“Não Quero Ser Mãe! Quero Viver, Divertir-me e Aproveitar a Vida!” – O Segredo da Minha Filha e o Abalo na Nossa Família
— Não quero ser mãe! Quero viver, divertir-me e aproveitar a vida! — O grito da Leonor ecoou pela casa, cortando o silêncio da noite como uma faca afiada. Fiquei ali, parada no corredor, com o coração a bater tão forte que quase me doía no peito. Nunca imaginei ouvir estas palavras da boca da minha filha. Leonor, com apenas dezassete anos, sempre foi a menina dos meus olhos, a minha esperança de que tudo podia ser diferente do que foi comigo.
Naquele momento, senti-me pequena, impotente. O meu marido, António, estava sentado à mesa da cozinha, com as mãos na cabeça, sem saber o que dizer. O silêncio dele era ainda mais ensurdecedor do que o grito da Leonor. Eu queria abraçá-la, mas ela afastou-se de mim como se eu fosse o inimigo.
— Leonor, por favor… — tentei aproximar-me, mas ela recuou ainda mais, encostando-se à parede. — Não percebes? Eu não quero isto! Não quero ser como tu! — atirou-me à cara, e as palavras dela feriram-me mais do que qualquer bofetada.
Senti as lágrimas a subir-me aos olhos. Recordei-me de quando tinha a idade dela e também engravidei cedo demais. A diferença é que eu não tive escolha. Os meus pais obrigaram-me a casar com o António e a abandonar os meus sonhos. Sempre jurei que seria diferente com a minha filha, mas agora via-a ali, perdida e zangada, e não sabia o que fazer.
— Como é que me escondeste isto? — perguntei-lhe, tentando controlar a voz. Ela desviou o olhar. — Tive medo… — murmurou. — Medo de quê? De mim? Do teu pai? — insisti. Ela encolheu os ombros e olhou para o chão.
O António levantou-se finalmente e aproximou-se dela. — Leonor, quem é o pai? — perguntou num tom baixo mas firme. Ela mordeu o lábio inferior e hesitou antes de responder:
— É o Miguel…
O Miguel era um rapaz do bairro, dois anos mais velho que ela. Não gostava dele, sempre achei que era má influência, mas nunca pensei que as coisas chegassem a este ponto.
— Ele sabe? — perguntei. Leonor abanou a cabeça. — Não… não consegui dizer-lhe.
Ficámos todos em silêncio durante uns segundos eternos. O António saiu da cozinha sem dizer palavra. Ouvi a porta do quintal bater com força.
A minha cabeça girava. Senti raiva, tristeza, medo… tudo ao mesmo tempo. Como é que não percebi nada? Como é que deixei isto acontecer?
Naquela noite não dormi. Fiquei sentada na sala, a olhar para as fotografias antigas da Leonor em criança: os seus olhos grandes e curiosos, o sorriso aberto… Quando foi que deixei de a conhecer?
No dia seguinte, tentei falar com ela de novo. Preparei-lhe o pequeno-almoço favorito: torradas com manteiga e chocolate quente. Ela apareceu na cozinha de pijama, com os olhos inchados de tanto chorar.
— Senta-te aqui comigo — pedi-lhe suavemente.
Ela sentou-se à mesa, mas não tocou na comida.
— Leonor… eu sei que estás assustada. Mas precisamos de falar sobre isto. Sobre o bebé…
Ela interrompeu-me:
— Eu não quero ter este bebé! Não quero ser mãe agora! Eu só queria ir à universidade, viajar…
Apertei-lhe a mão por cima da mesa.
— Eu compreendo-te, filha. Mais do que imaginas. Mas precisamos de pensar juntas no que vais fazer agora.
Ela olhou-me nos olhos pela primeira vez em dias.
— E se eu não quiser ter? Se quiser interromper?
O meu coração apertou-se ainda mais. Sabia que em Portugal era possível interromper a gravidez até às dez semanas, mas também sabia o peso dessa decisão.
— Seja qual for a tua decisão, eu vou estar aqui para ti — disse-lhe, tentando esconder o medo na minha voz.
Nesse momento entrou o António, ainda com cara fechada.
— Isto é uma vergonha… — murmurou ele. — Na nossa casa…
— António! — cortei-o imediatamente. — Não ajudas nada assim!
Ele olhou para mim como se eu fosse uma traidora.
— Sempre foste mole com ela! Agora vê no que deu!
A Leonor levantou-se de rompante e saiu da cozinha a correr. Ouvi-a bater a porta do quarto.
Fiquei ali sentada com o António em silêncio pesado entre nós.
— Achas mesmo que gritar vai resolver alguma coisa? — perguntei-lhe finalmente.
Ele passou as mãos pelo rosto e suspirou.
— Não sei… Não sei fazer melhor…
Durante dias andámos todos às voltas pela casa como fantasmas. A Leonor fechou-se no quarto, mal comia ou falava connosco. O António começou a chegar mais tarde do trabalho para evitar confrontos. Eu sentia-me sozinha no meio daquela tempestade.
Uma tarde ouvi vozes no quarto da Leonor. Fui espreitar e vi-a ao telefone com alguém.
— Não posso falar agora… Sim… Eu sei… Não sei o que vou fazer…
Quando me viu à porta, desligou imediatamente.
— Era o Miguel? — perguntei.
Ela assentiu com um aceno quase imperceptível.
— Ele quer saber se vais ter o bebé?
Ela encolheu os ombros.
— Ele diz que faz o que eu quiser… Mas eu nem sei o que quero!
Sentei-me ao lado dela na cama e abracei-a finalmente.
— Ninguém te pode obrigar a nada, Leonor. Mas tens de pensar bem no que queres para ti.
Ela chorou no meu ombro durante minutos intermináveis.
Os dias passaram e marcámos uma consulta no centro de saúde. A enfermeira foi compreensiva e explicou-lhe todas as opções: manter a gravidez ou interromper legalmente.
Naquela noite jantámos juntos pela primeira vez em semanas. O António estava calado mas ouviu tudo quando a Leonor falou:
— Decidi… Vou interromper a gravidez.
O silêncio caiu sobre nós como uma pedra pesada. O António levantou-se e saiu sem dizer palavra.
Eu abracei-a e disse-lhe:
— Vai correr tudo bem…
No dia da intervenção acompanhei-a ao hospital. Esperei horas na sala de espera com as mãos geladas e o coração apertado. Quando finalmente saiu, estava pálida mas aliviada.
Em casa, as coisas demoraram muito tempo a voltar ao normal. O António demorou meses até conseguir olhar para ela sem mágoa nos olhos. Eu própria tive de lutar contra os meus próprios fantasmas: será que falhei como mãe? Será que devia ter sido mais rígida?
A Leonor voltou à escola e começou a sair mais com as amigas. Aos poucos foi recuperando o sorriso, mas nunca mais foi exatamente igual.
Um dia sentei-me com ela na varanda ao fim da tarde.
— Achas que algum dia me vais perdoar? — perguntei-lhe baixinho.
Ela olhou para mim com ternura inesperada.
— Mãe… tu estiveste sempre aqui por mim. Eu é que preciso de me perdoar primeiro.
Ficámos ali em silêncio, lado a lado, enquanto o sol se punha sobre Lisboa.
Hoje olho para trás e penso: será que alguma vez estamos preparados para sermos pais dos nossos filhos adolescentes? Será possível proteger quem amamos das dores inevitáveis da vida? Talvez só possamos mesmo estar presentes — mesmo quando tudo parece perdido.