Nimaš mais mãe, gritou a minha sogra: Drama familiar entre dois fogos
— Não tens mais mãe! — gritou a minha sogra, Dona Lurdes, com uma voz tão fria que me gelou o sangue. Estávamos na cozinha dela, o cheiro a café queimado misturava-se com a tensão no ar. O Pedro, o meu filho de oito anos, olhava para mim com olhos arregalados, sem perceber o que se passava. Eu sentia o coração a bater tão forte que quase não conseguia ouvir mais nada.
— Dona Lurdes, por favor… — tentei sussurrar, mas a minha voz saiu trémula, quase inaudível. Ela virou-me as costas, limpando as mãos ao avental, como se quisesse apagar a minha presença da casa dela.
A minha mãe tinha morrido há três meses. O luto ainda me pesava nos ombros, e cada canto da minha casa parecia ecoar a sua ausência. O meu marido, António, tentava ajudar, mas estava sempre ausente, preso ao trabalho e às preocupações dele. Eu sentia-me sozinha, perdida entre a dor da perda e a necessidade de ser forte para o Pedro.
— A tua mãe nunca soube educar-te, por isso é que agora estás assim, fraca — continuou Dona Lurdes, sem sequer olhar para mim. — Aqui em casa, faz-se como eu digo. Não quero mais ouvir falar da tua mãe.
Senti as lágrimas a quererem cair, mas engoli-as. Não podia chorar ali, não à frente dela. O Pedro agarrou-me a mão, apertando com força, como se quisesse proteger-me. Olhei para ele e sorri, tentando esconder o desespero.
— Mamã, vamos para casa? — sussurrou ele, baixinho.
— Já vamos, querido — respondi, tentando soar calma.
O António entrou na cozinha nesse momento, com o telemóvel na mão, distraído. Olhou para nós, depois para a mãe dele, e percebeu logo que algo não estava bem.
— O que se passa aqui? — perguntou, franzindo o sobrolho.
— Nada, filho. Só estava a explicar à tua mulher como é que as coisas funcionam nesta casa — disse Dona Lurdes, com um sorriso falso.
— Mãe, por favor… — tentei intervir, mas o António interrompeu-me.
— Não comecem outra vez. Já chega de discussões — disse ele, exasperado. — Temos de pensar no Pedro.
Saímos dali pouco depois, em silêncio. No carro, o Pedro adormeceu no banco de trás, exausto. O António conduzia sem dizer uma palavra, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. Eu olhava pela janela, as lágrimas finalmente a escorrerem-me pelo rosto.
Em casa, o António foi direto para o escritório. Eu fiquei na cozinha, a olhar para a fotografia da minha mãe na parede. Senti uma saudade tão forte que me doía o peito. Lembrei-me de quando era pequena e ela me embalava nos braços, prometendo que tudo ia correr bem. Agora, sentia-me órfã, não só da minha mãe, mas também da família que julgava ter construído.
Os dias seguintes foram um tormento. A Dona Lurdes ligava todos os dias, a controlar tudo: o que o Pedro comia, como se vestia, se fazia os trabalhos de casa. O António, cada vez mais ausente, dizia-me para ter paciência, que era só uma fase. Mas eu sentia-me cada vez mais sufocada.
Uma noite, depois de deitar o Pedro, sentei-me no sofá com o António.
— António, não aguento mais. A tua mãe trata-me como se eu não fosse ninguém. Sinto-me sozinha, perdida… — confessei, a voz embargada.
Ele suspirou, cansado.
— A minha mãe sempre foi assim. Tens de aprender a lidar com ela. Não podemos cortar relações, ela é a avó do Pedro.
— Mas e eu? Não contas comigo? Não vês que estou a sofrer?
Ele ficou em silêncio, olhando para a televisão desligada. Senti-me invisível.
Na escola, o Pedro começou a ter problemas. A professora chamou-me para uma reunião.
— O Pedro está muito calado, parece triste. Houve alguma mudança em casa? — perguntou ela, com um olhar preocupado.
