No Limiar dos Cinquenta: Deixo a Minha Mulher Por Um Amor Que Nunca Morreu
— Vais mesmo fazer isto, Miguel? — A voz da Teresa tremia, os olhos húmidos de raiva e incredulidade. O relógio da cozinha marcava 23h47. Faltavam treze minutos para o meu aniversário e eu estava prestes a destruir trinta anos de casamento.
Olhei para ela, para as rugas que lhe marcavam o rosto, para as mãos que tantas vezes seguraram as minhas. Senti um nó na garganta. “Não é justo”, pensei. “Não é justo para ela, nem para mim.” Mas há injustiças que se arrastam uma vida inteira e outras que explodem numa noite só.
— Teresa, eu… — tentei começar, mas as palavras fugiam-me. Como explicar que não era por falta de amor, mas por excesso dele? Não por ela, mas por outra. Por alguém que nunca saiu verdadeiramente de mim.
Ela levantou-se da mesa com um gesto brusco, a cadeira arrastando-se no soalho. — Não digas nada. Não quero ouvir desculpas. — E saiu da cozinha, deixando-me sozinho com o bolo de aniversário que ela tinha comprado, já com as velas espetadas.
Fiquei ali sentado, a olhar para o vazio. Oiço os passos dela no corredor, a porta do quarto a fechar-se com força. O silêncio da casa pesa-me nos ombros como um casaco molhado. Penso nos meus filhos: o João, já casado e com filhos; a Sofia, ainda em casa, a estudar para os exames da faculdade. Como lhes vou explicar isto? Como lhes vou dizer que o pai deles está a abandonar tudo por um amor antigo?
A verdade é que nunca deixei de pensar na Ana. Conhecemo-nos no liceu em Coimbra, quando tudo era possível e os sonhos pareciam caber num bolso. Fomos namorados durante quatro anos, até que a vida nos separou: ela foi estudar para Lisboa, eu fiquei em Coimbra por causa do meu pai doente. Prometemos esperar um pelo outro, mas a distância e o tempo foram cruéis. Ela conheceu outro homem, casou-se cedo. Eu refugiei-me na Teresa, que sempre foi boa para mim, sempre paciente.
Mas nunca esqueci a Ana. Durante anos trocámos cartas esporádicas, depois mensagens no Facebook. Sempre com aquela distância respeitosa de quem sabe que já não pode ter o que perdeu. Até ao ano passado, quando nos reencontrámos por acaso num congresso em Lisboa. Bastou um olhar para percebermos que nada tinha mudado.
— Miguel — disse ela nesse dia —, achas que ainda faz sentido sonharmos?
Naquela noite não dormi. Senti-me um adolescente outra vez: ansioso, inquieto, cheio de esperança e medo ao mesmo tempo. Nos meses seguintes encontrámo-nos às escondidas: cafés discretos em cidades vizinhas, passeios à beira-rio onde ninguém nos conhecia. Falávamos do passado e do futuro como se o presente fosse apenas um intervalo.
Mas agora era real. Agora era definitivo.
Na manhã seguinte ao meu aniversário, acordei com uma mensagem do João: “Pai, a mãe ligou-me a chorar. O que se passa?” Senti uma pontada no peito. Tinha prometido nunca magoar os meus filhos e agora era o vilão da história deles.
Respondi-lhe: “João, precisamos de falar pessoalmente.” Ele apareceu em minha casa duas horas depois, com o rosto fechado e os punhos cerrados.
— Vais mesmo deixar a mãe? Porquê? Há outra mulher?
Olhei-o nos olhos e vi ali o menino que levei ao futebol aos domingos, o adolescente rebelde que me desafiava em tudo. — Há outra mulher — admiti — mas não é uma aventura. É alguém que sempre amei.
Ele abanou a cabeça, furioso. — E nós? E a mãe? Vais atirar tudo fora por uma paixão antiga?
— Não é só paixão, João. É amor. Um amor que nunca morreu.
Ele saiu sem me abraçar.
Nos dias seguintes vivi num limbo: metade das minhas coisas ainda na casa onde vivi trinta anos; metade do meu coração ainda preso à família que construí; metade da minha alma já entregue à Ana. A Teresa evitava-me sempre que podia; a Sofia trancava-se no quarto e chorava baixinho à noite.
A minha mãe ligou-me: — Miguel, tu enlouqueceste? Aos cinquenta anos vais destruir tudo?
— Mãe, eu preciso disto para viver — respondi-lhe com voz embargada.
— E nós? E os teus netos? Pensaste neles?
Pensei em todos eles. Pensei em cada Natal à mesa grande da casa dos meus pais; nas férias em Vila Nova de Milfontes; nas discussões sobre política ao domingo à tarde; nos risos e nas zangas e nos silêncios cúmplices de quem partilha uma vida inteira.
Mas também pensei em mim. No miúdo sonhador que fui antes de me tornar apenas marido e pai. No homem que sempre quis mais do que aquilo que tinha coragem de pedir.
Quando finalmente contei à Ana que tinha tomado a decisão, ela chorou ao telefone.
— Miguel… tens a certeza?
— Tenho. Pela primeira vez na vida sinto-me inteiro.
Marcámos encontro num pequeno hotel em Sintra. Quando entrei no quarto e a vi à janela, soube que tudo valia a pena — mesmo a dor, mesmo a culpa.
Mas nada é simples quando se tem cinquenta anos e uma família desfeita atrás de si.
O João deixou de me falar durante meses. A Sofia só me mandava mensagens curtas: “Preciso de dinheiro para os livros.” A Teresa pediu o divórcio sem olhar para mim no tribunal.
Os meus amigos dividiram-se: alguns achavam-me corajoso; outros diziam que eu era egoísta e imaturo.
A Ana também tinha os seus fantasmas: um casamento falhado atrás de si, uma filha adulta que não aceitava ver a mãe apaixonada como uma adolescente.
Houve noites em que acordei suado de ansiedade: “E se tudo isto for um erro? E se perder tudo e não ganhar nada?”
Mas depois olhava para Ana a dormir ao meu lado e sentia paz pela primeira vez em décadas.
Um domingo à tarde fui visitar o João e os meus netos. Ele abriu-me a porta com ar desconfiado.
— Vim ver-vos — disse-lhe simplesmente.
Ele hesitou antes de me deixar entrar. Sentámo-nos na sala enquanto as crianças brincavam no tapete.
— Ainda estás com ela? — perguntou ele sem rodeios.
— Estou. E estou feliz.
Ele suspirou fundo. — Não sei se algum dia vou conseguir perdoar-te pelo que fizeste à mãe… Mas és meu pai.
Senti as lágrimas nos olhos. — Só quero que saibas que nunca deixei de vos amar.
Ele assentiu devagar. — Eu sei… Só preciso de tempo.
Saí dali mais leve, mas também mais consciente do preço das minhas escolhas.
Hoje vivo com Ana num pequeno apartamento em Lisboa. Não temos grandes luxos nem planos grandiosos — só o desejo de aproveitar cada dia como se fosse único. Às vezes jantamos sozinhos à luz das velas; outras vezes caminhamos juntos pela cidade como dois miúdos apaixonados.
A saudade dos meus filhos nunca desaparece completamente; a culpa também não. Mas aprendi que viver é escolher — e aceitar as consequências dessas escolhas.
Pergunto-me muitas vezes: teria sido mais fácil ficar onde estava? Talvez sim. Mas teria sido verdadeiramente feliz?
E vocês? Quantos de nós têm coragem de seguir o coração quando tudo à volta grita para ficarmos quietos?