A Menina Que Esperava a Mãe: A História de Ema e a Nova Família

— Mãe, vais mesmo voltar? — perguntei-lhe, com a voz trémula, enquanto ela me apertava a mão pela última vez à porta do Lar de Santo António, em Coimbra. O cheiro a desinfetante misturava-se com o perfume barato dela, e eu sentia o coração apertado, como se alguém o estivesse a espremer devagarinho.

Ela não respondeu. Olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas, mas não disse nada. Só me deu um beijo na testa e saiu. Fiquei ali, parada, a olhar para a porta fechada, com seis anos e uma mala pequena cheia de roupas velhas e brinquedos partidos. Foi nesse momento que percebi o que era ser deixada para trás.

Os dias no lar eram todos iguais. Ouvia os outros miúdos a chorar à noite, cada um com a sua história de abandono ou violência. Eu tentava ser forte, mas todas as noites perguntava à Dona Teresa, a educadora:

— Acha que a minha mãe volta amanhã?

Ela sorria com pena e dizia sempre:

— Talvez, Ema. Dorme bem.

Mas eu sabia que ela não acreditava nisso. Ninguém acreditava. Só eu.

O tempo foi passando. Fiz sete, depois oito anos. A cada aniversário, sentava-me junto à janela do dormitório, a olhar para o portão do lar, à espera de ver a minha mãe aparecer. Nunca apareceu. As outras crianças começaram a gozar comigo:

— A Ema ainda acredita em contos de fadas! — gritavam.

Eu fingia que não me importava, mas por dentro sentia-me cada vez mais sozinha. A única coisa que me dava algum conforto era o urso de peluche que a minha mãe me tinha dado no último Natal juntas. Chamava-lhe Tobias e falava com ele todas as noites:

— Achas que ela ainda se lembra de mim?

O Tobias nunca respondia, mas eu gostava de imaginar que sim.

Um dia, quando tinha nove anos, chamaram-me ao gabinete da diretora. Entrei devagarinho, com medo do que pudesse acontecer. Lá dentro estavam duas pessoas que nunca tinha visto: uma senhora loira de olhos gentis e um homem alto com um sorriso nervoso.

— Olá, Ema — disse a senhora. — Eu sou a Ana e este é o João. Viemos conhecer-te.

Olhei para eles desconfiada. Já tinha visto outras crianças serem levadas por famílias de acolhimento e depois devolvidas como se fossem brinquedos estragados. Não queria acreditar em promessas vazias.

A Ana ajoelhou-se ao meu lado e perguntou:

— Gostavas de passar uns dias connosco? Temos um cão chamado Max e uma casa com jardim.

Fiquei calada. Não sabia o que responder. Parte de mim queria fugir dali e esconder-se debaixo da cama. Outra parte queria tanto sentir um abraço verdadeiro outra vez…

Acabei por aceitar. No dia em que fui para casa deles, levei o Tobias comigo e prometi-lhe baixinho:

— Se isto correr mal, voltamos juntos para o lar.

Os primeiros dias foram estranhos. A Ana fazia panquecas ao pequeno-almoço e o João ensinou-me a andar de bicicleta sem rodinhas. O Max lambia-me as mãos sempre que eu chorava. Mas eu continuava desconfiada. Não desfazia a mala, não pendurava as roupas no armário. Tinha medo de gostar demasiado deles e depois ser devolvida outra vez.

Uma noite ouvi-os a discutir na cozinha:

— Ela não fala connosco! — dizia o João, frustrado.
— Temos de lhe dar tempo — respondia a Ana. — Imagina o que ela já passou…

Senti-me culpada por lhes causar problemas. No dia seguinte tentei sorrir mais, ajudar a pôr a mesa, brincar com o Max no jardim. Aos poucos comecei a sentir-me parte daquela casa.

Mas havia sempre um vazio dentro de mim. Às vezes sonhava com a minha mãe. Sonhava que ela vinha buscar-me e me levava para casa outra vez. Acordava sempre com lágrimas nos olhos.

