A Fome da Vizinha: Memórias de uma Infância em Silêncio
— Mãe, porque é que a Mariana está sempre à espera à porta? — perguntei, com a voz trémula, enquanto via a menina de olhos fundos encostada ao portão do nosso quintal.
A minha mãe não respondeu logo. Limitou-se a cortar mais uma fatia de pão, barrar com manteiga e embrulhar num guardanapo. Depois, olhou-me nos olhos, como se procurasse as palavras certas para uma verdade demasiado pesada para os meus oito anos.
— Às vezes as pessoas precisam de ajuda, filha. E nós ajudamos como podemos.
A Mariana era a minha vizinha do lado esquerdo, numa aldeia esquecida do interior de Portugal. Tinha o cabelo castanho sempre desgrenhado e um olhar que misturava esperança e vergonha. O pai dela, o senhor António, era um homem calado, de mãos calejadas e olhar perdido. A mãe, Dona Rosa, raramente saía de casa; diziam que estava “doente dos nervos”.
Na escola, a Mariana sentava-se sozinha. Os outros meninos cochichavam sobre o cheiro da roupa dela ou sobre o facto de nunca trazer lanche. Eu sentia uma pontada no peito cada vez que a via a olhar para o chão durante o recreio. Uma vez tentei convidá-la para brincar, mas ela recusou com um sorriso triste.
Em casa, o assunto era tabu. O meu pai mudava de conversa sempre que eu perguntava pela família da Mariana. Só a minha mãe parecia inquieta com o silêncio. Às escondidas, deixava sacos com comida junto ao portão deles. Uma noite, ouvi-a chorar baixinho na cozinha.
— Isto não é vida para ninguém… — murmurou ela, pensando que ninguém ouvia.
O inverno daquele ano foi especialmente rigoroso. As paredes da nossa casa transpiravam humidade e o vento assobiava pelas frinchas das janelas. Uma noite, ouvi gritos vindos da casa da Mariana. O meu coração disparou. Corri para a janela e vi luzes acesas e sombras a moverem-se depressa.
No dia seguinte, a Mariana apareceu na escola com um olho negro. Os professores fingiram não ver. Eu quis perguntar-lhe o que tinha acontecido, mas faltou-me coragem. Senti-me cobarde.
O tempo foi passando e a situação piorava. O senhor António perdeu o trabalho na fábrica de cortiça e começou a beber mais do que devia. A Dona Rosa gritava-lhe pela janela e os vizinhos faziam de conta que não ouviam. Só a minha mãe continuava a tentar ajudar, mas cada vez mais desanimada.
Uma tarde, encontrei a Mariana sentada no muro do nosso quintal. Estava magra como um espeto e tinha as mãos geladas.
— Queres vir lanchar connosco? — arrisquei.
Ela hesitou, olhou para trás e depois para mim.
— Não posso… A minha mãe não gosta que eu peça coisas aos outros.
— Mas não estás a pedir… Eu é que estou a convidar.
Ela sorriu, mas não se mexeu. Ficámos ali em silêncio até o sol se pôr.
Naquela noite, sonhei que a Mariana desaparecia no meio da névoa e eu corria atrás dela sem nunca conseguir alcançá-la.
Os anos passaram e fomos crescendo. A Mariana foi ficando cada vez mais ausente, até que um dia deixou de aparecer na escola. Diziam que tinha ido trabalhar para Lisboa como empregada doméstica. Nunca mais soube dela.
A nossa aldeia continuou igual: casas velhas, ruas de terra batida e vizinhos que preferiam o silêncio à vergonha. A minha mãe envelheceu depressa. Um dia, ao arrumar as gavetas dela depois do funeral, encontrei um caderno cheio de listas: arroz, leite, pão… Eram as compras que ela fazia para deixar à família da Mariana.
Sentei-me no chão do quarto dela e chorei tudo o que não tinha chorado em criança. Chorei pela Mariana, pela minha mãe e por mim mesma — por nunca ter tido coragem de quebrar o silêncio.
Hoje vivo longe daquela aldeia, mas a memória da Mariana persegue-me como uma sombra fria nos dias de inverno. Pergunto-me se poderia ter feito mais — se uma palavra minha teria mudado alguma coisa.
E vocês? Quantas vezes já preferiram o silêncio ao incómodo? Será que ajudar em segredo é suficiente ou estamos apenas a aliviar a nossa própria consciência?