Sob o Mesmo Teto: Quando a Maternidade se Torna um Peso
— Não aguentas nem uma noite sem reclamar, Inês! — gritou o Rui, atirando a almofada para o chão. O Tomás chorava no berço, já passava das três da manhã, e eu sentia o corpo a desfazer-se em cansaço. Tentei não chorar, mas as lágrimas caíram-me pelo rosto, quentes e silenciosas.
Por que é que ninguém me avisou que ser mãe era isto? Que o amor podia ser tão pesado? Que o cansaço podia transformar-se em raiva, e a raiva em culpa? Olhei para o Rui, de costas voltadas, e pensei: será que ele ainda me ama? Ou será que já só vê em mim uma sombra da mulher com quem casou?
Antes do Tomás nascer, éramos felizes. Ou pelo menos eu achava que sim. Trabalhávamos os dois — eu numa escola primária em Almada, ele numa empresa de informática em Lisboa. Ao fim de semana passeávamos na Costa da Caparica, ríamos juntos, fazíamos planos para viagens que nunca chegámos a fazer. Quando descobri que estava grávida, chorei de alegria. O Rui abraçou-me e disse: “Vai correr tudo bem, meu amor.”
Mas não correu. Ou talvez tenha corrido, só que ninguém me preparou para o depois. O parto foi difícil; estive quase vinte horas em trabalho de parto, sozinha na sala de hospital porque o Rui ficou preso no trânsito da Ponte 25 de Abril. Quando finalmente chegou, já eu tinha o Tomás nos braços e sentia-me vazia. Não era felicidade — era um vazio estranho, como se tivesse deixado uma parte de mim naquela sala.
Os primeiros dias em casa foram um turbilhão. A minha mãe veio ajudar, mas só criticava: “Não lhe pegues assim! O leite não está a subir porque andas nervosa! Tens de ser mais forte, Inês!” O Rui tentava ajudar, mas rapidamente se refugiou no trabalho. Passava horas no computador, dizia que precisava de descansar a cabeça. Eu ficava sozinha com o Tomás, a sentir-me cada vez mais pequena.
Uma noite, depois de mais uma discussão por causa das fraldas — sempre as fraldas! — fechei-me na casa de banho e olhei-me ao espelho. Não reconheci a mulher do outro lado. Olheiras fundas, cabelo desgrenhado, camisola manchada de leite. Senti vergonha. Lembrei-me das amigas que diziam que ser mãe era a melhor coisa do mundo. Porque é que eu não sentia isso? Porque é que só me apetecia fugir?
O Rui começou a chegar cada vez mais tarde. Dizia que havia muito trabalho no escritório, mas eu sabia que era mentira. Uma vez encontrei mensagens no telemóvel dele — nada de grave, mas conversas com uma colega nova, a Marta. Ri-se quando lhe perguntei: “Estás a esconder alguma coisa?” Ele respondeu: “Estás paranoica por causa das hormonas.” Senti-me humilhada.
A minha mãe continuava a vir cá a casa quase todos os dias. Em vez de ajudar, criticava tudo: “O Tomás está sempre a chorar porque tu estás nervosa! Tens de te organizar melhor! No meu tempo não havia estas modernices.” Um dia perdi a cabeça e gritei-lhe: “Se não vens para ajudar, então não venhas!” Ela saiu porta fora sem olhar para trás.
Fiquei sozinha com o Tomás nos braços. Ele olhou para mim com aqueles olhos grandes e inocentes e eu chorei tanto que pensei que nunca mais ia parar. Liguei à minha amiga Sofia — ela tinha sido mãe há seis meses — e desatei a desabafar:
— Não aguento mais, Sofia… Sinto-me uma péssima mãe.
— Inês, isso é normal! Eu também passei por isso. Tens de pedir ajuda.
— Mas a quem? O Rui não quer saber… A minha mãe só me critica…
— Vai ao centro de saúde. Fala com alguém. Não tens de passar por isto sozinha.
No dia seguinte fui ao centro de saúde. A enfermeira olhou para mim com ternura e disse: “Inês, isto chama-se depressão pós-parto. Não tens culpa.” Senti um alívio estranho — finalmente alguém punha nome ao que eu sentia.
Comecei a ir às consultas com uma psicóloga chamada Dra. Filipa. Ela ouvia-me sem julgar, fazia perguntas difíceis:
— Inês, porque é tão difícil pedir ajuda ao Rui?
— Porque tenho medo que ele pense que sou fraca…
— E se for? Não temos todos direito a ser frágeis?
Essas palavras ficaram comigo durante semanas. Comecei a tentar falar com o Rui outra vez:
— Rui… preciso mesmo da tua ajuda.
Ele suspirou:
— Eu também estou cansado, Inês… Não sei como lidar contigo assim.
— Eu sei… Mas se não formos equipa agora, quando é que vamos ser?
Houve silêncio entre nós durante muito tempo. Mas aos poucos começámos a encontrar pequenos momentos de paz: um café juntos enquanto o Tomás dormia; um passeio à beira-mar ao domingo; um abraço inesperado na cozinha.
A relação com a minha mãe também mudou. Um dia ela apareceu com um bolo caseiro e disse:
— Desculpa se fui dura contigo… No meu tempo ninguém falava destas coisas.
Chorámos as duas na cozinha enquanto o Tomás brincava no tapete.
Hoje olho para trás e vejo como estive perto de perder tudo: o meu casamento, a relação com a minha mãe, até o amor-próprio. Ainda há dias difíceis — noites mal dormidas, discussões por coisas pequenas — mas aprendi a pedir ajuda e a aceitar que não sou perfeita.
Às vezes pergunto-me: quantas mulheres passam por isto em silêncio? Quantas têm medo de admitir que ser mãe pode ser um fardo? Será que partilhar as nossas fragilidades nos torna mais fortes ou apenas mais humanas?