Perdoar ou odiar? A história de um pai que perdeu a filha
— António, tens de comer alguma coisa. — A voz da Teresa, a minha mulher, ecoava pela cozinha fria, mas eu não conseguia responder. O cheiro do café misturava-se com o silêncio pesado da manhã, e tudo me parecia distante, como se eu estivesse a ver a minha própria vida através de um vidro embaciado.
O relógio marcava 7h45. Era àquela hora que, há um ano, eu costumava levar a Inês à escola. Agora, só restava o vazio. O vazio e a memória daquele telefonema que mudou tudo.
— António, houve um acidente… — A voz do comandante dos bombeiros ainda me persegue nos sonhos. — É a Inês. — O mundo parou. O chão fugiu-me dos pés.
Nunca pensei que pudesse odiar alguém como passei a odiar o Miguel. Cresceu ao lado da nossa casa, jogou à bola com a Inês no quintal, vinha pedir açúcar à Teresa quando era pequeno. Mas naquele dia, decidiu pegar no carro do pai, sem carta, para impressionar os amigos. E a minha filha estava no caminho dele.
O funeral foi um desfile de rostos conhecidos e palavras vazias. — Força, António. — Ninguém sabia o que dizer. Nem eu sabia o que sentir. Teresa chorava baixinho todas as noites, agarrada à almofada da Inês, enquanto eu vagueava pela casa como um fantasma.
Os meus pais tentaram ajudar. — Tens de ser forte pelo bem da Teresa — dizia o meu pai, mas eu só queria gritar. A minha mãe rezava por nós, acendia velas na igreja da aldeia. Eu deixei de acreditar em Deus naquele dia.
O Miguel foi julgado. Os pais dele vieram pedir desculpa, olhos vermelhos, mãos trémulas. — António, ele não queria… — Mas eu não conseguia ouvir. Só via o rosto da Inês, os olhos castanhos cheios de vida.
Durante meses, evitei sair de casa. No café do senhor Joaquim, todos cochichavam quando eu entrava. — Coitado do António… — E eu odiava aquela pena toda. Só queria que me deixassem em paz.
Uma noite, ouvi vozes no quintal. Era o Miguel com os amigos, riam-se alto demais. Senti uma raiva tão forte que quase perdi o controlo. Saí porta fora e gritei:
— Achas que tens piada? Achas que podes continuar como se nada fosse?
Ele ficou parado, pálido, sem saber o que dizer. Os amigos fugiram. — Desculpe, senhor António… — murmurou ele antes de desaparecer na escuridão.
Teresa tentou aproximar-se de mim várias vezes. — Não podemos viver assim para sempre… — Mas eu não sabia como voltar a ser quem era antes.
O tempo passou devagar. Fui chamado ao tribunal para testemunhar no julgamento do Miguel. Quando me perguntaram se queria dizer alguma coisa, só consegui olhar para ele e perguntar:
— Sabes o que tiraste de mim?
Ele chorou ali mesmo, diante de todos. Pela primeira vez vi o rapaz assustado que sempre conheci, não o monstro que criei na minha cabeça.
Depois do julgamento, Teresa começou a ir ao grupo de apoio para pais enlutados em Coimbra. Um dia pediu-me para ir com ela. Recusei durante semanas até que um domingo acordei e vi o rosto dela tão cansado que me assustei.
No grupo ouvi histórias piores do que a minha: mães que perderam filhos para doenças incuráveis, pais que nunca souberam o que aconteceu aos filhos desaparecidos. Pela primeira vez senti que não estava sozinho na dor.
Comecei a escrever cartas à Inês todas as noites. Contava-lhe como tinha sido o meu dia, como sentia falta dela a correr pela casa, como ainda ouvia a gargalhada dela nos meus sonhos.
Um dia encontrei o Miguel sentado no muro em frente à nossa casa. Estava sozinho, olhos vermelhos.
— Posso falar consigo? — perguntou ele, voz trémula.
Sentei-me ao lado dele sem dizer nada.
— Eu sei que nunca vou poder reparar o que fiz… — começou ele. — Todos os dias penso na Inês. Não durmo direito desde aquele dia. Os meus pais estão a sofrer por minha causa… Eu só queria pedir-lhe desculpa outra vez.
Olhei para ele e vi um miúdo perdido, não um criminoso.
— Achas que um pedido de desculpas chega? — perguntei-lhe.
Ele abanou a cabeça.
— Não chega… mas é tudo o que posso dar.
Nesse momento percebi que estava cansado de odiar. O ódio consumia-me por dentro e afastava-me da Teresa, dos meus amigos, de tudo o que ainda fazia sentido na vida.
Na missa do aniversário da Inês, sentei-me ao lado da Teresa e apertei-lhe a mão com força. Quando chegou a altura das intenções, levantei-me e disse:
— Peço por todos os pais que perderam filhos e por quem carrega culpas impossíveis de suportar.
Depois disso comecei a reconstruir-me aos poucos. Voltei ao trabalho na oficina do senhor Manuel e aceitei os convites dos amigos para jogar sueca ao domingo à tarde.
A dor nunca desapareceu, mas aprendi a viver com ela. E aprendi também que perdoar não é esquecer nem desculpar; é libertar-nos do peso do ódio para podermos voltar a respirar.
Hoje olho para trás e pergunto-me: será possível algum dia perdoar totalmente? Ou será que aprendemos apenas a viver com as feridas abertas? E vocês, já tiveram de escolher entre perdoar ou odiar?