Entre Paredes Frias: Como Me Redescobri na Casa da Minha Sogra
— Não penses que esta casa é tua, Mariana! — A voz da minha sogra ecoou pela cozinha fria, cortando o silêncio da manhã como uma faca afiada. Eu estava a lavar a loiça do pequeno-almoço, as mãos trémulas de nervosismo, quando ela entrou, já com o rosto carregado de mágoa e desconfiança. — O meu filho pode estar em França, mas quem manda aqui sou eu!
O prato escorregou-me das mãos e partiu-se no chão. O barulho foi tão alto que até o gato fugiu assustado. Senti o coração a bater descompassado, as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos. Mas não chorei. Não à frente dela. Não podia dar-lhe esse gosto.
Vivo nesta casa há três anos, desde que casei com o Rui. Ele sempre sonhou emigrar para dar uma vida melhor à nossa filha, Leonor, e a mim. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar numa construção em Lyon, não hesitou. Eu fiquei para trás, com a promessa de que seria por pouco tempo. Mas o tempo foi passando e, com ele, a paciência da minha sogra foi-se esgotando.
— Mariana, não te esqueças que a Leonor tem consulta hoje — disse ela, já mais calma, mas com aquele tom seco que me fazia sentir uma intrusa na minha própria casa.
— Eu sei, Dona Teresa. Já preparei tudo — respondi, tentando soar firme.
Ela olhou-me de cima a baixo, como se avaliasse cada palavra, cada gesto. — Espero bem que sim. E vê lá se não te atrasas outra vez.
Quando ela saiu da cozinha, deixei-me cair numa cadeira e tapei o rosto com as mãos. Senti-me tão pequena, tão deslocada… Como é possível sentir-me uma estranha na casa onde cresceu o homem que amo? Onde a minha filha dá os primeiros passos?
Às vezes penso que Dona Teresa nunca me aceitou verdadeiramente. Sempre fui “a rapariga do bairro ao lado”, filha de um pedreiro e de uma costureira. O Rui era o orgulho dela: o único filho homem, trabalhador, educado. Quando nos apaixonámos, ela disfarçou bem o desagrado. Mas agora que estou sozinha com ela, sem o Rui para mediar as conversas ou acalmar os ânimos, tudo se tornou mais difícil.
As noites são as piores. Depois de deitar a Leonor, sento-me no quarto escuro e rezo baixinho. Peço força para aguentar mais um dia, peço paciência para não responder mal à Dona Teresa, peço coragem para não desistir. Às vezes sinto que só Deus me ouve nestas paredes frias.
Uma noite, depois de mais uma discussão por causa do jantar — “O arroz está demasiado cozido!” — liguei ao Rui em lágrimas.
— Amor, eu já não aguento mais… Ela faz-me sentir como se fosse uma empregada! — desabafei.
Do outro lado da linha, ouvi o suspiro cansado dele.
— Mariana, aguenta só mais um pouco… Eu estou quase a juntar dinheiro suficiente para alugarmos um apartamento só nosso. Por favor… faz isso pela Leonor.
A voz dele era um misto de esperança e culpa. Sabia que ele sofria por me deixar ali sozinha com a mãe dele, mas também sabia que não tínhamos outra opção. Os salários em Portugal não chegavam para nada e ele queria dar-nos uma vida melhor.
No dia seguinte acordei decidida a não me deixar ir abaixo. Preparei o pequeno-almoço para todos e vesti a Leonor com o seu vestido preferido. Quando Dona Teresa entrou na cozinha e viu tudo pronto, pareceu surpreendida.
— Hoje acordaste cedo… — murmurou.
— Quero aproveitar o dia com a Leonor — respondi com um sorriso forçado.
Ela não disse nada. Limitou-se a sentar-se à mesa e comer em silêncio. Mas naquele momento percebi que não podia deixar que ela me destruísse por dentro. Tinha de ser forte pela minha filha.
Os dias foram passando entre pequenas vitórias e grandes derrotas. Houve manhãs em que Dona Teresa me ignorava completamente; outras em que implicava com tudo: “Não sabes passar a ferro?”, “A sopa está sem sal!”, “A Leonor devia estar já a falar melhor…”
A minha mãe ligava-me todos os domingos.
— Filha, se precisares de vir para casa… sabes que tens sempre aqui um quarto — dizia ela baixinho, para eu não me sentir envergonhada.
Mas eu recusava sempre. Não queria dar parte fraca nem preocupar ainda mais os meus pais.
Uma tarde chuvosa de novembro mudou tudo. Cheguei a casa depois de ir buscar a Leonor ao infantário e encontrei as minhas roupas atiradas para cima da cama.
— O que é isto? — perguntei à Dona Teresa, já com a voz embargada.
Ela estava na sala, sentada no sofá como uma rainha no trono.
— Estou farta desta situação! Esta casa é minha! Se não gostas das minhas regras, podes ir-te embora!
Senti um nó na garganta tão apertado que mal conseguia respirar.
— O Rui sabe disto? — perguntei num fio de voz.
Ela levantou-se devagar e olhou-me nos olhos.
— O Rui está longe e eu é que mando aqui agora!
Peguei no telemóvel e liguei-lhe imediatamente. Ele atendeu ao fim de três toques.
— Rui… a tua mãe quer pôr-me fora de casa…
O silêncio dele foi ensurdecedor.
— Mariana… eu vou falar com ela. Por favor… aguenta só mais um pouco…
Desliguei e sentei-me no chão do quarto da Leonor. Ela veio ter comigo e abraçou-me pelas costas.
— Mamã… estás triste?
Olhei para aqueles olhos grandes e inocentes e senti uma onda de amor tão forte que quase me afogou nas lágrimas.
— Não, filha… A mamã só está cansada…
Nessa noite rezei como nunca tinha rezado antes. Pedi um sinal, uma saída, uma luz ao fundo do túnel. E talvez tenha sido essa fé cega que me deu forças para enfrentar mais um dia.
Na manhã seguinte fui ter com Dona Teresa à cozinha.
— Dona Teresa… eu sei que esta casa é sua. Mas também é da sua neta. E enquanto o Rui não voltar, eu vou continuar aqui para cuidar dela. Não lhe peço amizade nem carinho… só respeito.
Ela ficou calada durante uns segundos eternos. Depois virou costas e saiu da cozinha sem dizer palavra.
A partir desse dia as coisas mudaram ligeiramente. Continuámos distantes, mas ela deixou de me ameaçar ou provocar discussões desnecessárias. Talvez tenha percebido que eu não ia desistir assim tão facilmente.
Quando finalmente conseguimos arrendar um pequeno apartamento nos arredores do Porto, senti-me livre pela primeira vez em anos. O Rui voltou de França para nos ajudar na mudança e Dona Teresa ficou à porta da casa dela sem dizer nada enquanto carregávamos as caixas para o carro.
Antes de entrar no carro olhei para trás e vi-a a enxugar discretamente uma lágrima. Nesse momento percebi que também ela tinha perdido alguma coisa: talvez o controlo sobre o filho ou simplesmente o medo de ficar sozinha.
Agora escrevo esta história sentada na sala do nosso novo lar enquanto a Leonor brinca no tapete com os seus bonecos. Sinto-me finalmente em paz — mas às vezes dou por mim a pensar se poderia ter feito algo diferente para evitar tanto sofrimento.
Será que perdoar é sempre o caminho certo? Ou há momentos em que temos mesmo de lutar por nós próprios? Gostava de saber o que vocês fariam no meu lugar.