Expulsei o meu marido e os sogros de casa. Não me arrependo — foi o recomeço da minha vida.
— Basta! — gritei, com a voz a tremer, mas sem hesitar. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que quase podia ouvi-lo a esmagar-me o peito. O Rui olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido. A minha sogra, Dona Teresa, apertou os lábios finos e cruzou os braços. O sogro, Senhor António, levantou-se devagar do sofá, como se o peso dos seus setenta anos fosse culpa minha.
— O que disseste, Ana? — perguntou o Rui, a voz baixa, como se quisesse evitar que os vizinhos ouvissem.
— Disse que chega. Quero-vos fora da minha casa. Hoje. — Senti as lágrimas a arderem-me nos olhos, mas não lhes dei esse gosto. Não mais.
Durante anos, fui a nora perfeita. Acordava cedo para preparar o pequeno-almoço ao Rui antes de ele sair para o trabalho. Aos domingos, a casa enchia-se de familiares: os sogros, as cunhadas, os sobrinhos. Eu sorria, servia bolos caseiros, fingia não ouvir as críticas veladas da Dona Teresa: “O arroz está um bocadinho passado, não achas?” ou “Na minha altura, as mulheres sabiam costurar.”
No início do casamento, pensei que era normal. Que era assim que se fazia parte de uma família portuguesa: engolir sapos, calar mágoas e sorrir para não criar ondas. Mas com o tempo, fui perdendo pedaços de mim. Deixei de pintar, deixei de sair com as minhas amigas. O Rui dizia sempre: “A família é o mais importante.” Mas nunca era a minha família — era sempre a dele.
A gota de água foi naquela noite. Tínhamos acabado de jantar e a Dona Teresa criticava o meu bacalhau à Brás pela terceira vez.
— Na próxima vez, posso trazer eu o jantar — disse ela, olhando-me de cima a baixo.
O Rui riu-se e disse: — Deixa lá, mãe. A Ana faz o melhor que pode.
O Senhor António nem olhou para mim. Limitou-se a encher o copo de vinho.
Senti uma raiva antiga a subir-me à garganta. Lembrei-me da minha mãe, já falecida, que me dizia: “Nunca deixes ninguém apagar quem tu és.” E ali estava eu, apagada.
Levantei-me da mesa tão depressa que a cadeira caiu atrás de mim.
— Chega! — gritei. — Esta é a minha casa! Estou farta de ser tratada como empregada! Farta das vossas críticas! Farta de me sentir invisível!
O Rui levantou-se também.
— Estás a exagerar, Ana. Eles são meus pais! Têm todo o direito de estar aqui!
— E eu? Não tenho direito à minha paz? Ao meu espaço? — A minha voz ecoou pela sala.
A Dona Teresa abanou a cabeça.
— Sempre foste sensível demais. O Rui merece melhor.
Foi aí que percebi: nunca seria suficiente para eles. E talvez nunca tivesse sido suficiente para o próprio Rui.
— Quero-vos fora — repeti. — Agora.
O Rui olhou-me como se eu fosse uma estranha.
— Não podes estar a falar a sério…
— Estou. E se não saírem agora, sou eu que saio. Mas desta vez não volto.
O Senhor António pousou o copo e levantou-se sem dizer palavra. A Dona Teresa lançou-me um olhar gelado e murmurou qualquer coisa sobre “ingratidão”. O Rui hesitou por um segundo, mas acabou por seguir os pais até à porta.
Quando fechei a porta atrás deles, as minhas pernas fraquejaram e caí no chão da entrada. Chorei tudo o que tinha para chorar — anos de frustração, solidão e medo.
Na manhã seguinte, acordei com o silêncio da casa vazia. Pela primeira vez em muito tempo, senti-me leve. Fui à janela e vi o sol a entrar pela cozinha. Preparei um café só para mim e sentei-me à mesa com um caderno em branco à frente.
Os dias seguintes foram estranhos. O Rui ligava-me todos os dias:
— Ana, vamos conversar? Não podes simplesmente acabar com tudo assim…
Eu desligava ou respondia com monosílabos. Sabia que se lhe desse espaço para argumentar, voltaria atrás. E eu não queria voltar atrás.
Os meus próprios pais tinham morrido há anos; só me restava uma tia distante em Viseu e alguns amigos que fui afastando ao longo do casamento. Senti-me sozinha como nunca antes — mas também livre.
Comecei a sair sozinha aos fins-de-semana. Fui ao cinema ver filmes franceses que o Rui detestava. Voltei a pintar — comprei telas e tintas com o pouco dinheiro que tinha guardado do meu trabalho como professora primária.
As vizinhas começaram a cochichar:
— Ouviste? A Ana pôs o marido fora de casa…
No supermercado, sentia olhares de reprovação ou pena. Mas também recebi mensagens inesperadas:
— Ana, admiro-te pela coragem — escreveu-me a Sofia, uma colega antiga da escola.
Certa tarde, encontrei a Dona Teresa na rua. Ela parou à minha frente e disse:
— O Rui está desfeito. Nunca pensei que fosses capaz disto.
Olhei-a nos olhos e respondi:
— Talvez nunca me tenha conhecido verdadeiramente.
Ela virou costas sem dizer mais nada.
O Rui tentou voltar várias vezes. Chegou a aparecer à porta com flores:
— Dá-me outra oportunidade…
Mas eu já não era a mesma mulher submissa de antes.
Comecei terapia para lidar com os anos de anulação e baixa autoestima. Descobri que tinha direito ao meu espaço e às minhas escolhas.
Um dia, sentei-me no café do bairro com a Sofia e contei-lhe tudo:
— Sinto-me culpada por ter destruído uma família…
Ela segurou-me na mão:
— Não destruíste nada. Salvaste-te a ti própria.
Voltei a dar aulas numa escola pública em Lisboa. Os miúdos enchiam-me de alegria e energia nova. Pela primeira vez em anos, sentia orgulho em mim mesma.
O divórcio foi difícil; o Rui tentou ficar com metade da casa dos meus pais, mas acabei por conseguir manter o lar onde finalmente me sentia em paz.
Hoje olho para trás e vejo aquela noite como um renascimento doloroso mas necessário. Sei que muitas mulheres portuguesas vivem presas às expectativas das famílias dos maridos — anulam-se em nome da tradição ou do medo do escândalo.
Mas pergunto-me: quantas de nós têm coragem de dizer basta? Quantas continuam caladas por medo do que os outros vão pensar?
E tu? Já sentiste vontade de gritar ao mundo quem realmente és?