A Amizade Traída: O Eco de Uma Confiança Quebrada
— Não acredito, Mariana! Como foste capaz? — gritei, com a voz embargada, sentindo o chão fugir-me dos pés.
Ela estava ali, parada à minha frente, com os olhos baixos e as mãos trémulas. O silêncio entre nós era tão pesado que quase me sufocava. O eco das minhas palavras parecia bater nas paredes do pequeno quarto onde crescemos juntas, onde partilhámos segredos, sonhos e medos. Nunca pensei que aquele espaço, outrora sagrado, se tornasse palco de uma traição tão profunda.
Tudo começou há três meses, quando perdi o emprego na pastelaria do senhor António. A crise apertava e o bairro de Benfica já não era o mesmo. Fui para casa com o coração apertado e liguei à Mariana, como sempre fazia quando precisava de colo. Ela ouviu-me, confortou-me e prometeu ajudar-me a encontrar uma solução. “Estamos juntas nisto, Sara. Sempre estivemos”, disse-me ela naquela noite, enquanto partilhávamos um pacote de bolachas Maria na sala da minha mãe.
O tempo foi passando e as contas começaram a acumular-se. A minha mãe, reformada e doente, dependia de mim para tudo. O meu pai tinha-nos deixado quando eu era pequena e nunca mais soube dele. Mariana era a minha família escolhida, a irmã que nunca tive. Foi ela quem me apresentou ao Rui, o namorado dela desde o secundário, e quem me incentivou a candidatar-me ao estágio na empresa onde trabalhava.
Foi aí que tudo começou a mudar. Fui chamada para uma entrevista na empresa de consultoria onde a Mariana era assistente administrativa. Estava nervosa, mas ela garantiu-me que ia correr bem. “O chefe gosta de pessoas despachadas como tu”, disse-me, piscando-me o olho. No dia da entrevista, vesti a minha melhor roupa — um vestido azul-escuro que tinha comprado nos saldos do Colombo — e fui cheia de esperança.
A entrevista correu melhor do que esperava. O senhor Duarte parecia interessado no meu percurso e fez várias perguntas sobre a minha experiência na pastelaria. Saí de lá com um sorriso tímido e liguei logo à Mariana. Ela não atendeu. Achei estranho, mas não liguei muito — talvez estivesse ocupada.
Dois dias depois, recebi um email da empresa: “Lamentamos informar que não foi selecionada para o estágio.” O mundo caiu-me em cima. Chorei sozinha no quarto, sem coragem para contar à minha mãe. Quando finalmente consegui falar com a Mariana, ela limitou-se a dizer: “Oh, Sara… Não fiques assim. Há-de aparecer outra coisa.” O tom dela pareceu-me distante, quase frio.
As semanas passaram e comecei a notar mudanças no comportamento da Mariana. Evitava os nossos encontros habituais no café da Dona Lurdes e respondia às minhas mensagens com monosílabos. Um dia, vi-a ao longe no parque com o Rui e outra rapariga — uma colega dela da empresa, a Inês — mas quando me aproximei, fingiu não me ver.
A gota de água foi quando soube pela vizinha do terceiro andar que a Mariana tinha sido promovida a coordenadora de equipa. Fiquei feliz por ela, mas não percebia porque é que me tinha afastado tanto. Decidi confrontá-la.
— Mariana, precisamos de falar — disse-lhe numa mensagem.
Encontrámo-nos no jardim onde costumávamos brincar em miúdas. Ela chegou atrasada e parecia nervosa.
— O que se passa contigo? Porque é que te afastaste? — perguntei, tentando controlar as lágrimas.
Ela hesitou antes de responder:
— Sara… Eu não queria que soubesses assim… Mas fui eu que disse ao senhor Duarte para não te contratar.
O mundo parou naquele instante. Senti uma dor aguda no peito, como se alguém me tivesse arrancado o coração sem anestesia.
— Porquê? — sussurrei, incapaz de acreditar no que ouvia.
— Eu… Tive medo que fosses melhor do que eu. Que ficasses com o meu lugar… E depois o Rui começou a dizer que tu eras demasiado ambiciosa… Eu deixei-me levar — confessou ela, com lágrimas nos olhos.
A raiva misturou-se com tristeza e incredulidade. Tudo aquilo por inveja? Por medo? A pessoa em quem mais confiava tinha destruído a única oportunidade que eu tinha de mudar de vida.
Voltei para casa em silêncio. A minha mãe percebeu logo que algo estava errado.
— O que foi, filha?
— Nada, mãe… Só estou cansada — menti, porque não queria preocupá-la ainda mais.
Nessa noite não dormi. Revivi cada momento da nossa amizade: as tardes passadas a estudar juntas, as confidências sobre os primeiros amores, as promessas de nunca nos abandonarmos. Senti-me vazia, traída e sozinha como nunca antes.
Nos dias seguintes tentei concentrar-me noutras coisas: enviei currículos para todo o lado, ajudei a minha mãe com as idas ao hospital e tentei ignorar as mensagens da Mariana. Mas ela não desistia:
— Desculpa, Sara! Eu errei! Dá-me outra oportunidade!
Como perdoar alguém que destruiu tudo aquilo em que acreditava? Como reconstruir uma amizade depois de uma traição tão vil?
O bairro inteiro parecia saber do sucedido. A Dona Lurdes olhava para mim com pena quando ia buscar pão; os vizinhos cochichavam quando passava. Até o Rui tentou falar comigo:
— Sara… A Mariana está arrependida. Ela não queria magoar-te assim.
Olhei-o nos olhos e respondi:
— Às vezes o arrependimento chega tarde demais.
A solidão tornou-se minha companheira diária. Passei a desconfiar de todos à minha volta — até da minha própria sombra. Comecei a questionar tudo: será que alguma vez fui realmente importante para alguém? Ou será que todos têm um preço?
Um dia, enquanto esperava pelo autocarro na Praça de Espanha para ir a mais uma entrevista sem esperança, vi uma rapariga sentada sozinha num banco do jardim. Chorava baixinho, tentando esconder as lágrimas dos transeuntes apressados. Sentei-me ao lado dela sem pensar duas vezes.
— Precisas de falar?
Ela olhou para mim surpresa e acenou afirmativamente com a cabeça. Contou-me que tinha acabado de ser traída pela melhor amiga — tal como eu.
Nesse momento percebi que não estava sozinha no meu sofrimento. Que há dores universais e feridas partilhadas por muitos corações anónimos nesta cidade grande e indiferente.
Hoje continuo sem saber se algum dia voltarei a confiar plenamente em alguém. Mas aprendi que a força está em levantar-me todos os dias e seguir em frente — mesmo quando tudo parece perdido.
E vocês? Já foram traídos por alguém em quem confiavam cegamente? Como conseguiram reconstruir-se depois disso? Será possível perdoar sem esquecer?