“Se tivesses um pingo de consciência, ao menos lavavas a loiça”: A história de uma mãe portuguesa deixada para trás
— Se tivesses um pingo de consciência, ao menos lavavas a loiça, mãe! — gritou o Miguel, com uma raiva que nunca lhe tinha ouvido antes. Fiquei parada no meio da cozinha, com as mãos molhadas de detergente e o coração a bater descompassado. O cheiro do arroz queimado ainda pairava no ar, misturado com o perfume barato que comprei no Pingo Doce para me sentir menos sozinha. Olhei para ele, o meu filho, o meu menino, agora homem feito, e não consegui dizer nada. Só me lembrei do dia em que o trouxe para casa, embrulhado numa manta azul, depois do pai dele ter ido embora sem olhar para trás.
Sempre fui só eu e o Miguel. O António, meu ex-marido, foi-se embora quando o Miguel tinha três anos. Disse-me que não aguentava mais a rotina, que precisava de viver. Eu fiquei com as contas, com as noites mal dormidas e com o silêncio pesado da casa. Trabalhei anos a fio como empregada de limpeza na escola primária da aldeia. Nunca me queixei. O Miguel era tudo para mim. Fazia-lhe o pequeno-almoço todos os dias, mesmo quando ele já era adolescente e resmungava por acordar cedo. Ia às reuniões na escola, mesmo quando os outros pais cochichavam sobre mim — “a Maria do Carmo, coitada, ficou sozinha”.
Quando o Miguel entrou na universidade em Lisboa, chorei durante semanas. A casa ficou vazia, mas eu sentia orgulho. Ele era o primeiro da família a ir tão longe. Trabalhava à noite para lhe pagar o quarto e os livros. Ele vinha aos fins-de-semana, trazia roupa suja e histórias novas. Eu ouvia tudo com atenção, mesmo quando falava da namorada nova ou dos amigos que eu nunca ia conhecer.
Depois veio a Marta. Uma rapariga bonita, de cabelo escuro e olhos vivos. Conheci-a num jantar de Natal cá em casa. Ela sorriu-me, trouxe um bolo de chocolate e ajudou-me a pôr a mesa. Pensei: “O meu filho encontrou alguém bom.” Mas com o tempo percebi que havia distância nos gestos dela, uma frieza educada. O Miguel mudou também. Ligava menos vezes, vinha menos a casa.
Quando nasceu a Leonor, a minha neta, senti-me renascer. Fui ao hospital com um ramo de flores e um casaquinho tricotado por mim. A Marta agradeceu, mas percebi logo que não queria muita proximidade. O Miguel parecia cansado, distante.
Os anos passaram depressa demais. A Marta arranjou trabalho em Braga e levaram a Leonor com eles. Eu ficava semanas sem notícias. Telefonava ao Miguel — às vezes atendia, outras vezes não. Quando vinha cá, era sempre à pressa. Um dia apareceu sozinho e disse-me:
— Mãe, tens de perceber que não podes estar sempre a ligar. A Marta acha que estás a invadir a nossa vida.
Senti uma dor aguda no peito. Eu só queria saber se estavam bem.
No Natal passado insisti para virem cá jantar. Fiz bacalhau à Brás e arroz doce como ele gostava em pequeno. A Marta passou o jantar no telemóvel e a Leonor brincava sozinha na sala. O Miguel estava calado. Quando fui buscar o bolo-rei à cozinha, ouvi-os discutir baixinho:
— Não aguento mais isto — dizia ela.
— É só uma noite — respondia ele.
— Ela faz-me sentir uma estranha na própria casa.
Fingi que não ouvi nada. Sentei-me à mesa com um sorriso forçado.
Depois desse Natal tudo piorou. A Marta deixou de vir cá e o Miguel vinha cada vez menos. Um dia apareceu com uma mala na mão.
— Mãe… posso ficar uns dias? Eu e a Marta estamos… — hesitou — estamos separados.
Abracei-o sem perguntar nada. Preparei-lhe o quarto como quando era miúdo. Durante semanas tentei animá-lo: cozinhava os pratos preferidos dele, comprava cerveja Sagres como ele gostava, sentava-me ao lado dele no sofá mesmo quando ele não dizia nada.
Mas ele estava diferente: fechado, irritadiço, passava horas no telemóvel ou a olhar para o vazio.
Uma noite ouvi-o ao telefone:
— Não percebes? Ela está sempre em cima de mim! Não me deixa respirar! — gritava ele.
No dia seguinte tentei falar com ele:
— Filho… se precisares de conversar…
— Deixa-me em paz! — respondeu ele seco.
Fiquei calada. Lavei a loiça devagarinho para não fazer barulho.
As semanas passaram e percebi que ele não procurava trabalho nem falava com ninguém da família. A minha irmã Teresa ligou-me preocupada:
— Maria do Carmo, tens de lhe dar um empurrão! Ele não pode ficar aí encostado!
Mas como é que se empurra um filho quando tudo o que queremos é protegê-lo?
Um sábado à tarde decidi falar com ele:
— Miguel… tens de pensar no teu futuro. Não podes ficar aqui para sempre.
Ele levantou-se num salto:
— Achas que não sei? Achas que não sinto vergonha? Tu nunca confiaste em mim! Sempre me fizeste sentir um inútil!
Fiquei sem palavras. Ele saiu porta fora e só voltou tarde da noite.
No dia seguinte tentei fazer as pazes:
— Fiz arroz de pato como gostavas…
— Não quero comer! — atirou ele — Se tivesses um pingo de consciência ao menos lavavas a loiça!
Foi como se me tivessem dado uma bofetada.
Passei a noite acordada a pensar onde é que falhei como mãe. Dei tudo por ele: abdiquei dos meus sonhos, das minhas amizades, até da minha saúde. E agora era isto: solidão e mágoa.
Nos dias seguintes tentei manter as rotinas: ia trabalhar, fazia compras no supermercado local onde toda a gente me conhecia pelo nome mas ninguém sabia da minha tristeza. À noite sentava-me sozinha na sala a ver novelas antigas na RTP Memória.
O Miguel acabou por sair de casa sem dizer adeus. Soube pela Teresa que voltou para Braga para tentar reconciliar-se com a Marta e ver mais vezes a Leonor.
Fiquei sozinha naquela casa grande demais para mim e pequena demais para tanta saudade.
Às vezes pergunto-me: será possível dar tudo por um filho e acabar acusado de destruir-lhe a vida? Onde é que está o limite entre amor e sufoco? E vocês… já sentiram este vazio?