A Decisão da Minha Sogra: Entre o Amor e a Ruína
— Catarina, precisamos de falar. — A voz do Miguel soou tensa, quase como um sussurro carregado de medo. Eu estava a preparar o jantar, cortando cebolas com uma precisão quase mecânica, quando senti o peso das palavras dele a pairar sobre mim.
— O que foi agora? — perguntei, tentando esconder o cansaço na minha voz. Já sabia que vinha aí problema. Desde que a minha sogra começara a insinuar que não se sentia bem sozinha no apartamento dela, eu sentia um nó no estômago sempre que o Miguel queria conversar.
Ele hesitou, olhou para o chão e depois para mim, como se procurasse coragem no fundo dos meus olhos.
— A minha mãe decidiu dar o apartamento à Mariana. Vai mudar-se para cá… para nossa casa. — Disse isto de uma vez só, como quem arranca um penso rápido.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que quase podia cortá-lo com a faca que tinha na mão. Senti as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos, mas engoli em seco. Não podia chorar ali, não à frente dele.
— E tu concordaste com isso? — perguntei, tentando manter a voz firme.
— Catarina, ela é minha mãe… Não posso deixá-la sozinha. E a Mariana está grávida, precisa de espaço…
— E nós? Nós não precisamos de espaço? — O tom saiu mais alto do que eu queria. O nosso T2 já era pequeno para nós os dois e os miúdos. Agora íamos ser cinco adultos e duas crianças num espaço onde mal cabiam quatro pessoas.
O Miguel não respondeu. Limitou-se a encolher os ombros e saiu da cozinha. Fiquei ali, sozinha, com o cheiro da cebola a arder-me nos olhos e no coração.
Naquela noite, mal consegui dormir. Ouvia os miúdos a ressonar nos seus quartos minúsculos e imaginava a minha sogra a ocupar o sofá da sala, a reclamar do barulho, a criticar a forma como educo os meus filhos ou cozinho o arroz. Conhecia-a demasiado bem para saber que não ia ser fácil.
No dia seguinte, ela chegou com duas malas e um sorriso vitorioso nos lábios.
— Olá, Catarina! Que bom ver-te! — disse ela, abraçando-me como se fôssemos as melhores amigas do mundo.
Fingi um sorriso e ajudei-a a entrar com as malas. O Miguel estava nervoso, tentava agradar-lhe em tudo. Os miúdos ficaram excitados com a novidade, mas eu sabia que era só uma questão de tempo até começarem as discussões.
A primeira semana foi um inferno. A minha sogra criticava tudo: o pequeno-almoço era demasiado simples, as crianças faziam demasiado barulho, o Miguel não lhe dava atenção suficiente. Eu sentia-me uma estranha na minha própria casa.
Uma noite, depois de um jantar particularmente tenso em que ela implicou com o facto de eu ter feito bacalhau à Brás em vez de cozido à portuguesa, fechei-me na casa de banho e chorei em silêncio. Senti-me derrotada, impotente. O Miguel tentava acalmar-me, mas eu via nos olhos dele que também estava perdido.
As discussões entre nós começaram a aumentar. Pequenas coisas tornaram-se grandes batalhas: quem ficava com as crianças enquanto eu ia ao supermercado, quem limpava a casa depois do jantar, quem tinha direito ao comando da televisão. A minha sogra parecia alimentar-se do nosso conflito, sempre pronta para lançar mais lenha para a fogueira.
Uma tarde, ouvi-a ao telefone com a Mariana:
— Aqui está tudo um caos… A Catarina não sabe organizar nada! Se não fosse eu, isto já tinha ido tudo por água abaixo…
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Não bastava estar ali a invadir o nosso espaço; ainda me culpava por tudo o que corria mal.
O Miguel começou a chegar mais tarde do trabalho. Dizia que tinha reuniões ou que precisava de desanuviar com os colegas. Eu sabia que era mentira. Ele só queria fugir ao ambiente tóxico que se instalara em casa.
Os miúdos começaram a ter pesadelos. A Matilde acordava a chorar durante a noite e o Tomás fazia birras por tudo e por nada. Eu sentia-me cada vez mais sozinha, cada vez mais sufocada.
Um sábado de manhã, depois de mais uma discussão sobre quem ia limpar a casa de banho, perdi o controlo:
— Basta! Isto não é vida! — gritei, surpreendendo até a mim própria.
A minha sogra olhou para mim como se eu fosse louca.
— Catarina, tens de ter mais respeito! Esta casa é do meu filho!
— E eu? Não conto? Não tenho direito à minha paz?
O Miguel entrou na sala nesse momento e ficou parado à porta, sem saber o que fazer.
— Miguel, diz alguma coisa! — pedi-lhe, desesperada.
Ele olhou para mim, depois para a mãe. Vi-o hesitar. Finalmente disse:
— Mãe… talvez devesses pensar em ficar uns dias com a Mariana…
A minha sogra ficou lívida.
— Estás a pôr-me fora de casa por causa dela? — apontou para mim como se eu fosse uma intrusa.
O Miguel suspirou:
— Não é isso… Só precisamos de espaço para respirar.
Ela saiu da sala sem dizer mais nada. Eu sentei-me no sofá e chorei como há muito tempo não chorava.
Nos dias seguintes, o ambiente ficou ainda mais pesado. A minha sogra mal falava comigo; os miúdos andavam nervosos; o Miguel evitava estar em casa. Senti que estava à beira de perder tudo: o meu casamento, a minha família, a minha sanidade mental.
Foi então que decidi procurar ajuda. Falei com uma amiga psicóloga e comecei a ir às sessões dela. Aos poucos fui aprendendo a impor limites, a dizer não sem culpa. Comecei também a conversar mais abertamente com o Miguel sobre os meus sentimentos e medos.
Um dia, sentei-me com ele na varanda depois dos miúdos adormecerem.
— Miguel… Eu amo-te. Mas não posso continuar assim. Preciso de sentir que esta casa também é minha. Preciso do teu apoio.
Ele pegou na minha mão e olhou-me nos olhos:
— Desculpa… Nunca pensei que isto fosse ficar tão difícil. Vou falar com a minha mãe outra vez.
Dessa vez ele foi firme: explicou-lhe que precisava de procurar outra solução, talvez um lar assistido ou dividir o tempo entre as duas filhas. A minha sogra ficou magoada mas acabou por aceitar relutantemente.
Quando finalmente voltou para casa da Mariana durante uns tempos, senti um alívio imenso. O ambiente em casa melhorou; os miúdos voltaram a rir; eu e o Miguel começámos lentamente a reconstruir aquilo que tínhamos perdido.
Mas as feridas ficaram. Ainda hoje me pergunto: será possível perdoar quem nos magoa tanto em nome da família? Até onde devemos ir para agradar aos outros sem perdermos nós próprios?