Cinco Anos Depois: O Amargo Sabor do Amor de Mãe
— Não podes simplesmente aparecer agora, Inês! — A voz da minha mãe ecoou pelo corredor, carregada de mágoa e exaustão. O cheiro a café queimado misturava-se com o perfume antigo do corredor da casa dos meus pais, em Benfica. O relógio marcava quase meia-noite e eu, de mochila às costas e olhos vermelhos, sentia-me mais estrangeira ali do que em qualquer outro lugar do mundo.
O meu pai, sentado à mesa da cozinha, olhava para mim sem dizer palavra. Os seus olhos, outrora cheios de orgulho, estavam agora baços, como se cada ruga fosse uma história de desilusão. E ali, entre eles, estava o meu filho Lourenço, com cinco anos e um olhar curioso, mas distante. Não me reconhecia como mãe. Era apenas a Inês, a filha que partiu para estudar Direito em Lisboa e que nunca mais voltou.
Lembro-me do dia em que descobri que estava grávida. Tinha vinte anos e um futuro inteiro pela frente. O Pedro, o pai do Lourenço, desapareceu assim que soube da notícia. Fiquei sozinha, assustada e cheia de sonhos adiados. Os meus pais acolheram-me, mas deixaram claro que a responsabilidade era minha. No entanto, quando nasceu o Lourenço, não consegui lidar com tudo. As noites sem dormir, os exames na faculdade, os olhares de pena dos vizinhos… Acabei por aceitar a proposta dos meus pais: eles criariam o meu filho até eu “ter condições” para ser mãe.
— Vais arrepender-te disto um dia — disse-me a minha mãe na altura, com uma tristeza que só agora compreendo.
Durante cinco anos, visitei-os esporadicamente. Trazia brinquedos caros e promessas vazias. Dizia sempre: “Quando acabar o curso… Quando arranjar trabalho… Quando tiver casa própria…” Mas a verdade é que fugi. Fugi da responsabilidade, do medo de falhar como mãe.
Naquela noite fatídica, tudo mudou. Recebi uma chamada do hospital: os meus pais tinham sofrido um acidente de carro na A1. O meu coração gelou. Corri para o hospital com as mãos a tremer e a cabeça cheia de remorsos. O meu pai não resistiu. A minha mãe ficou semanas entre a vida e a morte.
Durante esse tempo, fui obrigada a cuidar do Lourenço. Ele olhava para mim com desconfiança. Não queria dormir comigo, chorava pela avó todas as noites e recusava-se a comer o que eu cozinhava.
— Quero a avó! — gritava ele, batendo com os pés no chão.
Senti-me inútil. Lavei as lágrimas em silêncio e tentei ser forte. Mas cada gesto dele era um lembrete cruel do tempo perdido.
Os dias passaram lentamente. Aprendi a fazer arroz doce como a minha mãe fazia, só para ver se ele sorria. Li-lhe histórias antes de dormir, mesmo quando ele tapava os ouvidos. Levei-o ao parque onde costumava brincar com o avô. Aos poucos, comecei a perceber pequenos detalhes: o jeito como franzia o sobrolho quando estava concentrado, igual ao meu; o riso tímido quando via desenhos animados; o medo do escuro que também era meu em criança.
Uma noite, depois de mais um pesadelo dele, sentei-me ao lado da cama e segurei-lhe a mão.
— Desculpa, Lourenço… Desculpa não ter estado aqui antes — sussurrei.
Ele olhou para mim com olhos grandes e cansados.
— Vais embora outra vez?
A pergunta dele foi como uma faca no peito. Senti todo o peso das minhas escolhas cair sobre mim.
— Não vou — prometi-lhe — Nunca mais te deixo sozinho.
Quando a minha mãe finalmente saiu do hospital, já nada era igual entre nós. Ela estava mais frágil, mas também mais dura comigo.
— Agora percebes o que é ser mãe? — perguntou-me um dia, enquanto dobrava roupa na sala.
Fiquei calada. Não havia palavras suficientes para pedir perdão.
Os meses seguintes foram uma luta constante entre nós as duas. Ela não confiava em mim para cuidar do Lourenço; eu sentia-me sempre julgada e insuficiente.
— Achas que é só apareceres e tudo volta ao normal? — atirou-me ela numa discussão acesa.
— Eu estou a tentar! — gritei-lhe de volta, com lágrimas nos olhos — Eu sei que falhei! Mas ele é meu filho!
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O Lourenço apareceu à porta da sala nesse momento e correu para os braços da avó. Senti-me invisível.
Comecei a ir a sessões de terapia familiar com eles. Foi aí que ouvi coisas que nunca quis ouvir:
— A Inês tem medo de ser rejeitada pelo próprio filho — disse a psicóloga.
— Eu só quero proteger o meu neto — respondeu a minha mãe.
— E eu só quero uma oportunidade para ser mãe — confessei eu.
Aos poucos, fomos reconstruindo pontes frágeis. Comecei a levar o Lourenço à escola todos os dias. Fizemos trabalhos manuais juntos ao fim de semana. Ele começou a chamar-me “mamã” baixinho, quase como se tivesse medo de me magoar se dissesse alto demais.
Mas havia sempre aquele amargo sabor na boca: o tempo perdido nunca voltaria.
No aniversário dele, organizei uma festa pequena em casa dos meus pais. Quando soprou as velas, olhou para mim e sorriu pela primeira vez como se eu fosse realmente parte da sua vida.
— Mamã… ficas comigo hoje à noite? — perguntou ele.
Senti as lágrimas caírem sem controlo. Abracei-o com força e prometi-lhe outra vez: nunca mais te deixo sozinho.
Agora olho para trás e pergunto-me: quantas mães há por aí que fogem por medo? Quantas oportunidades perdemos por acharmos que ainda temos tempo? Será possível recuperar o amor de um filho depois de tanto tempo afastados?
E vocês? O que fariam no meu lugar?