“Não cases agora, Inês!” – Uma noiva em fuga do controlo de uma família portuguesa
— Inês, não te atrevas a sair daqui! — A voz da minha sogra, Dona Teresa, ecoava pelo átrio frio da igreja, misturando-se com o cheiro a flores frescas e cera derretida. O vestido branco pesava-me no corpo como uma armadura, mas por dentro sentia-me nua, exposta, vulnerável. O meu coração batia tão alto que abafava o som dos sinos e das conversas sussurradas dos convidados.
Olhei para o espelho improvisado na porta lateral e vi uma mulher que mal reconhecia. Os olhos vermelhos de tanto chorar na noite anterior, o cabelo preso com ganchos que me magoavam o couro cabeludo, e um sorriso forçado que já não enganava ninguém. “É só mais um passo, Inês. Só mais um sacrifício pela família”, repetia-me Dona Teresa desde o dia em que aceitei casar com o Ricardo.
Mas ninguém perguntava o que eu queria. Nem a minha mãe, Maria do Carmo, que se limitava a dizer: — Filha, é assim que as coisas são. Casamento é para sempre. Aguenta.
Aguenta. Sempre aguentei. Aguentei os jantares em casa dos pais do Ricardo, onde cada palavra minha era corrigida, cada opinião era motivo de olhares reprovadores. Aguentei as críticas veladas à minha família — “A tua mãe é muito simples, não é?” — e as exigências absurdas sobre o casamento: a lista de convidados interminável, a escolha da igreja, até o vestido foi imposto por Dona Teresa.
Na noite anterior, sentada na cama do meu quarto de infância, ouvi a minha irmã mais nova, Sofia, bater à porta.
— Inês… — sussurrou ela, entrando devagarinho. — Tens a certeza disto?
Olhei para ela, para os seus olhos grandes e sinceros. — Não sei, Sofia. Sinto-me presa. Como se estivesse a viver a vida de outra pessoa.
— Então foge. Faz como nos filmes! — tentou brincar, mas vi o medo no seu olhar.
— Não posso. Ia desiludir toda a gente. Ia ser um escândalo…
Agora, à porta da igreja, com todos os olhares postos em mim, percebi que o escândalo já estava dentro de mim. Era a minha alma a gritar por liberdade.
Ricardo apareceu ao meu lado, nervoso. — Estás pronta? — perguntou-me baixo, tentando sorrir.
— Ricardo… — comecei, mas ele interrompeu-me:
— Por favor, não faças isto agora. A minha mãe está nervosa. O meu pai já está a olhar para o relógio. Não compliques.
Não compliques. Era sempre assim: eu era o problema por sentir demais, por querer demais.
A porta da igreja abriu-se e vi os convidados levantarem-se. O organista começou a tocar e senti as pernas tremerem.
Foi então que vi o meu pai ao fundo da nave. O meu pai, António, sempre tão calado e ausente desde que perdeu o emprego na fábrica. Mas naquele momento olhou-me nos olhos e abanou ligeiramente a cabeça. Um gesto quase impercetível, mas cheio de significado: “Faz o que tens de fazer”.
O mundo parou. Larguei o braço do Ricardo e corri para fora da igreja. Ouvi gritos atrás de mim — Dona Teresa a berrar “Inês! Volta aqui!”, a minha mãe a chorar baixinho “O que é que eu vou dizer às vizinhas?”, Sofia a correr atrás de mim.
Corri pelas ruas empedradas de Évora, sentindo o vestido rasgar-se nos joelhos e as lágrimas misturarem-se com suor e maquilhagem. Sentei-me num banco do jardim público e tentei recuperar o fôlego.
Sofia chegou pouco depois e sentou-se ao meu lado.
— Fizeste bem — disse ela, ofegante. — Finalmente pensaste em ti.
— E agora? O que faço agora? — perguntei-lhe, perdida.
Ela sorriu:
— Agora vives.
Os dias seguintes foram um turbilhão de telefonemas furiosos da família do Ricardo, mensagens ameaçadoras de Dona Teresa — “Nunca mais vais ser bem-vinda nesta cidade!” — e silêncios magoados da minha mãe. O meu pai foi o único que me procurou no quarto onde me escondia:
— Sabes… Quando casei com a tua mãe também tive medo. Mas pelo menos era escolha minha. Tu tens esse direito também.
Chorei no seu ombro como não chorava desde criança.
Com o tempo, fui reconstruindo a minha vida. Arranjei trabalho numa livraria pequena no centro da cidade e aluguei um quarto numa casa partilhada com outras raparigas como eu: fugidas de expectativas alheias, à procura de si próprias.
A minha mãe demorou meses até me perdoar. Só quando viu que eu estava feliz — verdadeiramente feliz — é que me abraçou e disse:
— Desculpa filha. Eu só queria proteger-te do sofrimento… Nunca pensei que te estava a prender.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas mulheres vivem vidas que não escolheram? Quantas Inês existem em Portugal?
E vocês? Já sentiram que estavam a viver para agradar aos outros? Até onde iriam para serem fiéis a vocês próprios?