Senti-me envergonhada. Não queria que o meu filho sofresse por causa dos nossos problemas. Prometi a mim mesma que ia tentar ser mais forte, por ele.
No fim de semana seguinte, fomos almoçar a casa da Dona Lurdes. O ambiente estava tenso. Durante a refeição, ela não perdeu uma oportunidade para me criticar.
— O Pedro está tão magro. Não lhe dás de comer? — perguntou, olhando-me de cima a baixo.
— Ele come bem, Dona Lurdes. Está saudável — respondi, tentando manter a calma.
— No meu tempo, as mães sabiam cuidar dos filhos. Agora… — abanou a cabeça, suspirando dramaticamente.
O António não disse nada. O Pedro olhava para o prato, em silêncio.
Depois do almoço, fui à varanda apanhar ar. A Dona Lurdes veio atrás de mim.
— Olha, menina, vou ser clara: enquanto viveres nesta família, fazes o que eu digo. Não quero cá modernices. E esquece a tua mãe. Aqui, mando eu.
Senti uma raiva a crescer dentro de mim. Pela primeira vez, olhei-a nos olhos e respondi:
— A minha mãe pode já não estar cá, mas ensinou-me a ser forte. E eu não vou deixar que me trate assim. O Pedro precisa de uma mãe feliz, não de uma sombra.
Ela ficou sem palavras, surpreendida com a minha ousadia. Voltei para dentro, o coração a bater descompassado.
Nessa noite, falei com o António.
— Ou a tua mãe aprende a respeitar-me, ou eu vou embora. Não posso continuar assim.
Ele ficou em silêncio durante muito tempo. Finalmente, disse:
— Eu amo-te, mas não sei viver sem a minha mãe. Ela sempre foi tudo para mim.
— E eu? — perguntei, com lágrimas nos olhos. — Eu sou tua mulher, a mãe do teu filho. Não mereço o teu apoio?
Ele não respondeu. Fui para o quarto, fechei a porta e chorei até adormecer.
Os dias passaram, cada vez mais pesados. O Pedro começou a perguntar pela avó materna. Eu tentava explicar-lhe, mas ele não compreendia a morte, nem a ausência. Sentia-me a falhar como mãe, como mulher, como pessoa.
Um dia, depois de mais uma discussão com o António, tomei uma decisão. Arrumei algumas roupas, peguei no Pedro e fui para casa do meu pai, em Setúbal. Ele recebeu-nos de braços abertos, emocionado por finalmente ter companhia.
— Filha, devias ter vindo mais cedo. Aqui estás em casa — disse ele, abraçando-me.
Senti um alívio imenso. Pela primeira vez em meses, consegui dormir em paz.
O António ligou-me várias vezes, mas eu precisava de tempo. Queria pensar, respirar, reencontrar-me. O Pedro começou a sorrir de novo, a brincar com os primos, a ser criança.
A Dona Lurdes, claro, não ficou calada. Ligou-me, insultou-me, disse que eu era ingrata, que estava a destruir a família. Mas eu já não tinha medo. Pela primeira vez, sentia-me dona de mim mesma.
Passaram-se semanas. O António veio ter comigo, pediu desculpa, disse que queria tentar de novo, mas que não sabia como lidar com a mãe dele. Eu disse-lhe que só voltava se ele me apoiasse, se pusesse a nossa família em primeiro lugar.
Ainda estamos a tentar. Não é fácil. A Dona Lurdes continua a ser ela própria, mas agora já não tem o mesmo poder sobre mim. Aprendi a impor limites, a defender o meu espaço, a cuidar de mim.
Às vezes, olho para o Pedro a brincar e pergunto-me: será que fiz o certo? Será que algum dia vou conseguir perdoar a Dona Lurdes? Ou será que, no fundo, somos todos vítimas das nossas próprias dores?
E vocês, o que fariam no meu lugar? Até onde iriam para proteger a vossa felicidade e a dos vossos filhos?