Estive a um passo de comprar a casa, mas a minha filha enlouqueceu – e tinha razão

— Mãe, não faças isso! — O grito da Mariana ecoou pelo corredor estreito do apartamento alugado, interrompendo o silêncio pesado da noite. Eu estava sentada à mesa da cozinha, com o contrato de promessa de compra e venda à minha frente, a caneta já na mão. O coração batia-me tão forte que quase não conseguia ouvir mais nada. — Mariana, por favor, não agora. Isto é importante para nós. — Tentei manter a voz calma, mas a minha filha percebeu logo a tensão.

Ela aproximou-se, os olhos grandes e brilhantes, cheios de lágrimas e raiva. — Não quero ir para aquela casa! Não quero! — A sua voz partiu-me o coração, mas eu sentia-me encurralada. Depois de anos a saltar de casa em casa, finalmente tinha encontrado um apartamento em Benfica, pequeno mas luminoso, com uma varanda onde ela podia brincar. Era a oportunidade de termos algo nosso, de deixar para trás os quartos alugados e as mudanças constantes.

— Mariana, já falámos sobre isto. Não podemos continuar aqui. O senhorio quer vender o apartamento, e não temos para onde ir. — Tentei explicar, mas ela abanou a cabeça, os cabelos castanhos a voar à volta do rosto. — Não percebes, mãe! Aquela casa não é boa! — gritou, e saiu a correr para o quarto, batendo com a porta.

Fiquei ali, sozinha, a olhar para os papéis. O telefone tocou. Era a minha mãe, a Dona Rosa, sempre pronta a dar conselhos, mesmo quando não eram pedidos. — Então, filha, já assinaste? — perguntou, sem rodeios. — Ainda não, mãe. A Mariana está… complicada. — Suspirei, sentindo-me mais velha do que os meus trinta e sete anos. — Não lhe dês ouvidos, Catarina. As crianças não percebem estas coisas. Tens de pensar no futuro dela. — A voz da minha mãe era dura, mas eu sabia que vinha de um lugar de preocupação. — Eu sei, mãe. Mas ela está mesmo perturbada. — Não deixes que ela te manipule. — E desligou, como sempre fazia, sem esperar resposta.

Naquela noite, não consegui dormir. Ouvi a Mariana a chorar baixinho no quarto ao lado. Senti-me dividida entre o desejo de lhe dar estabilidade e o medo de estar a cometer um erro. Lembrei-me de todas as vezes que a minha mãe me obrigou a aceitar decisões que eu não queria, e prometi a mim mesma que seria diferente com a minha filha. Mas agora, ali, sentia-me perdida.

No dia seguinte, levei a Mariana à escola. O caminho foi feito em silêncio, ela agarrada à mochila, eu a tentar encontrar as palavras certas. — Mariana, fala comigo. — Ela olhou para mim, os olhos vermelhos. — Não quero aquela casa, mãe. — Porquê? — perguntei, já sem paciência. — Não sei. Sinto que não é boa. — A resposta dela deixou-me sem chão. Como podia tomar uma decisão tão grande baseada num pressentimento de uma criança?

No trabalho, não conseguia concentrar-me. O meu chefe, o senhor António, chamou-me ao gabinete. — Catarina, está tudo bem? — perguntou, olhando-me por cima dos óculos. — Está, só estou cansada. — Ele assentiu, mas percebi que não acreditou. — Se precisares de sair mais cedo, avisa. — Agradeci, mas sabia que não podia dar-me a esse luxo. O dinheiro era contado, cada hora extra fazia diferença.

À hora de almoço, fui ver o apartamento mais uma vez. O agente imobiliário, o senhor Luís, estava à porta, sorridente. — Então, Catarina, pronta para assinar? — hesitou ao ver a minha expressão. — Tenho algumas dúvidas… — comecei, mas ele interrompeu-me. — Não se preocupe, é um excelente negócio. O prédio foi renovado há pouco tempo, a vizinhança é tranquila. — Olhei à volta. O prédio era antigo, mas parecia seguro. No entanto, algo me incomodava. O corredor cheirava a humidade, e ouvi vozes altas vindas de um dos apartamentos. — E os vizinhos? — perguntei. — Gente boa, famílias trabalhadoras. — respondeu, apressado.

Ao sair, cruzei-me com uma senhora idosa, a Dona Emília, que morava no rés-do-chão. — Vai mudar-se para cá? — perguntou, simpática. — Talvez. — respondi, hesitante. — Olhe, menina, isto aqui já foi melhor. Agora há muito barulho, e o senhor do terceiro anda metido em problemas. — Senti um frio na barriga. — Que tipo de problemas? — Ela olhou para os lados e sussurrou: — Polícia, drogas… Não sei ao certo, mas tenha cuidado. — Agradeci, sentindo o peso da decisão a aumentar.

No caminho para casa, liguei à minha amiga Inês. — Catarina, ouve a tua filha. Às vezes eles sentem coisas que nós ignoramos. — disse ela, sempre sensível. — Mas e se for só medo da mudança? — perguntei, desesperada. — E se não for? — respondeu ela. — Não tens de decidir já. — Suspirei, desejando que tudo fosse mais simples.

Nessa noite, sentei-me com a Mariana na cama dela. — Queres falar sobre o que sentes? — perguntei, acariciando-lhe o cabelo. Ela encolheu-se, mas acabou por falar. — Quando fomos lá, senti-me mal. O senhorio olhou para mim de uma maneira estranha. E ouvi gritos no prédio. — O meu coração apertou-se. — Porque não me disseste antes? — perguntei, sentindo-me culpada. — Pensei que não ias acreditar. — sussurrou.

Fiquei acordada até tarde, a pensar. Lembrei-me de todas as vezes que ignorei o meu próprio instinto, e das consequências que isso teve. No dia seguinte, fui falar com o senhor Luís. — Decidi não avançar com a compra. — disse, firme. Ele tentou convencer-me, mas não cedi. — É a decisão certa para a minha família. — afirmei, sentindo um alívio imediato.

Quando contei à Mariana, ela abraçou-me com força. — Obrigada, mãe. — sussurrou, e percebi que, pela primeira vez em muito tempo, ela se sentia ouvida. A minha mãe ficou furiosa. — Estás a desperdiçar uma oportunidade! — gritou ao telefone. — Prefiro perder uma casa do que perder a confiança da minha filha. — respondi, surpreendendo-me com a minha própria coragem.

Os dias seguintes foram difíceis. Continuei à procura de casa, com o dinheiro contado e o tempo a esgotar-se. Mas, pela primeira vez, sentia que estava a fazer o que era certo. A Mariana ajudava-me a procurar anúncios, e cada visita era uma aventura. Aprendemos a confiar uma na outra, a ouvir os nossos medos e desejos.

Finalmente, encontrámos um pequeno apartamento em Campo de Ourique. Não era perfeito, mas era seguro e acolhedor. A vizinhança era tranquila, e a escola ficava perto. Quando entrámos pela primeira vez, a Mariana sorriu. — Gosto deste, mãe. — disse, e eu soube que, desta vez, estava certa.

Agora, sento-me na varanda ao fim do dia, a ver a minha filha brincar com os novos amigos. Penso em tudo o que passámos, nas escolhas difíceis, nos medos e nas dúvidas. Pergunto-me quantas vezes ignoramos a voz dos nossos filhos, achando que sabemos sempre o que é melhor para eles. E se, afinal, eles virem o que nós não conseguimos ver?

Será que ouvimos realmente quem mais amamos? E vocês, já ignoraram o instinto de alguém próximo — e arrependeram-se depois?