Além das Aparências: A História de Ana entre Ilusões e Verdades
— Não me venhas com desculpas, mãe! Já chega de mentiras! — gritei, sentindo a garganta arder, enquanto as lágrimas ameaçavam cair. O cheiro do café queimado misturava-se ao silêncio pesado da cozinha. A minha mãe, Maria, olhava para mim com olhos cansados, como se cada palavra minha fosse uma faca cravada no peito.
Desde pequena, aprendi a ler os silêncios lá de casa. O meu pai, António, era um homem ausente, sempre a trabalhar fora, e quando estava presente, era como se não estivesse. A minha mãe tentava manter tudo em ordem, mas havia sempre uma tensão no ar, como se estivéssemos todos à espera de uma tempestade que nunca mais chegava.
Lembro-me de ter seis anos e ouvir os gritos vindos do quarto dos meus pais. Tapava os ouvidos com as mãos e rezava para que tudo acabasse rápido. Cresci a acreditar que o amor era feito de gritos abafados e portas batidas. Talvez por isso tenha procurado nos outros aquilo que nunca tive em casa.
Aos dezasseis anos apaixonei-me perdidamente pelo Miguel. Ele era o oposto do meu pai: falador, carinhoso, fazia-me sentir especial. Mas depressa percebi que o amor dele vinha com condições. “Se gostas mesmo de mim, não vais sair com as tuas amigas”, dizia ele. E eu, sedenta de aprovação, cedia sempre. Afastei-me de todos, até da minha melhor amiga, a Inês.
— Ana, ele não te faz bem — avisava-me ela numa tarde chuvosa, sentadas no muro da escola. — Não vês que estás a mudar?
Mas eu não queria ouvir. Preferia acreditar nas promessas do Miguel do que encarar a solidão que me esperava em casa. Só quando ele me deixou por outra rapariga é que percebi o vazio em que me encontrava.
Foi nessa altura que descobri o segredo que mudou tudo. Uma noite, ao procurar um documento na gaveta da minha mãe, encontrei uma carta antiga. O papel estava amarelado e a letra tremida. Era do meu pai… para outra mulher. “Nunca deixarei de te amar”, dizia ele no final. Senti o chão fugir-me dos pés.
Confrontei a minha mãe no dia seguinte. Ela chorou como nunca a tinha visto chorar.
— Eu sabia desde o início — confessou ela entre soluços. — Mas achei que era melhor para ti teres o teu pai por perto, mesmo assim.
Senti raiva, tristeza e uma estranha compaixão por ela. Como é que alguém aguenta viver assim tantos anos? Comecei a olhar para a minha mãe com outros olhos. Percebi que ela também era vítima das escolhas do meu pai.
Os anos passaram e tentei reconstruir-me aos poucos. Fui para a universidade no Porto, longe daquela casa cheia de fantasmas. Mas os fantasmas vieram comigo. Tinha medo de confiar nas pessoas, medo de ser abandonada, medo de não ser suficiente.
Foi no segundo ano da faculdade que conheci o João. Ele era paciente, ouvia-me sem julgar e fazia-me rir como ninguém. Mas eu tinha medo de me entregar. Sempre que ele se aproximava demais, eu afastava-me.
— Ana, tu tens de decidir se queres mesmo isto — disse-me ele numa noite fria à beira do Douro. — Eu não sou o Miguel nem o teu pai.
Chorei nesse dia como há muito não chorava. Contei-lhe tudo: os gritos em casa, a traição do meu pai, o medo de repetir os mesmos erros.
— Tu não és eles — disse-me ele, abraçando-me com força. — Tu és tu.
Aquelas palavras ficaram comigo durante muito tempo. Comecei a fazer terapia e a enfrentar os meus medos um a um. Falei com a minha mãe sobre tudo o que sentia e perdoei-a por não ter tido forças para sair daquela relação mais cedo.
O meu pai tentou reaproximar-se várias vezes, mas eu precisava de tempo para o perdoar. Só anos mais tarde consegui olhar para ele sem sentir raiva.
Hoje sou psicóloga e ajudo outras pessoas a enfrentarem os seus próprios fantasmas. Ainda tenho dias maus, ainda tenho dúvidas e inseguranças, mas aprendi que a felicidade não é um destino — é um caminho cheio de curvas e tropeços.
Às vezes pergunto-me: quantas pessoas vivem presas às aparências por medo da verdade? E vocês? Já tiveram coragem de enfrentar os vossos próprios fantasmas?