O Dia em Que Não Fui Bem-vinda: O Aniversário Sem o Meu Neto e Sem Mim
— Mãe, preferia que não viesses ao aniversário do Tomás este ano. Acho que não vais ajudar ao ambiente. — Li a mensagem do João três vezes, cada palavra a cravar-se como uma faca no peito. O meu filho, o meu menino, a pedir-me para não ir ao aniversário do meu neto. Senti o chão fugir-me dos pés. O telemóvel tremia nas minhas mãos, ou talvez fosse eu a tremer.
Sentei-me à mesa da cozinha, onde tantas vezes lhe preparei o pequeno-almoço antes de ir para a escola. O cheiro do café ainda pairava no ar, mas agora parecia amargo. Olhei para a fotografia do Tomás presa no frigorífico com um íman em forma de sardinha — o sorriso dele, os olhos vivos, tão parecidos com os do João em pequeno. Como é que chegámos aqui?
A minha cabeça encheu-se de perguntas e recordações. Lembrei-me do último Natal, quando a discussão rebentou como uma bomba silenciosa. A Ana, mulher do João, nunca gostou muito de mim. Sempre achei que era coisa da minha cabeça, mas ultimamente ela fazia questão de me deixar de fora das conversas, de me olhar de lado quando eu tentava brincar com o Tomás. No Natal, tudo explodiu por causa de um comentário inocente sobre a sopa — “Na minha terra faz-se diferente” — e ela respondeu com um olhar gelado: “Pois, mas aqui fazemos à nossa maneira.” O João ficou calado, como sempre.
Desde então, as visitas tornaram-se mais raras. Eu ligava, mandava mensagens, mas as respostas eram cada vez mais curtas. “Estamos ocupados.” “O Tomás está cansado.” “Depois combinamos.” E agora isto: não sou bem-vinda no aniversário do meu próprio neto.
Levantei-me e comecei a andar pela casa, perdida nos meus pensamentos. Lembrei-me do João em pequeno, das noites em claro quando ele tinha febre, das vezes que lhe limpei as lágrimas depois de uma queda. Lembrei-me do dia em que ele me apresentou a Ana — tão bonita, tão educada — e de como tentei ser simpática, mesmo sentindo que ela me olhava como se eu fosse um peso.
Peguei no telefone e escrevi uma mensagem: “João, és mesmo isso que queres? Que eu não vá ao aniversário do Tomás?” Apaguei-a antes de enviar. O orgulho e a dor lutavam dentro de mim. Não queria implorar pelo amor do meu filho, mas também não queria afastar-me ainda mais.
O dia do aniversário chegou e eu fiquei em casa. O silêncio era ensurdecedor. Ouvi os risos das crianças na rua e imaginei o Tomás a soprar as velas, rodeado de amigos e família — menos eu. Senti-me invisível, descartável.
À noite, o telefone tocou. Era a minha irmã, Maria.
— Então, foste ao aniversário?
— Não fui convidada — respondi, tentando manter a voz firme.
— O João está parvo! Não deixes que te tratem assim.
— É fácil dizer isso… Mas ele é o meu filho. E o Tomás… — A voz falhou-me.
Maria tentou animar-me, mas as palavras dela soavam distantes. Depois de desligar, sentei-me no sofá e deixei as lágrimas correrem. A solidão pesava mais do que nunca.
No dia seguinte, fui ao mercado como sempre faço às quartas-feiras. A dona Rosa perguntou pelo Tomás e eu sorri sem vontade:
— Está crescido… já faz cinco anos.
Ela sorriu e disse:
— Os netos são a nossa alegria.
Senti um nó na garganta. Saí apressada antes que alguém visse as lágrimas nos meus olhos.
Durante dias tentei encontrar explicações para o afastamento do João. Terá sido algo que disse? Algo que fiz? Ou será apenas influência da Ana? Lembrei-me das vezes em que tentei ajudar lá em casa e ela recusava sempre:
— Obrigada, mas não é preciso.
Ou quando sugeri levar o Tomás ao parque:
— Hoje não dá jeito.
Comecei a duvidar de mim própria. Talvez seja demasiado insistente. Talvez não saiba dar espaço. Mas como se aprende a ser avó quando ninguém nos ensina?
Uma semana depois do aniversário, recebi uma fotografia do Tomás por WhatsApp — ele a brincar com um carrinho novo. “O Tomás adorou o presente”, escreveu o João. Fiquei ali a olhar para o ecrã, sem saber se devia responder ou não. Escrevi: “Fico feliz por ele.” E apaguei outra vez.
Nessa noite sonhei com o João em pequeno, a correr para mim depois da escola:
— Mãe! Mãe! Olha o desenho que fiz!
Acordei com lágrimas nos olhos e uma saudade impossível de explicar.
No domingo seguinte decidi ir à missa cedo. Sentei-me no banco de trás e rezei por força para aceitar aquilo que não podia mudar. A senhora Emília sentou-se ao meu lado e perguntou:
— Está tudo bem consigo?
Sorri e menti:
— Está tudo bem.
Mas por dentro sentia-me partida.
Ao sair da igreja cruzei-me com a Ana e o Tomás na rua. Ela olhou para mim rapidamente e desviou o olhar. O Tomás acenou timidamente:
— Olá avó!
O coração quase me saltou do peito.
— Olá querido! — respondi com um sorriso forçado.
A Ana puxou-o pela mão:
— Vamos embora, Tomás.
Fiquei ali parada a vê-los afastarem-se, sentindo-me mais sozinha do que nunca.
Em casa sentei-me à janela a ver a chuva cair. Pensei em ligar ao João, em pedir-lhe para conversarmos como mãe e filho. Mas o medo da rejeição era maior do que a vontade de resolver as coisas.
Os dias foram passando e fui aprendendo a viver com esta ausência forçada. Comecei a escrever cartas ao Tomás — cartas que nunca enviei — onde lhe contava histórias da nossa família, das brincadeiras do pai em pequeno, dos verões passados na praia da Nazaré. Era a minha forma de manter viva a ligação com ele, mesmo à distância.
Às vezes pergunto-me onde errei como mãe. Será que fui demasiado protetora? Será que não soube aceitar as escolhas do João? Ou será apenas o tempo a afastar-nos inevitavelmente?
O silêncio entre nós tornou-se rotina. No Natal seguinte enviei um presente para o Tomás por correio — um livro ilustrado com dedicatória: “Para o meu querido neto, com todo o amor da avó.” Não recebi resposta.
A solidão tornou-se minha companheira constante. Mas recuso-me a deixar morrer o amor que sinto pelo João e pelo Tomás. Continuo à espera de um telefonema, de uma mensagem, de um gesto de reconciliação.
Às vezes olho para as fotografias antigas e pergunto-me: quando é que deixámos de ser uma família? Quando é que o amor deixou de ser suficiente para nos manter juntos?
E vocês? Acham que há algum erro imperdoável entre mãe e filho? Ou será que todos merecemos uma segunda oportunidade?