Sempre a Suspeita: A Vida de Madalena em Odivelas
— Madalena, foste tu que mexeste nas minhas coisas outra vez? — a voz da minha mãe ecoou pelo corredor, carregada de impaciência e uma raiva contida que eu já conhecia demasiado bem.
Senti o estômago apertar-se, como sempre que ouvia aquela pergunta. Tinha dez anos e já sabia que, para ela, eu era sempre a culpada. Não importava se tinha sido o meu irmão, o Tiago, ou até o vento a empurrar alguma coisa da prateleira. Era sempre eu.
— Não fui eu, mãe — respondi, tentando manter a voz firme, mas a minha garganta já se fechava com o choro que não queria mostrar.
Ela olhou-me com aqueles olhos frios, desconfiados, como se pudesse ver através de mim. — Não mintas, Madalena. Já sabes que não gosto de mentiras nesta casa.
O Tiago apareceu à porta da cozinha, com um sorriso de quem se diverte com a desgraça alheia. — Eu vi a Madalena lá no quarto — disse ele, sem pestanejar.
— Não viste nada! — gritei, mas já era tarde. A sentença estava dada.
A minha infância foi feita destes pequenos julgamentos diários. Cresci em Odivelas, num apartamento pequeno onde os gritos passavam facilmente pelas paredes finas. O meu pai trabalhava horas intermináveis como motorista de autocarro e raramente estava em casa. Quando estava, limitava-se a resmungar sobre o preço do gasóleo e a falta de respeito dos passageiros. A minha mãe era empregada de limpeza numa escola primária e chegava sempre cansada, com as mãos gretadas do detergente barato e os nervos à flor da pele.
Nunca percebi porque é que ela me via como uma ameaça. Talvez porque fui a segunda filha, aquela que veio sem ser planeada. Ou talvez porque era parecida com a avó paterna, com quem ela nunca se deu bem. O certo é que, desde cedo, aprendi a andar em bicos de pés pela casa, a evitar fazer barulho, a desaparecer quando as coisas corriam mal.
A escola era o meu refúgio. Lá ninguém me acusava sem provas. A professora Teresa dizia sempre: “Madalena, tu tens um coração grande.” Eu sorria e sentia-me vista. Mas bastava chegar a casa para voltar ao papel de suspeita-mor.
Lembro-me de um Natal em particular. Tinha doze anos e tinha juntado moedas durante meses para comprar um presente para a minha mãe: um lenço azul com flores brancas. Quando lho dei, ela olhou para mim com desconfiança.
— Onde arranjaste dinheiro para isto?
— Fui juntando do troco das compras…
Ela suspirou fundo e pousou o lenço na mesa sem sequer agradecer. O Tiago riu-se e murmurou: “De certeza que roubaste.”
Aquela noite chorei baixinho na cama, abraçada ao travesseiro. Perguntei-me porque é que ninguém via quem eu realmente era.
Os anos passaram e as acusações continuaram. Quando algo desaparecia — uma nota de vinte euros da carteira do meu pai, um batom da minha mãe — os olhos viravam-se para mim. O Tiago cresceu convencido de que podia fazer tudo sem consequências; eu cresci convencida de que era invisível ou, pior ainda, culpada por existir.
A adolescência trouxe novos conflitos. Comecei a sair com amigas da escola: a Joana, a Filipa e a Sara. Uma vez fomos ao cinema e cheguei meia hora depois do combinado porque o autocarro atrasou-se. Quando entrei em casa, a minha mãe esperava-me sentada à mesa da cozinha.
— Onde estiveste? — perguntou num tom gelado.
— Fui ao cinema com as meninas…
— E achas que eu sou parva? Achas mesmo que acredito nisso? — Ela levantou-se de repente e bateu com força na mesa. — Não sei o que andas a fazer, mas um dia ainda vais dar-me razão para te correr desta casa!
O Tiago apareceu atrás dela, braços cruzados e sorriso cínico.
