeça e limpei as lágrimas com as costas da mão.
— Tenho medo que a minha mãe nunca volte…
Ela abraçou-me com força e sussurrou:
— Não tens de ter medo sozinha. Estamos aqui contigo.
Essas palavras ficaram comigo durante muito tempo.
Os meses passaram e fui ficando cada vez mais tempo com eles. Aos poucos fui chamando-lhes “tios”, depois “pais” — primeiro em segredo, só dentro da minha cabeça; depois em voz alta, quando percebi que o amor deles não era uma traição à memória da minha mãe.
Mas nem tudo foi fácil. Havia dias em que sentia uma raiva surda dentro de mim: raiva da minha mãe por me ter deixado, raiva dos tios por não serem ela, raiva do mundo inteiro por ser tão injusto.
Uma vez discuti com o tio António porque ele não me deixou sair sozinha à noite:
— Não és meu pai! Não tens o direito!
Ele ficou calado durante uns segundos e depois respondeu:
— Tens razão, Leonor. Não sou teu pai biológico. Mas amo-te como se fosses minha filha e só quero proteger-te.
Chorei muito nesse dia. Senti-me culpada por magoar quem só queria cuidar de mim.
O tempo foi curando algumas feridas, mas outras ficaram abertas durante anos. Nunca deixei de pensar na minha mãe: onde estaria? Estaria bem? Pensaria em mim?
Aos dezasseis anos recebi uma chamada inesperada do lar: a minha mãe queria ver-me.
O reencontro foi estranho e doloroso. Ela estava mais velha, cansada e cheia de remorsos nos olhos.
— Desculpa… — disse ela entre lágrimas — Desculpa por tudo o que te fiz passar.
Eu queria gritar-lhe tudo o que guardei durante anos: o medo, a solidão, a raiva… Mas só consegui abraçá-la em silêncio.
Depois desse dia percebi que podia perdoar sem esquecer; podia amar sem deixar de sentir falta; podia ser filha da minha mãe biológica e dos meus pais do coração ao mesmo tempo.
Hoje sou adulta e olho para trás com gratidão pelos que me acolheram quando mais precisei. Sei que muitas crianças continuam à espera — como eu esperei — por alguém que lhes dê amor sem condições.
Pergunto-me muitas vezes: quantas Leonores existem ainda hoje à espera à janela? E será que algum dia aprendemos mesmo a perdoar quem nos falhou?