Acorda e Faz-me um Café: Como o Irmão do Meu Marido Abalou a Nossa Paz
— Acorda e faz-me um café, Ana. — A voz do Rui ecoou pelo corredor, rouca e impaciente, como se eu lhe devesse alguma coisa. Eram sete da manhã de um sábado, e eu ainda tentava perceber se estava a sonhar ou se aquilo era mesmo real. O Rui, irmão do meu marido Miguel, tinha-se mudado para nossa casa há duas semanas, supostamente só por uns dias. Mas os dias passaram, e ele parecia cada vez mais confortável no nosso sofá, nos nossos horários, na nossa rotina.
Levantei-me devagar, sentindo o peso da exaustão nos ossos. O Miguel dormia profundamente ao meu lado, alheio ao tumulto que se instalara na nossa casa desde que o irmão chegara. Fui até à cozinha, tentando não fazer barulho, mas o Rui já estava sentado à mesa, de robe aberto e olhar crítico.
— Então? — insistiu ele. — Não te importas de me fazer um cafézinho? Estou mesmo a precisar.
Respirei fundo. — Claro, Rui. — Disse, tentando esconder a irritação na voz. Preparei-lhe o café enquanto ele ligava a televisão no volume máximo. O cheiro a café misturava-se com o som estridente dos noticiários matinais.
— Sabes que a minha ex nunca me fazia esperar pelo pequeno-almoço — comentou ele, sem olhar para mim. — Era uma mulher despachada.
Mordi o lábio para não responder. Não era a primeira vez que Rui fazia comparações desagradáveis ou deixava insinuações sobre o que uma “boa mulher” devia ser. Desde que chegara, parecia determinado a testar os meus limites.
Quando Miguel finalmente acordou, já eu estava a lavar a loiça do pequeno-almoço de Rui. Ele entrou na cozinha, bocejando.
— Bom dia, amor… — murmurou, beijando-me na testa. — Está tudo bem?
Olhei para ele, hesitante. — O teu irmão pediu-me para lhe fazer café… outra vez.
Miguel encolheu os ombros. — Ele está a passar uma fase difícil, Ana. Dá-lhe só mais uns dias.
Mais uns dias… Quantas vezes já tinha ouvido aquela frase? Desde que Rui se separara da mulher e perdera o emprego, parecia que toda a família esperava que nós fôssemos o seu porto de abrigo. Mas ninguém perguntava como eu me sentia com isso.
Os dias seguintes foram uma sucessão de pequenas invasões: Rui usava as minhas toalhas sem pedir, deixava roupa espalhada pela casa, ocupava a sala com os seus telefonemas barulhentos até tarde. Uma noite, cheguei a casa depois de um turno longo no hospital e encontrei-o sentado no sofá com dois amigos desconhecidos, cervejas abertas e migalhas por todo o lado.
— Ana! Vem cá beber uma connosco! — gritou ele.
— Estou cansada, Rui. Só quero descansar.
Ele riu-se alto. — A vida é curta para dormir tanto!
Fui direta para o quarto e fechei a porta com força. Senti as lágrimas a subir-me aos olhos. O Miguel entrou pouco depois.
— Não ligues ao Rui. Ele está só a tentar animar-se…
— E nós? Quem é que pensa em nós? — perguntei-lhe, a voz embargada. — Isto não é vida, Miguel. Eu não aguento mais esta falta de respeito dentro da minha própria casa.
Ele passou as mãos pelo cabelo, frustrado. — Eu sei… Mas é meu irmão. Não posso simplesmente pô-lo na rua.
— E eu? Não sou tua família também?
O silêncio dele doeu mais do que qualquer palavra.
No dia seguinte, decidi falar com a minha mãe ao telefone. Ela sempre foi uma mulher prática e direta.
— Ana, tu tens de impor limites — disse ela sem rodeios. — Se não fores tu a fazê-lo, ninguém vai fazer por ti.
Pensei nisso durante todo o dia. Quando cheguei a casa nessa noite e vi Rui outra vez estendido no sofá, decidi que não podia continuar assim.
— Rui, precisamos de conversar — disse-lhe, tentando manter a calma.
Ele olhou para mim com sobrancelha levantada. — O que foi agora?
— Isto não pode continuar. Eu preciso do meu espaço. Preciso da minha casa de volta.
Ele bufou. — Estás a dizer-me para ir embora?
— Estou a pedir-te que procures outro sítio para ficar. Já passaram duas semanas…
Nesse momento, Miguel entrou na sala e percebeu imediatamente o clima tenso.
— O que se passa aqui?
Rui levantou-se num salto. — A tua mulher quer pôr-me na rua!
Miguel olhou para mim, depois para o irmão. — Ana tem razão. Isto já está a passar dos limites.
Rui ficou vermelho de raiva. — Vocês são iguais aos outros! Só pensam em vocês! Esqueceram-se depressa das vezes que vos ajudei!
— Não esquecemos nada — respondi eu, sentindo finalmente uma força nova dentro de mim. — Mas agora precisamos de pensar em nós também.
Rui saiu porta fora naquela noite, batendo com força atrás de si. O silêncio que ficou foi pesado e estranho; não era alívio imediato, mas sim uma sensação agridoce de perda e libertação ao mesmo tempo.
Nos dias seguintes, Miguel andou calado e distante. Senti-me culpada por ter sido eu a forçar aquela situação, mas também sabia que era necessário.
Uma noite sentei-me ao lado dele no sofá.
— Achas que fiz mal? — perguntei baixinho.
Ele demorou a responder.
— Não sei… Talvez tenha sido preciso. Só espero que o Rui perceba um dia.
Olhei para as minhas mãos trémulas e pensei em tudo o que tinha aguentado nas últimas semanas: as pequenas humilhações diárias, o sentimento de invisibilidade dentro da minha própria casa, o medo de magoar alguém por defender os meus próprios limites.
Agora pergunto-me: quantas vezes deixamos os outros passar por cima de nós só porque são família? Até onde vai o nosso dever de ajudar quem amamos antes de começarmos a perder-nos a nós próprios? E vocês… já passaram por algo assim?