A Beleza Enigmática: O Silêncio de Vitória aos 42 Anos

— Então, Vitória, porque é que uma mulher como tu está sozinha há tanto tempo? — A pergunta do Tomás pairou no ar como uma faca afiada, cortando o silêncio confortável do restaurante. O vinho tinto ainda rodopiava no meu copo, mas a minha mão tremia ligeiramente. Olhei para ele, tentando decifrar se era curiosidade genuína ou apenas mais uma tentativa de me desarmar.

Sorri, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Não sei se estás preparado para ouvir a resposta verdadeira, Tomás.

Ele inclinou-se para a frente, olhos castanhos fixos nos meus. — Surpreende-me.

Naquele instante, todo o peso dos meus 42 anos pareceu cair-me em cima dos ombros. Lembrei-me da última vez que alguém me fizera essa pergunta — foi a minha mãe, há quase dez anos, quando decidi sair de casa depois de mais uma discussão sobre o meu futuro. “Vais acabar sozinha, Vitória. Nenhum homem vai aguentar esse teu feitio.”

A verdade é que nunca fui fácil. Cresci em Aveiro, numa casa onde o silêncio era regra e os segredos eram moeda de troca. O meu pai era um homem ausente, sempre perdido entre turnos na fábrica e copos no café da esquina. A minha mãe, Maria do Céu, era uma mulher dura, moldada pela vida e pela necessidade de sobreviver. Tinha dois irmãos mais novos, o Rui e a Joana, ambos casados e com filhos — ambos a viverem vidas que a minha mãe sempre desejou para mim.

— Não é falta de oportunidades — comecei, pousando o copo na mesa. — É uma escolha. Ou talvez seja medo. Ou talvez seja só cansaço.

Tomás sorriu, mas havia algo nos seus olhos que me dizia que ele não acreditava. — Ninguém escolhe estar sozinho tanto tempo sem razão.

— E se eu te dissesse que há razões que não se dizem? — desafiei.

Ele riu-se, mas não respondeu. O jantar continuou entre silêncios desconfortáveis e perguntas banais sobre trabalho e viagens. Mas dentro de mim, a tempestade já tinha começado.

Quando cheguei a casa naquela noite, sentei-me no sofá escuro da sala e deixei-me afundar nas memórias. Lembrei-me do Miguel, o único homem por quem me apaixonei verdadeiramente. Tinha 28 anos e acreditava que finalmente ia ser feliz. Mas o Miguel queria filhos, queria uma família grande e barulhenta — tudo aquilo que eu sempre temi. Quando lhe disse que não queria ser mãe, ele olhou para mim como se eu fosse um erro da natureza.

— Não percebo como podes ser tão egoísta — disse ele na altura. — A vida é feita de partilha.

— E se eu não tiver nada para partilhar? — respondi-lhe, com lágrimas nos olhos.

Ele foi embora nessa noite e nunca mais voltou. Desde então, aprendi a fechar portas antes que alguém as pudesse bater na minha cara.

Os anos passaram e fui-me habituando à solidão. Tornei-me bibliotecária numa escola secundária em Aveiro, onde os livros eram companhia suficiente e os alunos raramente faziam perguntas difíceis. A minha mãe ligava-me todas as semanas para perguntar quando é que ia arranjar alguém ou pelo menos dar-lhe um neto. O Rui e a Joana convidavam-me para jantares de família onde eu era sempre a tia solteira, aquela de quem se tem pena mas nunca se inveja.

Uma vez, num desses jantares, a minha sobrinha Inês perguntou-me:

— Tia Vitória, porque é que não tens marido?

Sorri-lhe e disse:

— Porque ainda não encontrei ninguém tão interessante como tu.

Ela riu-se e abraçou-me. Mas vi nos olhos da minha mãe um olhar de reprovação silenciosa.

Com o tempo, aprendi a gostar da minha rotina: acordar cedo, tomar café na varanda enquanto via os vizinhos apressados a sair para o trabalho; caminhar até à escola; perder-me entre estantes de livros antigos; regressar a casa ao fim do dia e preparar um jantar simples só para mim. Às vezes sentia falta de alguém ao meu lado na cama ou de uma voz amiga ao fim do dia. Mas outras vezes sentia alívio por não ter de dar satisfações a ninguém.

Quando conheci o Tomás — divorciado há quase dez anos, com um charme fácil e um sorriso aberto — achei que talvez pudesse ser diferente. Ele era atencioso, fazia perguntas inteligentes e parecia realmente interessado em conhecer-me para além das aparências. Mas aquela pergunta no restaurante fez-me perceber que ninguém está realmente preparado para ouvir as verdades dos outros.

No dia seguinte ao nosso encontro, recebi uma mensagem dele:

“Gostava de te ver outra vez. Sinto que tens muito para contar.”

Fiquei horas a olhar para o telemóvel sem saber o que responder. Queria acreditar que podia confiar nele, mas algo dentro de mim gritava para não baixar a guarda.

Na semana seguinte aceitei encontrá-lo para um café à beira-ria. O céu estava cinzento e havia cheiro a chuva no ar.

— Estive a pensar no que disseste — começou ele assim que me sentei à mesa. — Sobre escolhas e medos.

Assenti em silêncio.

— Sabes… também já tive medo de ficar sozinho — confessou ele. — Mas acho que todos temos direito a recomeçar.

Olhei-o nos olhos e vi sinceridade ali. Mas também vi expectativa — aquela esperança ingénua de que eu pudesse ser salva ou transformada pelo amor dele.

— Tomás… eu não preciso de ser salva — disse-lhe baixinho. — Preciso só de ser aceite como sou.

Ele ficou calado durante uns segundos longos demais.

— E se eu quiser tentar? — perguntou finalmente.

Suspirei fundo. — Então tens de aceitar que nem sempre vou querer companhia. Que às vezes vou precisar do meu espaço e do meu silêncio. Que talvez nunca queira casar ou ter filhos.

Ele sorriu tristemente. — Não sei se consigo prometer isso tudo.

— Então talvez seja melhor não começarmos nada — respondi-lhe com um nó na garganta.

Voltámos a caminhar juntos até ao carro em silêncio. Quando me despedi dele naquela tarde chuvosa, senti uma mistura estranha de alívio e tristeza. Sabia que tinha feito o certo por mim mesma, mas também sabia que ia continuar a ser vista como aquela mulher estranha que prefere estar sozinha do que mal acompanhada.

À noite liguei à minha mãe só para ouvir a voz dela. Falámos pouco; ela perguntou-me se estava tudo bem e eu disse que sim. Antes de desligar, ouvi-a suspirar do outro lado da linha:

— Gostava tanto que fosses feliz, filha…

Fiquei a olhar para o teto escuro do quarto durante muito tempo depois disso. O que é afinal ser feliz? Será possível encontrar paz na solidão? Ou será apenas uma forma elegante de fugir ao medo?

Talvez nunca saiba responder a estas perguntas. Mas sei que cada escolha tem um preço — e eu estou disposta a pagá-lo se isso significar ser fiel a mim mesma.

E vocês? Acham mesmo que é possível ser feliz sozinho? Ou será sempre preciso alguém ao nosso lado para dar sentido à vida?