O Meu Genro Mudou a Minha Filha Até ao Inimaginável: Nem ao Aniversário do Pai Veio

— Sofia, por favor, só te peço que venhas ao aniversário do teu pai. Ele sente tanto a tua falta… — a minha voz saiu trémula, quase suplicante, enquanto segurava o telefone com força, como se assim pudesse impedir que ela me escapasse ainda mais.

Do outro lado, a resposta foi fria, quase automática:

— Mãe, já te disse, o Miguel não gosta dessas reuniões de família. E eu… eu tenho outras prioridades agora. Não posso ir.

Senti um nó na garganta. O António, sentado ao meu lado, olhou-me com olhos cansados, cheios de tristeza. Ele não disse nada, mas o silêncio dele gritou mais alto do que qualquer palavra. A nossa filha, a nossa menina, aquela que sempre foi tão próxima de nós, agora parecia uma estranha. E tudo começou quando conheceu o Miguel.

Recordo-me do primeiro jantar em que o trouxemos cá a casa. O Miguel era educado, mas distante. Falava pouco, olhava muito para o telemóvel. Sofia, pelo contrário, estava nervosa, ansiosa para agradar. Achei estranho, mas tentei não dar importância. Afinal, os jovens de hoje são diferentes, pensei. Mas com o tempo, fui percebendo que não era só isso.

As visitas começaram a ser cada vez mais raras. Sofia já não vinha sozinha, e quando vinha, estava sempre apressada, a olhar para o relógio. O Miguel nunca se integrava, ficava sempre à parte, como se estivesse ali por obrigação. E Sofia… Sofia foi mudando. Deixou de rir das nossas piadas, de partilhar as suas preocupações, de pedir conselhos. Tornou-se distante, fria, quase irreconhecível.

Uma noite, depois de mais uma discussão, sentei-me com o António na sala, em silêncio. O relógio marcava quase meia-noite. Ele olhou para mim e disse:

— Achas que a perdemos?

As lágrimas correram-me pelo rosto. Não sabia o que responder. Senti-me impotente, como se tudo o que fizéssemos fosse em vão. Os amigos diziam-nos: “Ela agora tem a vida dela, é normal afastar-se.” Mas isto não era normal. Não era só o afastamento, era a transformação. Era como se o Miguel lhe tivesse lavado o cérebro, como se tivesse apagado tudo o que ela era antes.

Lembro-me de um domingo em que tentei falar com ela sobre isso. Convidei-a para almoçar, só nós as duas. Ela aceitou, mas chegou atrasada, com o olhar perdido.

— Sofia, o que se passa contigo? — perguntei, tentando não soar acusatória.

Ela suspirou, irritada:

— Nada, mãe. Só estou cansada. O Miguel acha que vocês não gostam dele, e eu não quero problemas.

— Não gostamos dele porque ele te mudou! Tu já não és a mesma, filha. Tens medo de dizer o que pensas, de fazer o que gostas…

Ela levantou-se abruptamente:

— Não tens o direito de julgar a minha vida! — gritou, com lágrimas nos olhos. — Eu amo o Miguel, e se vocês não conseguem aceitar isso, então talvez seja melhor afastarmo-nos de vez.

Fiquei ali, sentada, a olhar para a porta fechada. O som dos seus passos a afastarem-se ecoou dentro de mim como um trovão. Senti-me a pior mãe do mundo. Onde é que errei? O que podia ter feito diferente?

Os meses passaram, e a distância só aumentou. O António fazia anos, e eu insisti para que ela viesse. Liguei-lhe, mandei mensagens, até tentei falar com o Miguel. Ele respondeu-me de forma seca:

— A Sofia está ocupada. Não insista.

O António fez de conta que não se importava, mas vi-o a olhar para o telemóvel durante todo o jantar, à espera de uma mensagem, de um telefonema. Nada. Nem uma palavra.

Naquela noite, depois de todos os convidados irem embora, sentei-me na varanda, a olhar para o céu escuro. O António veio ter comigo, sentou-se ao meu lado e pegou-me na mão.

— Ela vai voltar, Maria. Um dia vai perceber o que perdeu.

Mas eu já não tinha esperança. A Sofia estava diferente. Não era só o afastamento, era a forma como falava connosco, como se tivéssemos feito algo de errado. O Miguel controlava tudo: as visitas, as conversas, até as redes sociais dela. Ela deixou de publicar fotos connosco, deixou de comentar as minhas mensagens. Era como se tivesse apagado a família da vida dela.

Comecei a ouvir rumores. Uma vizinha disse-me que o Miguel era muito ciumento, que não a deixava sair sozinha. Outra contou-me que ele controlava o dinheiro, que a Sofia já não tinha independência. O meu coração apertou-se ainda mais. Tentei falar com ela, mas ela negava tudo.

— Mãe, não inventes histórias. O Miguel é um bom marido. Eu estou feliz.

Mas eu via nos olhos dela que não era verdade. O brilho tinha desaparecido, o sorriso era forçado. Senti-me a afundar num poço sem fundo, sem saber como ajudá-la.

O António sugeriu que déssemos espaço, que não insistíssemos tanto. Mas como podia eu ficar de braços cruzados enquanto via a minha filha a desaparecer? Comecei a escrever-lhe cartas, a deixar mensagens de voz, a tentar de tudo para a trazer de volta. Mas ela respondia cada vez menos, até que um dia deixou de responder de todo.

O Natal chegou, e a ausência dela foi como uma ferida aberta. A mesa estava posta, mas o lugar dela ficou vazio. O António tentou animar-me, mas eu sabia que ele também sofria. Depois do jantar, sentei-me no quarto dela, a olhar para as fotografias antigas. Vi a Sofia em criança, a sorrir, a correr pelo jardim, a abraçar-nos com força. Onde estava essa menina agora?

Uma noite, não aguentei mais. Peguei no telefone e liguei-lhe, sem pensar nas consequências.

— Sofia, por favor, fala comigo. Diz-me o que se passa. Eu só quero ajudar-te.

Ela respondeu, mas a voz dela era quase irreconhecível:

— Mãe, deixa-me em paz. Eu já não sou a tua menina. Tenho a minha vida, a minha família. Aceita isso.

Desligou. Fiquei ali, com o telefone na mão, a chorar em silêncio. O António veio ter comigo, abraçou-me, mas eu sentia-me sozinha, perdida.

Os dias passaram, e a dor tornou-se rotina. Aprendi a viver com a ausência, com o silêncio. Mas nunca deixei de esperar, de sonhar com o dia em que a Sofia voltasse a ser a minha filha.

Hoje, escrevo estas palavras porque já não aguento mais guardar tudo cá dentro. Preciso de partilhar a minha dor, de ouvir outras mães, outros pais. Será que sou eu que estou errada? Será que devia aceitar esta nova Sofia, mesmo que isso signifique perder a filha que conheci? Ou devo continuar a lutar, a tentar trazê-la de volta?

Às vezes pergunto-me: até onde vai o amor de uma mãe? Será que algum dia a Sofia vai perceber o quanto nos magoou? E vocês, o que fariam no meu lugar?