Quando a Minha Sogra Disse: “Está decidido. Vamos pedir o crédito.”
— Então, está decidido? Vamos pedir o crédito, não é? — A voz da minha sogra, Dona Lurdes, ecoou pela sala, cortando o ar como uma faca. O meu marido, Rui, olhou para mim de relance, mas desviou rapidamente o olhar, como se a minha opinião fosse apenas um detalhe incómodo. O meu coração batia descompassado, e as minhas mãos suavam. Senti-me pequena, invisível, como tantas vezes antes naquela casa que nunca foi minha.
— Mas… ninguém me perguntou nada — murmurei, tentando controlar a voz trémula. O silêncio caiu pesado. Dona Lurdes ergueu uma sobrancelha, com aquele ar de quem está habituada a decidir tudo.
— Oh, Maria, tu sabes que isto é para o bem de todos. O Rui já concordou. Não compliques — disse ela, pousando a chávena de chá com força na mesa.
O Rui não disse nada. Limitou-se a olhar para o telemóvel, como se de repente tivesse surgido uma mensagem urgente. Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim. Quantas vezes já tinha engolido em seco, quantas vezes já tinha deixado passar? Desde que casei com o Rui, há três anos, que vivo nesta casa com ele e os pais dele. Sempre me disseram que era só até nos estabilizarmos, até conseguirmos juntar dinheiro para a nossa casa. Mas o tempo foi passando, e as promessas foram ficando pelo caminho.
No início, tentei adaptar-me. A Dona Lurdes era daquelas mulheres que gosta de controlar tudo: o que se come ao jantar, a cor das toalhas de banho, até a forma como dobro a roupa. O Sr. António, o sogro, era mais calado, mas também nunca me defendeu. O Rui… O Rui era o filho perfeito, sempre a evitar conflitos, sempre a dizer-me para ter paciência.
Mas a paciência tem limites. E naquele dia, quando percebi que iam pedir um crédito para remodelar a casa — a casa deles, não a minha — e que eu nem sequer fui consultada, senti-me traída. Não era só uma questão de dinheiro. Era uma questão de respeito, de dignidade. Eu trabalhava, contribuía para as despesas, mas a minha voz não contava.
— Rui, podemos falar um bocadinho? — pedi, já com a voz embargada.
Ele levantou-se, finalmente, e fomos para o nosso quarto — ou melhor, o quarto que nos deixavam usar. Fechei a porta e encostei-me a ela, sentindo as lágrimas a quererem cair.
— Rui, isto não está certo. Não podem decidir uma coisa destas sem mim. Eu também vivo aqui, também ajudo! — disse, tentando não gritar.
Ele suspirou, cansado.
— Maria, é só um crédito. A minha mãe quer remodelar a cozinha, pôr janelas novas… Vai ser melhor para todos. Não compliques.
— Não compliques? Rui, tu percebes o que isto significa? Eles vão ficar com uma dívida enorme, e se alguma coisa correr mal? E se um dia quisermos sair daqui? Achas que vão deixar? — perguntei, a voz a tremer.
Ele encolheu os ombros.
— Não penses nisso agora. Vamos ver como corre. A minha mãe sabe o que faz.
Foi nesse momento que percebi que estava sozinha. Que o Rui nunca ia pôr-me em primeiro lugar, nunca ia enfrentar a mãe por mim. Senti uma dor funda, como se uma parte de mim se partisse. Passei a noite em claro, a olhar para o teto, a pensar na minha vida. Lembrei-me da minha mãe, da nossa casa pequena mas cheia de amor. Lembrei-me de como ela sempre me disse para nunca aceitar menos do que mereço.
Na manhã seguinte, tomei uma decisão. Levantei-me cedo, antes de todos, e comecei a arrumar as minhas coisas. Cada peça de roupa que dobrava era uma memória, uma esperança desfeita. O Rui entrou no quarto, ainda meio a dormir.
— O que estás a fazer? — perguntou, confuso.