— Aposto que andou com algum rapaz — disse ele.
— Cala-te! — gritei-lhe, mas ninguém me ouvia realmente.
Na escola comecei a fechar-me cada vez mais. As minhas notas baixaram e deixei de ir às festas das amigas. Sentia vergonha de mim própria, como se fosse realmente culpada de tudo aquilo de que me acusavam.
Aos dezassete anos conheci o Rui. Ele era diferente: ouvia-me, fazia-me rir e dizia que eu era especial. Pela primeira vez senti que alguém acreditava em mim sem reservas. Começámos a namorar às escondidas porque sabia que em casa nunca aceitariam.
Uma noite o Rui deixou-me à porta do prédio e deu-me um beijo rápido antes de eu subir as escadas. Quando entrei em casa, encontrei a minha mãe à janela da sala.
— Quem era aquele rapaz?
— É só um amigo…
Ela aproximou-se e olhou-me nos olhos como se procurasse uma mentira escondida.
— Não quero cá essas vergonhas nesta casa! Se engravidas vais ver o que te acontece!
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Pela primeira vez respondi-lhe:
— Não sou como tu pensas! Nunca fui!
Ela levantou a mão como se fosse bater-me, mas conteve-se no último instante. O Tiago apareceu no corredor e disse:
— Deixa-a mãe, ela não vale nada mesmo.
Corri para o quarto e fechei-me lá dentro. Chorei até adormecer.
No dia seguinte decidi sair de casa assim que acabasse o secundário. Trabalhei durante o verão num café perto do metro de Odivelas e juntei dinheiro suficiente para alugar um quarto numa casa partilhada em Lisboa. O Rui ajudou-me na mudança; lembro-me do olhar frio da minha mãe quando lhe disse que ia embora.
— Vais arrepender-te — disse ela apenas.
Durante meses não tive notícias deles. Senti uma mistura estranha de liberdade e vazio. O Rui tornou-se o meu porto seguro; começámos a fazer planos juntos: faculdade, trabalho, talvez um dia uma família diferente daquela onde cresci.
Mas as feridas não desaparecem só porque mudamos de morada. Sempre que algo corria mal — uma nota má na faculdade, uma discussão com o Rui — ouvia na minha cabeça aquela voz: “A culpa é tua.”
Um dia recebi uma chamada inesperada do Tiago.
— A mãe está no hospital — disse ele seco. — Se quiseres vê-la antes dela morrer, é agora.
O coração bateu mais forte; hesitei antes de responder.
— Ela quer ver-me?
Do outro lado ouvi apenas silêncio.
Fui ao hospital no dia seguinte. Encontrei-a pálida na cama, os olhos fundos mas ainda duros.
— Vieste… — murmurou ela.
Sentei-me ao lado dela sem saber o que dizer.
— Sempre foste diferente… — disse ela depois de uns minutos em silêncio. — Nunca consegui confiar em ti… Não sei porquê…
As lágrimas correram-lhe pelo rosto enrugado. Pela primeira vez vi fragilidade naquela mulher dura.
— Mãe… eu só queria que me visse… Que acreditasse em mim…
Ela fechou os olhos e virou o rosto para a parede.
O Tiago entrou no quarto pouco depois e olhou para mim como se eu fosse uma intrusa.
— Já podes ir — disse ele secamente.
Saí do hospital com um peso no peito impossível de descrever. Nunca teria as respostas que procurava; nunca teria aquela validação tão desejada.
Hoje vivo com o Rui num pequeno apartamento em Benfica. Trabalho numa biblioteca municipal e estudo à noite para terminar o curso de História. Às vezes olho para trás e pergunto-me: será possível libertarmo-nos verdadeiramente do papel que nos foi imposto pela família? Ou passamos a vida inteira a tentar provar algo que nunca será reconhecido?
E vocês? Alguma vez sentiram que tinham de lutar pelo vosso lugar na família? Como é que se aprende a confiar em si próprio quando ninguém nunca acreditou em nós?