A Casa Que Nos Separou: Um Retrato de Herança e Família

— Ou vendemos a casa, ou nunca mais falo contigo, Mariana. — As palavras da minha irmã, Inês, ecoaram pela sala vazia, batendo nas paredes como se fossem pedras lançadas com raiva. O cheiro a madeira antiga misturava-se com o perfume barato que ela usava desde os tempos de liceu. Eu estava sentada no sofá gasto, aquele mesmo onde o nosso pai se sentava para ver o Telejornal, e senti o peso do mundo a esmagar-me o peito.

Como é que chegámos aqui? Como é que duas irmãs que partilharam segredos de infância, risos e lágrimas, agora se olhavam como estranhas? A casa dos nossos pais em Sintra era mais do que tijolos e telhas; era o palco das nossas vidas. Mas, desde que eles morreram — primeiro o pai, depois a mãe, num espaço de dois anos — tudo mudou. A dor da perda ainda me queimava por dentro, mas agora era a raiva e o ressentimento que ardiam mais forte.

— Não percebes, Inês? Isto não é só uma casa. É tudo o que nos resta deles! — respondi, tentando controlar a voz que ameaçava falhar. — Se vendermos, perdemos tudo.

Ela bufou, cruzando os braços. — Perdemos? Mariana, tu é que não percebes! Eu não aguento mais vir aqui e sentir-me presa ao passado. Preciso desse dinheiro para começar de novo. Não quero ficar agarrada a memórias que só me fazem sofrer.

O silêncio caiu pesado entre nós. Lá fora, ouvia-se o chilrear dos pássaros e o som distante de uma criança a brincar na rua. Por um momento, lembrei-me de quando éramos nós as crianças, a correr pelo jardim, a inventar histórias sobre fadas e monstros escondidos na cave.

Mas agora os monstros eram reais. E estavam dentro de nós.

Os dias seguintes foram um tormento. Inês ligava-me todos os dias, insistindo na venda. Eu evitava atender. O meu marido, Rui, tentava ser mediador, mas acabava sempre por dizer: — Mariana, tens de pensar no futuro. Não podes viver agarrada ao passado para sempre.

Mas como podia eu explicar-lhe que aquele passado era tudo o que me restava? O trabalho no hospital era extenuante e solitário. Os meus filhos já tinham saído de casa. E eu sentia-me cada vez mais sozinha naquele mundo onde tudo parecia desmoronar-se.

Uma noite, sentei-me na cozinha da casa dos meus pais. O relógio antigo ainda funcionava, marcando cada segundo como se fosse uma contagem decrescente para algo terrível. Peguei numa chávena de chá e olhei para as fotografias na parede: eu e Inês pequenas, com os joelhos esfolados; os nossos pais a sorrir num piquenique em Cascais; o Natal em que recebemos a nossa primeira bicicleta.

As lágrimas caíram sem aviso. Senti-me ridícula por chorar por uma casa. Mas não era só isso. Era tudo o que ela representava: amor, segurança, raízes.

No dia seguinte, decidi confrontar Inês. Liguei-lhe e pedi-lhe para se encontrar comigo na casa.

Quando ela chegou, vinha acompanhada do namorado novo, Pedro — um tipo arrogante que nunca gostei. Ele entrou logo com ar de quem manda:

— Isto é simples: vocês vendem a casa, dividem o dinheiro e cada uma segue com a sua vida. Não percebo qual é o drama.

Olhei para Inês, esperando que ela dissesse algo em minha defesa. Mas ela ficou calada.

— Pedro, isto não te diz respeito — respondi friamente. — Esta casa é da nossa família.

Ele riu-se. — Família? Vocês nem conseguem falar sem discutir.

Foi aí que perdi a cabeça. Levantei-me tão depressa que quase derrubei a cadeira.

— Sai da minha casa! — gritei-lhe. — Já chega desta conversa!

Inês ficou pálida. Pedro saiu a resmungar qualquer coisa sobre “dramas femininos”.

Ficámos as duas sozinhas na sala. O silêncio era ensurdecedor.

— Mariana… — começou ela, mas eu interrompi-a.

— Porque é que queres tanto vender? É só pelo dinheiro?

Ela hesitou antes de responder:

— Não é só isso… Eu… Eu sinto-me sufocada aqui. Sempre fui “a filha mais nova”, “a que precisa de proteção”… Nunca tive espaço para ser eu própria. Preciso de cortar com isto tudo para conseguir respirar.

Sentei-me ao lado dela. Pela primeira vez em meses, vi a minha irmã vulnerável, quase como quando éramos miúdas e ela tinha medo do escuro.

— E se tentássemos encontrar outra solução? — sugeri baixinho. — Talvez possamos arrendar a casa por uns anos… Assim ninguém perde nada.

Ela abanou a cabeça.

— Não consigo esperar mais, Mariana. Preciso mesmo desse dinheiro agora.

O desespero dela era real. E eu percebi que estava a perder não só a casa, mas também a minha irmã.

Os dias passaram e as discussões continuaram. A família começou a tomar partidos: os tios diziam que devíamos vender; os primos achavam um disparate; até a vizinha do lado meteu-se ao barulho:

— Meninas, não deixem que isto vos afaste! Os vossos pais iam ficar tão tristes…

Mas as palavras dela só serviram para aumentar o peso da culpa.

Uma noite, recebi uma mensagem da Inês:

“Assinei o contrato com a imobiliária. Desculpa.”

Senti um vazio tão grande que quase não conseguia respirar. Fui até à casa pela última vez antes das visitas começarem. Passei por cada divisão como quem se despede de um velho amigo: toquei nas paredes, cheirei os lençóis guardados no armário da mãe, sentei-me no degrau onde costumávamos brincar às escondidas.

Quando saí pela porta da frente, fechei-a devagarinho, como quem fecha um capítulo da vida.

No dia da escritura, Inês apareceu com os olhos inchados de tanto chorar. Não dissemos nada uma à outra enquanto assinávamos os papéis. Quando tudo acabou, ela abraçou-me com força e sussurrou:

— Desculpa… Eu amo-te.

Eu também te amo, Inês. Mas será que algum dia vamos conseguir perdoar-nos por isto?

Agora olho para trás e pergunto-me: valeu a pena perder tanto para ganhar tão pouco? Quantas famílias já passaram pelo mesmo dilema? Será que alguma vez conseguimos realmente deixar o passado para trás?