Quando o Meu Marido Esqueceu a Nossa Família por Causa do Irmão
— Não posso acreditar, Miguel! Outra vez vais jantar à casa da tua cunhada? — gritei, a voz embargada, enquanto segurava o pano da loiça com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Miguel nem sequer me olhou nos olhos. Estava já de costas, a pegar nas chaves do carro. — Eles precisam de mim, Sofia. O Pedro faria o mesmo por mim se fosse ao contrário.
Senti o peito apertar-se, como se alguém me tivesse tirado o ar. O Pedro, irmão do Miguel, tinha morrido há seis meses num acidente de mota na estrada nacional entre Leiria e Fátima. Desde então, a nossa vida nunca mais foi a mesma. A cunhada, Ana, ficou sozinha com dois filhos pequenos e, de repente, o Miguel tornou-se o pilar daquela casa. Mas e nós? E os nossos filhos?
— E nós, Miguel? Quando é que vais perceber que também precisamos de ti? — perguntei, quase num sussurro, com medo da resposta.
Ele hesitou por um segundo, mas não disse nada. Saiu e bateu a porta com força. O silêncio que ficou ecoou pela casa como um grito mudo.
Os nossos filhos, Mariana e Tiago, estavam na sala a fazer os trabalhos de casa. Mariana olhou para mim com aqueles olhos grandes e tristes. — O pai vai outra vez ajudar os primos?
Assenti, tentando sorrir. — Vai, filha. Mas amanhã ele deve jantar connosco.
A verdade é que já não sabia se era verdade ou apenas uma mentira piedosa para acalmar os meus próprios medos. Nos últimos meses, Miguel passava mais tempo na casa da Ana do que na nossa. Ia buscar os sobrinhos à escola, fazia compras para eles, consertava tudo o que se partia naquela casa. Ao início compreendi: a dor era recente, a perda era enorme. Mas agora sentia-me cada vez mais sozinha.
As noites tornaram-se longas e frias. Ouvia os risos dos meus filhos ao longe e sentia-me uma estranha na minha própria casa. Comecei a questionar tudo: será que era egoísta por querer o meu marido só para mim? Ou seria ele que estava a fugir de nós?
Uma noite, depois de deitar as crianças, sentei-me no sofá com uma chávena de chá nas mãos trémulas. O telefone tocou. Era a minha mãe.
— Sofia, estás bem? — perguntou ela, sempre atenta ao tom da minha voz.
Desabei em lágrimas. — Mãe, sinto-me tão sozinha… O Miguel só pensa na Ana e nos sobrinhos. Parece que já não existimos para ele.
Ela suspirou do outro lado da linha. — Filha, o luto é estranho. Às vezes as pessoas perdem-se nele. Mas não deixes que isso destrua o que construíram juntos.
As palavras dela ficaram a ecoar na minha cabeça durante dias. Tentei falar com o Miguel várias vezes, mas ele estava sempre cansado ou apressado demais para ouvir.
Uma tarde de domingo, decidi ir à casa da Ana sem avisar. Queria ver com os meus próprios olhos o que se passava ali. Quando cheguei, vi-os todos sentados à mesa: Miguel ajudava os sobrinhos com um puzzle enquanto Ana preparava um lanche.
— Olá… — disse eu, hesitante à porta.
Ana sorriu, mas havia algo estranho no seu olhar. — Sofia! Que surpresa… Queres entrar?
Sentei-me à mesa e observei tudo em silêncio. Os sobrinhos correram para mim e abraçaram-me com força. Senti uma pontada de culpa por ter inveja deles.
Miguel levantou-se e veio ter comigo à cozinha.
— O que fazes aqui? — perguntou em voz baixa.
— Vim ver-te. Vim ver-nos — respondi, tentando conter as lágrimas.
Ele olhou para mim como se só agora percebesse o quanto eu estava magoada.
— Sofia… Eu só quero ajudar a Ana. Ela está tão perdida…
— E eu? E os nossos filhos? Não estamos também perdidos sem ti?
Ele ficou em silêncio. Pela primeira vez vi dúvida nos olhos dele.
Naquela noite voltámos juntos para casa. O caminho foi feito em silêncio, mas senti que algo tinha mudado.
Os dias seguintes foram estranhos. Miguel tentava dividir-se entre as duas famílias, mas estava sempre ausente em espírito. Comecei a sentir raiva da Ana, dos sobrinhos, até do Pedro por ter deixado este vazio nas nossas vidas.
Certa noite ouvi Mariana chorar no quarto. Entrei devagarinho e sentei-me ao lado dela na cama.
— O pai já não gosta de nós? — perguntou ela entre soluços.
Abracei-a com força. — Claro que gosta, filha… Só está triste e confuso.
Mas será que era mesmo isso? Ou será que ele já não sabia onde pertencia?
O tempo foi passando e as discussões tornaram-se mais frequentes. Uma noite perdi a cabeça:
— Chega! Não aguento mais viver assim! Ou escolhes a nossa família ou continuas a viver metade aqui e metade lá!
Miguel ficou pálido. — Não me peças isso… Eles precisam de mim!
— E nós? Não precisamos?
Ele saiu de casa nessa noite e só voltou no dia seguinte. Não dormi um minuto sequer.
No trabalho comecei a falhar prazos, os colegas notavam o meu cansaço e tristeza. A minha chefe chamou-me ao gabinete:
— Sofia, estás bem? Precisas de uns dias?
Quis dizer-lhe tudo mas limitei-me a acenar com a cabeça.
Em casa tudo piorava. Os meus filhos estavam cada vez mais calados e distantes. Senti-me a falhar como mãe e como mulher.
Um dia recebi uma mensagem da Ana: “Obrigada por tudo o que tens feito pelo Miguel. Ele fala muito de ti.”
Fiquei furiosa. Que direito tinha ela de me agradecer? Era eu quem estava a perder tudo!
Decidi confrontar Miguel uma última vez:
— Preciso de saber se ainda somos uma família ou se já te perdemos para sempre.
Ele chorou pela primeira vez desde a morte do irmão.
— Tenho medo de vos perder a todos…
Abracei-o com força mas sabia que nada voltaria a ser como antes.
Hoje vivemos numa espécie de equilíbrio frágil: Miguel continua a ajudar a Ana mas tenta estar mais presente em casa. Eu aprendi a aceitar que nunca mais seremos aquela família perfeita de antes do acidente.
Mas às vezes pergunto-me: quantas famílias sobrevivem quando um dos seus membros se perde no luto dos outros? E será possível reconstruir o amor depois de tanta dor?