“Já não tens mãe!” – Um drama familiar português entre dois fogos
— Não tens mãe, Mariana! — A voz da Dona Amélia ecoou pela cozinha, cortando o ar como uma faca. Eu estava de costas, a lavar a loiça do jantar, mas aquelas palavras fizeram-me gelar. O prato escorregou-me das mãos e partiu-se no lava-loiça. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O meu marido, Rui, olhou-me de lado, sem saber o que dizer. Eu sentia o coração a bater-me no peito, as lágrimas a quererem saltar, mas não podia mostrar fraqueza. Não ali, não à frente dela.
A minha mãe tinha morrido há três meses. Um cancro rápido, devastador. Ainda me lembro do cheiro a hospital, do toque frio da mão dela na minha, do último suspiro. Desde então, a casa do Rui tornou-se o meu refúgio e a minha prisão. A Dona Amélia nunca gostou de mim. Sempre me viu como uma intrusa, alguém que roubou o filho dela. Mas naquele momento, ao dizer-me aquilo, ela tirou-me o chão. Senti-me órfã duas vezes.
— Amélia, por favor… — O sogro, o senhor Joaquim, tentou intervir, mas ela fez-lhe um gesto brusco para se calar.
— Não te metas, Joaquim! A Mariana precisa de ouvir verdades. Aqui, nesta casa, não há espaço para fraquezas. — Ela virou-se para mim, os olhos duros. — Se queres ser parte desta família, tens de aprender a ser forte.
O Rui ficou calado. Sempre foi assim. Entre mim e a mãe, ele era um fantasma, alguém que pairava sem nunca tomar partido. Eu queria gritar, queria perguntar-lhe porque não me defendia, porque não dizia nada. Mas limitei-me a limpar as mãos ao pano da loiça e saí da cozinha, sentindo o peso do olhar dela nas minhas costas.
No meu quarto, sentei-me na cama e chorei. Chorei por mim, pela minha mãe, pela solidão que sentia naquela casa cheia de gente. O Rui entrou algum tempo depois, sentou-se ao meu lado e passou-me o braço pelos ombros.
— Sabes como é a minha mãe… — murmurou, como se isso desculpasse tudo.
— Não, Rui. Não sei. Não sei como é possível alguém ser tão cruel. — Olhei-o nos olhos, à procura de alguma centelha de compreensão. — Preciso de ti. Preciso que sejas meu marido, não só o filho dela.
Ele suspirou, desviando o olhar. — Isto vai passar. Ela só está nervosa por causa do jantar de domingo. Sabes como ela é com a família toda reunida…
O jantar de domingo. A tradição sagrada dos Moreira. Todos os irmãos do Rui, cunhadas, sobrinhos, tios, primos. Uma mesa comprida, cheia de comida, conversas cruzadas, risos forçados. E eu, sempre a sentir-me deslocada, como se estivesse a ocupar um lugar que não me pertencia.
No domingo, vesti o meu melhor vestido, prendi o cabelo como a Dona Amélia gostava. Preparei o bacalhau à Brás, a receita da minha mãe, na esperança de sentir um pouco dela ali comigo. Quando coloquei o tabuleiro na mesa, a Dona Amélia olhou para mim com desdém.
— Bacalhau à Brás? Isso é comida de pobre, Mariana. Aqui fazemos cabrito. — Os outros riram-se, cúmplices. Senti o rosto a arder de vergonha. O Rui não disse nada. O senhor Joaquim tentou sorrir-me, mas eu só queria desaparecer.
Durante o jantar, as conversas giravam à volta de negócios, de heranças, de quem ia ficar com a casa da aldeia. A certa altura, a cunhada, a Carla, perguntou-me:
— E tu, Mariana, já pensaste em ter filhos? — O silêncio caiu sobre a mesa. Eu engoli em seco.
— Ainda não… — comecei, mas a Dona Amélia interrompeu:
— Pois, claro. Primeiro tem de aprender a ser mulher, depois logo se vê se serve para ser mãe.