Um domingo à tarde fomos ao parque da cidade. Vi uma mulher parecida com a minha mãe ao longe e corri atrás dela sem pensar. Quando me aproximei percebi que não era ela. Sentei-me num banco e chorei baixinho.

A Ana veio ter comigo e abraçou-me sem dizer nada. Ficámos assim muito tempo, até eu acalmar.

— Sabes, Ema — disse ela finalmente — às vezes as pessoas que amamos não conseguem ficar connosco, mesmo que nos amem muito.

Olhei para ela e perguntei:

— Achas que ela ainda pensa em mim?

A Ana sorriu tristemente:

— Tenho a certeza que sim.

A partir desse dia comecei a aceitar que talvez nunca mais visse a minha mãe. Mas também comecei a perceber que podia ser feliz ali, naquela casa cheia de cheiros novos e risos ao jantar.

Quando fiz dez anos, organizei uma festa com os meus novos amigos da escola. O João fez um bolo enorme com velas coloridas e a Ana pendurou balões por toda a sala. Pela primeira vez em muitos anos senti-me verdadeiramente em casa.

À noite escrevi uma carta à minha mãe:

“Mãe,
Ainda sinto muito a tua falta. Mas agora tenho uma família nova que gosta muito de mim. Espero que estejas bem onde estiveres.”

Guardei a carta na gaveta da mesinha de cabeceira, junto ao Tobias.

Os anos passaram depressa depois disso. Fui crescendo, aprendendo a confiar nas pessoas outra vez. A Ana ajudou-me nos trabalhos da escola, o João ensinou-me a nadar no rio Mondego e o Max acompanhou-me em todas as aventuras.

Mas nem tudo foi fácil. Houve dias em que discutíamos porque eu não queria contar-lhes certas coisas do meu passado. Houve noites em que chorava sozinha no quarto porque sentia saudades da minha mãe biológica ou porque tinha medo de perder aquela nova família também.

Uma vez ouvi os meus pais adotivos discutirem sobre dinheiro:

— Não sei se vamos conseguir pagar tudo… — dizia o João preocupado.
— Ela precisa de nós agora mais do que nunca — respondia a Ana determinada.

Senti-me um peso na vida deles e tentei ajudar mais em casa: lavava loiça, arrumava os quartos dos meus irmãos adotivos mais novos quando eles chegaram algum tempo depois.

A nossa família foi crescendo: primeiro veio o Miguel, depois a Inês — todos crianças vindas do mesmo lar onde eu tinha estado antes. Tornámo-nos uma família barulhenta e caótica mas cheia de amor improvisado.

Houve momentos difíceis: crises de ciúmes entre irmãos adotivos, perguntas dolorosas sobre as nossas origens durante os jantares familiares…

— Porque é que ninguém quis ficar connosco? — perguntava muitas vezes o Miguel.
Eu abraçava-o e dizia-lhe:
— Às vezes as pessoas não sabem amar como deviam… Mas nós temos uns aos outros agora.

Aos dezasseis anos recebi finalmente o apelido da família Silva no meu cartão de cidadão. Chorei nesse dia como nunca tinha chorado antes — não de tristeza mas de alívio por finalmente pertencer verdadeiramente a algum lado.

Hoje sou adulta e estudo Serviço Social na Universidade de Coimbra porque quero ajudar outras crianças como eu fui um dia. Ainda penso na minha mãe biológica às vezes — pergunto-me se está viva, se pensa em mim quando olha para o céu à noite…

Mas aprendi que família é quem fica quando todos os outros vão embora; quem te abraça nos dias maus e ri contigo nos bons; quem te ensina que mereces ser amada mesmo quando achas que não vales nada.

Às vezes pergunto-me: quantas crianças continuam hoje à espera à janela como eu esperei? Quantas famílias estão dispostas a abrir o coração para lhes dar uma segunda oportunidade? Talvez nunca saiba as respostas… Mas sei que cada abraço conta.