— Vou embora, Rui. Vou para casa da minha mãe. Não aguento mais isto. Não sou invisível. Não sou um móvel nesta casa — disse, sentindo as lágrimas a correrem-me pelo rosto.
Ele ficou parado, sem saber o que dizer. A Dona Lurdes apareceu à porta, com o ar indignado de sempre.
— Vais fugir agora? Achas que isso resolve alguma coisa? — perguntou, cruzando os braços.
— Não estou a fugir. Estou a escolher-me a mim. Pela primeira vez em muito tempo — respondi, tentando manter a voz firme.
O Rui tentou convencer-me a ficar. Disse que eu estava a exagerar, que era só uma fase. Mas eu já não conseguia ouvir mais desculpas. Peguei nas malas e saí. O Sr. António nem apareceu para se despedir.
A viagem de comboio até casa da minha mãe pareceu interminável. Olhei pela janela, vi as casas a passar, cada uma com a sua história. Perguntei-me quantas mulheres como eu existiriam, presas em casas que não são suas, caladas para não criar ondas.
A minha mãe recebeu-me de braços abertos. Chorámos as duas, abraçadas na cozinha. Ela não fez perguntas, só me preparou um chá quente e ficou comigo em silêncio. Senti-me finalmente em casa, mesmo que fosse apenas por uns dias.
Os dias seguintes foram difíceis. O Rui ligava-me todos os dias, a pedir para voltar. A Dona Lurdes mandou-me mensagens a dizer que estava a destruir a família, que era egoísta. Até o Sr. António, que nunca falava, mandou um recado pela vizinha: “A Maria sempre foi complicada.”
No trabalho, tentei manter a normalidade, mas os colegas perceberam que algo não estava bem. A Ana, minha amiga de infância, foi a primeira a perguntar.
— Maria, o que se passa? Estás tão em baixo…
Contei-lhe tudo, entre lágrimas e soluços. Ela ouviu-me, sem julgar, e disse-me aquilo que eu precisava de ouvir:
— Fizeste bem. Ninguém merece ser tratada assim. Tu vales muito mais.
Comecei a procurar casa. Não queria depender da minha mãe para sempre. Cada anúncio que via era um misto de esperança e medo. Os preços estavam altos, o salário não dava para muito, mas eu sentia-me mais livre do que nunca. Pela primeira vez, a minha vida estava nas minhas mãos.
O Rui apareceu em casa da minha mãe uma semana depois. Bateu à porta, com um ramo de flores na mão e um ar perdido.
— Maria, por favor, volta. A minha mãe está disposta a falar, podemos resolver isto juntos.
Olhei para ele, para aquele homem que eu amava, mas que nunca me defendeu. Senti pena, mas também raiva.
— Rui, eu não quero mais viver assim. Quero uma vida minha, uma casa minha, decisões minhas. Não quero ser espectadora da minha própria vida.
Ele tentou argumentar, prometeu mudar, mas eu já não acreditava. Sabia que, se voltasse, tudo ia ser igual. A Dona Lurdes nunca ia mudar. O Rui nunca ia crescer.
Os meses passaram. Consegui arrendar um pequeno T1 nos arredores de Lisboa. Era modesto, mas era meu. Decorei-o à minha maneira, com as cores que gosto, com as minhas plantas, com as minhas fotografias. A minha mãe ajudou-me a montar os móveis, a Ana trouxe-me um tapete colorido. Senti-me finalmente em casa.
O Rui continuou a ligar, mas com o tempo foi desistindo. Ouvi dizer que a Dona Lurdes conseguiu o crédito, que remodelaram a casa toda. Mas eu já não fazia parte daquela história.
Às vezes, à noite, deito-me na minha cama e penso em tudo o que perdi. Mas penso ainda mais em tudo o que ganhei: a minha liberdade, a minha voz, o meu respeito próprio.
Será que fiz bem em escolher-me a mim? Quantas mulheres continuam a viver caladas, à espera que alguém as veja? E tu, o que farias no meu lugar?