O Rui baixou a cabeça. Eu senti uma raiva a crescer dentro de mim, uma vontade de gritar, de atirar o prato ao chão. Mas limitei-me a sorrir, um sorriso falso, e continuei a comer em silêncio.
Naquela noite, depois de todos irem embora, fui até à varanda. O ar fresco da noite acalmou-me um pouco. O Rui veio ter comigo, encostou-se à ombreira da porta.
— Mariana, desculpa… — disse, quase num sussurro.
— Não chega, Rui. Não chega pedires desculpa. Preciso que faças alguma coisa. Preciso que escolhas. — A minha voz tremia, mas eu sabia que era agora ou nunca.
Ele ficou em silêncio, a olhar para o chão. Eu percebi, naquele momento, que estava sozinha. Que, por mais que tentasse, nunca seria aceite naquela família. E que o Rui nunca teria coragem de me defender.
Os dias seguintes foram um tormento. A Dona Amélia fazia questão de me humilhar em pequenas coisas: criticava a forma como arrumava a casa, como cozinhava, como me vestia. O Rui passava cada vez mais tempo fora, no trabalho ou com os amigos. Eu sentia-me cada vez mais invisível.
Uma tarde, decidi ir ao cemitério visitar a minha mãe. Sentei-me junto à campa, deixei as lágrimas correrem livremente.
— Mãe, sinto tanto a tua falta… — sussurrei. — Não sei o que fazer. Sinto-me perdida, sozinha. Preciso de ti.
Fiquei ali horas, a falar com ela, a pedir-lhe forças. Quando voltei para casa, encontrei a Dona Amélia à minha espera.
— Onde foste? — perguntou, desconfiada.
— Fui ver a minha mãe. — respondi, tentando manter a voz firme.
Ela bufou. — Isso não te vai trazer nada de volta. Tens de olhar para a frente, Mariana. Aqui, nesta casa, não há espaço para fraquezas.
Nesse momento, percebi que nunca iria agradar-lhe. Que, por mais que tentasse, nunca seria suficiente. E que, se quisesse sobreviver, teria de encontrar forças dentro de mim.
Nessa noite, escrevi uma carta ao Rui. Disse-lhe tudo o que sentia, tudo o que me magoava. Disse-lhe que precisava de espaço, de tempo para mim. No dia seguinte, fiz as malas e fui para casa da minha tia, em Setúbal.
Os primeiros dias foram difíceis. Sentia-me culpada, como se estivesse a abandonar o Rui. Mas, aos poucos, comecei a sentir-me mais leve. A minha tia acolheu-me de braços abertos, ouviu-me sem julgar. Comecei a trabalhar numa loja de flores, algo que sempre gostei. Aos poucos, fui reconstruindo a minha vida.
O Rui tentou ligar-me, mandou mensagens, mas eu precisava de tempo. Precisava de me reencontrar, de perceber quem era eu sem a sombra daquela família.
Meses depois, encontrei-o por acaso numa esplanada. Ele parecia mais velho, mais cansado.
— Mariana… — disse, hesitante. — Sinto a tua falta.
Olhei-o nos olhos. — Eu também senti a tua. Mas precisei de me afastar para perceber quem sou. Não posso viver entre dois fogos, Rui. Ou me escolhes, ou escolhes a tua mãe. Não há meio-termo.
Ele ficou em silêncio. Eu levantei-me, pronta para ir embora. Mas, antes de sair, olhei para trás.
— Sabes, Rui, às vezes é preciso perder tudo para nos encontrarmos. Eu perdi a minha mãe, perdi a tua família, quase te perdi a ti. Mas encontrei-me a mim mesma. E isso, ninguém me pode tirar.
Agora, pergunto-me: quantas mulheres vivem presas entre o amor e o dever, entre o que esperam delas e o que realmente querem? Quantas de nós têm coragem de escolher a si próprias? E tu, o que farias no meu lugar?