Entre Paredes e Silêncios: Quando o Meu Lar Deixou de Ser Meu
— Não preciso da tua opinião, Inês. Este é o meu irmão, e tu és-me uma estranha.
As palavras da Rita ecoaram pela sala como um trovão. Eu estava de pé, junto à porta da cozinha, com as mãos trémulas agarradas ao pano da loiça. O Miguel, meu marido, olhava para o chão, incapaz de me defender. A Rita tinha acabado de se mudar para nossa casa há duas semanas, depois do divórcio turbulento com o Paulo. E desde então, tudo mudou.
No início, tentei ser compreensiva. Afinal, ela não tinha para onde ir. O Miguel pediu-me paciência: “É só até ela se recompor, Inês. A Rita está perdida.” Mas cada dia era uma batalha. A Rita ocupava a sala com as suas caixas, espalhava os sapatos pelo corredor e falava alto ao telefone com a mãe, como se eu não existisse. O jantar era um campo minado de silêncios e olhares cortantes.
Naquela noite, depois do comentário dela, fugi para o quarto e fechei a porta com força. Sentei-me na cama e chorei baixinho. Senti-me pequena, invisível. Era como se a minha casa tivesse deixado de ser minha. Lembrei-me dos primeiros anos com o Miguel, quando sonhávamos em construir um lar só nosso. Agora, sentia-me uma intrusa.
No dia seguinte, tentei falar com o Miguel.
— Não aguento mais isto — confessei-lhe, enquanto ele vestia a camisa para ir trabalhar. — Sinto-me posta de lado na minha própria casa.
Ele suspirou.
— Inês, ela está a passar uma fase difícil. É só por uns tempos…
— Mas e eu? Não contas comigo? Não vês como ela me trata?
Ele desviou o olhar.
— Não compliques…
Aquela frase doeu mais do que qualquer insulto da Rita. Passei o dia a arrastar-me pela casa, tentando evitar cruzar-me com ela. Quando cheguei à cozinha para preparar o jantar, encontrei-a sentada à mesa, com o portátil aberto e papéis espalhados por todo o lado.
— Precisas de alguma coisa? — perguntei, tentando soar cordial.
Ela nem levantou os olhos.
— Não te preocupes comigo.
O desprezo era palpável. Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Queria gritar, exigir respeito, mas calei-me. O medo de criar mais conflito era maior do que a minha vontade de me impor.
Os dias passaram assim: eu a tentar ser invisível, ela a ocupar cada vez mais espaço. O Miguel chegava tarde do trabalho e evitava conversas difíceis. Uma noite, ouvi-os a falar na sala.
— Ela não percebe… — dizia a Rita em voz baixa. — Sempre foste o meu irmão protetor. Agora parece que tens vergonha de mim por estar aqui.
— Não digas isso… — respondeu ele, hesitante.
— A Inês nunca gostou de mim. Sinto-me um fardo nesta casa.
Mordi o lábio até quase sangrar. Era eu o fardo? Eu é que estava a mais?
No fim-de-semana seguinte, os meus pais vieram almoçar connosco. A Rita fez questão de monopolizar a conversa, contando histórias do divórcio e das injustiças que sofrera. Os meus pais trocaram olhares desconfortáveis comigo. Depois do almoço, a minha mãe puxou-me para a varanda.
— Filha, tens de impor limites — sussurrou ela. — Esta casa é tua também.
— E se o Miguel não me apoiar?
Ela apertou-me a mão.
— Então tens de pensar no que queres para ti.
Naquela noite, sentei-me sozinha na sala escura depois de todos se recolherem aos quartos. Olhei em volta: as fotografias do nosso casamento na estante pareciam pertencer a outra vida. Senti um vazio enorme.
No dia seguinte, tomei coragem e esperei que o Miguel chegasse do trabalho.
— Precisamos de falar — disse-lhe assim que entrou.
Ele largou as chaves no móvel da entrada e olhou para mim com cansaço.
— Sobre quê?
— Sobre nós. Sobre esta casa. Sobre a Rita.
Ele sentou-se no sofá e passou as mãos pelo rosto.
— Inês…
— Não! Agora ouves tu — interrompi-o, sentindo finalmente a força que me faltava há semanas. — Eu tenho sido paciente, compreensiva… Mas estou a perder-me aqui dentro! A Rita não me respeita, não faz esforço nenhum para se integrar nesta casa! Eu não sou uma estranha aqui!
Ele ficou em silêncio durante longos segundos.
— O que queres que eu faça? Que ponha a minha irmã na rua?
— Quero que escolhas por nós! Por mim! Quero sentir que esta casa é nossa outra vez!
A discussão subiu de tom. A Rita apareceu à porta da sala.
— Se sou um problema tão grande, posso ir embora! — gritou ela, os olhos cheios de lágrimas.
O Miguel levantou-se num salto.
— Calma! Ninguém está a expulsar ninguém!
Eu já não aguentava mais aquela tensão. Saí de casa e fui dar uma volta pelo bairro. O ar frio da noite acalmou-me um pouco. Sentei-me num banco do jardim e chorei tudo o que tinha guardado dentro de mim.
Quando voltei para casa, encontrei a Rita no corredor com uma mala feita.
— Vou para casa da mãe — disse ela secamente. — Não quero ser motivo de discórdia entre vocês.
O Miguel tentou demovê-la, mas ela estava decidida. Vi nos olhos dela uma mistura de mágoa e orgulho ferido.
Depois daquela noite, a casa ficou estranhamente silenciosa. O Miguel andava cabisbaixo; eu sentia-me aliviada mas também culpada. Será que fui egoísta? Será que devia ter aguentado mais?
Com o tempo, eu e o Miguel fomos reconstruindo o nosso espaço. Falámos muito sobre limites e respeito. A relação com a Rita ficou fria durante meses; só muito depois conseguimos conversar sem ressentimentos.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas vezes deixamos que os outros invadam os nossos limites por medo de sermos julgados? Até onde vai a lealdade familiar antes de nos perdermos de nós próprios?