Deixou-me por mensagem, mas eu… não fui vítima. A minha história de traição, força e recomeço

— Não acredito, Miguel! Vais mesmo acabar tudo assim? Por mensagem? — gritei para o telemóvel, a voz embargada, as mãos a tremerem tanto que quase deixei cair o aparelho.

O silêncio do outro lado era ensurdecedor. Só o som do meu próprio coração a bater descompassado preenchia a sala. O cheiro do café frio, esquecido na bancada, misturava-se com o perfume dele ainda pairando no ar. A mensagem era curta, cruel: “Desculpa, não consigo mais. Adeus.” Três frases que me arrancaram o chão.

Sentei-me no sofá, abracei as pernas e deixei as lágrimas caírem. O relógio da parede marcava 19h17. Era uma terça-feira como outra qualquer, mas para mim, o mundo tinha acabado ali. O Miguel e eu estávamos juntos há oito anos. Conhecemo-nos na faculdade em Coimbra, ele estudava Engenharia Civil, eu Letras. Sempre achei que éramos diferentes demais para resultar, mas ele fazia-me rir como ninguém. E agora… agora era só eu e o eco da sua ausência.

A minha mãe ligou-me nessa noite. — Filha, estás bem? — perguntou, com aquela voz que só as mães têm quando sentem que algo está errado.

— O Miguel foi-se embora — respondi, tentando soar forte. Mas a voz saiu-me num sussurro.

— Como assim foi-se embora? — Ela não percebeu logo. — Discutiram?

— Não. Mandou-me uma mensagem. Acabou tudo.

Do outro lado ouvi um suspiro pesado. — Vens dormir cá hoje?

— Não, mãe. Preciso de ficar sozinha.

Desliguei e olhei à volta. A casa estava cheia de memórias: fotografias nas paredes, livros que comprámos juntos, a manta azul que ele me ofereceu no Natal passado. Senti-me ridícula por chorar tanto por alguém que não teve coragem de me olhar nos olhos para dizer adeus.

No dia seguinte, fui trabalhar como se nada fosse. Os meus colegas do colégio sabiam que algo estava errado — a professora Ana nunca chegava atrasada nem esquecia os papéis na sala dos professores. A diretora chamou-me ao gabinete.

— Mariana, se precisares de uns dias…

— Estou bem — menti.

Mas não estava. As noites eram longas e frias. O Miguel não voltou para buscar as coisas dele. Mandou o irmão, o Rui, que apareceu numa sexta-feira à tarde com uma caixa de cartão.

— Desculpa, Mariana. Ele pediu para eu vir buscar isto — disse o Rui, sem me olhar nos olhos.

— Diz-lhe que não precisa de se preocupar. Já percebi a mensagem — respondi, tentando manter a dignidade.

Quando fechei a porta atrás dele, gritei tão alto que pensei que os vizinhos iam chamar a polícia. Senti raiva, vergonha e uma tristeza tão funda que me doía o corpo todo.

Os dias passaram devagar. A minha mãe insistia para eu ir jantar lá a casa. O meu pai fingia que não percebia nada, mas dava-me palmadinhas nas costas quando achava que ninguém via.

Uma noite, sentei-me à mesa com eles e desabei:

— O que é que eu fiz de errado? Porque é que ele me deixou assim?

A minha mãe pegou na minha mão:

— Filha, às vezes as pessoas são cobardes. Não é culpa tua.

O meu pai olhou-me nos olhos:

— Tens de ser forte. Não deixes que isto te defina.

Mas como não deixar? Toda a gente em Penacova sabia que o Miguel era “o meu namorado” desde sempre. Agora era “a rapariga que foi deixada por mensagem”.

As amigas tentavam animar-me:

— Vamos sair! Vais ver que esqueces isso num instante!

Mas eu não queria sair. Queria respostas. Queria saber se ele já estava com outra pessoa — e claro que estava. Descobri pelo Facebook: uma foto dele com a Andreia no Miradouro do Vale do Inferno. O coração caiu-me aos pés.

Mandei-lhe uma mensagem:

— Já tinhas alguém antes de acabares comigo?

Ele respondeu horas depois:

— Não te devo satisfações.

Apaguei o número dele do telemóvel e bloqueei-o em todo o lado. Mas as perguntas continuavam a ecoar na minha cabeça: “O que é que ela tem que eu não tenho?”, “Porque é que não fui suficiente?”

Comecei a ter ataques de ansiedade. Ia ao supermercado e sentia as pessoas a olharem para mim com pena. No trabalho, os miúdos perguntavam:

— Professora, porque está triste?

Eu sorria e dizia:

— Não estou triste, só estou cansada.

Mas à noite chorava até adormecer.

Foi a minha avó quem me salvou sem saber. Um domingo à tarde, fui visitá-la à aldeia de Lorvão. Ela estava sentada no quintal a descascar feijão-verde.

— Então menina Mariana, estás tão magrinha! — disse ela, olhando-me de cima a baixo.

Sentei-me ao lado dela e comecei a chorar outra vez.

Ela passou-me a mão pela cabeça:

— Olha filha, os homens vão e vêm. Mas tu ficas contigo para sempre. Não deixes ninguém tirar-te isso.

Essas palavras ficaram comigo dias e dias. Comecei a correr ao fim da tarde para libertar a raiva e a tristeza. Inscrevi-me num curso de escrita criativa em Coimbra. Conheci pessoas novas, ouvi histórias ainda mais tristes do que a minha e percebi que não era única nem especial na dor — mas podia ser especial na forma como reagia a ela.

Um dia, ao sair do curso, encontrei o Miguel na rua Visconde da Luz. Ele vinha de mão dada com a Andreia. Olhou para mim e desviou o olhar rapidamente.

Senti um aperto no peito, mas continuei a andar de cabeça erguida.

As semanas passaram e comecei a sentir-me mais leve. Voltei a rir com as amigas, aceitei convites para sair e até fui dançar ao NB pela primeira vez em anos.

A minha mãe disse-me:

— Estás diferente, filha! Até brilhas!

E eu percebi: já não era “a rapariga deixada por mensagem”. Era Mariana outra vez — só Mariana.

Um sábado à noite, sentei-me sozinha na varanda com um copo de vinho tinto e escrevi no meu diário:

“A dor passou. Não esqueci tudo, mas aprendi a viver com as cicatrizes. Sou mais forte do que pensei.”

Hoje olho para trás e vejo aquela Mariana perdida e assustada com ternura — mas também com orgulho por não ter deixado ninguém definir quem sou.

E vocês? Já passaram por algo assim? Acham mesmo possível perdoar uma traição ou esquecer completamente quem nos magoou?